Edição original em CD Digipak Universal 3539584
(PORTUGAL 2020, Novembro 20)
Na memória da obra de José Fonseca e Costa (1933-2015), "Kilas, o Mau da Fita" constitui uma referência incontornável - na sua origem está a vontade de recuperar e transfigurar toda uma tradição cómica que passa pelo teatro de revista. Quando relembramos a obra de José Fonseca e Costa, pensamos desde logo no seu empenho em revisitar momentos críticos da história de Portugal e também no gosto em explorar os territórios do melodrama. E pensamos também no seu sentido de humor - precisamente à maneira de "Kilas, o Mau da Fita". Alguns dos momentos mais célebres da comédia cinematográfica portuguesa, em particular nas décadas de 1930/40, estão ligados à tradição do teatro de revista. "Kilas, o Mau da Fita" é um filme que acredita na possibilidade de revisitar essa tradição. As personagens vivem tanto das suas componentes cómicas como da personalidade dos respectivos intérpretes. Não admira, por isso, que este tenha sido um filme que conferiu especial evidência aos nomes principais do seu elenco - em particular, como é óbvio, Mário Viegas no papel do Kilas e também Lia Gama, transfigurando-se e cantando como Pepsi Rita.
A imagem é um retrato quase banal: um homem e uma caixa de viola numa estação de comboios, um relógio onde ainda não são duas horas, um cartaz na parede com o mesmo homem e a mesma viola, gente normal em volta. O homem da viola é Sérgio Godinho, a estação, lê-se no painel de azulejo sobre a porta, é Campolide. Há 38 anos, o homem, a viola e a estação tornaram-se num disco com dez canções sem tempo. "Campolide" é o sexto álbum de originais de Sérgio Godinho, quarto gravado e publicado após o 25 de Abril e o regresso a Portugal do compositor. É, também, o segundo e último que grava para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. "Campolide", porém, não é sequer o título de qualquer das canções deste álbum. Chama-se assim, apenas, porque foi gravado nos estúdios localizados no 103-C da Rua de Campolide, ao tempo propriedade da empresa de Arnaldo Trindade e conhecidos como «estúdios de Campolide», onde gravaram algumas das mais importantes figuras da música portuguesa. Foi aqui, por exemplo, que em 1969 Adriano Correia de Oliveira registou o histórico "O Canto e As Armas", sobre poemas de Manuel Alegre. Adriano cumpria o serviço militar, tal como Rui Pato, que o acompanhou à viola: «O disco foi gravado durante duas noites de patrulha da polícia militar do alferes Adriano, com ele fardado e com a pistola, o capacete e a braçadeira poisados em cima do piano, e o jipe a passear por Lisboa, com a cumplicidade de certos militares amigos», contaria Rui Pato, muitos anos depois. Adriano foi apenas uma das vozes que se fizeram ouvir nos estúdios de Campolide, que durante anos estiveram para Lisboa um pouco como os estúdios de Abbey Road para a capital inglesa. De Zeca Afonso a Fausto Bordalo Dias, passando por Carlos Mendes, Maria da Fé ou Tony de Matos, praticamente não houve nome grande da música portuguesa que por ali não tenha passado. Não admira, pois, que acabasse por ser nome próprio de um disco. Este, de Sérgio Godinho.
A Sassetti, que integrava a etiqueta Guilda da Música onde tinha lançado os seus quatro primeiros albuns, estava longe de, em 1977, responder aos desejos de Sérgio Godinho, então com uma carreira que crescia em solidez e popularidade. Entre a concorrência, na altura, a Arnaldo Trindade era, a par da Valentim de Carvalho, quem tinha o maior acervo de artistas portugueses, o maior catálogo. Para lá gravavam, então, nomes como os de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto ou Vitorino, aos quais a partir daquele ano se juntou o nome de Sérgio Godinho. Primeiro trabalho, portanto, a ser editado pela Orfeu da Arnaldo Trindade, em Maio de 1978, “Pano Cru”, o quinto album de originais do Sérgio é ainda hoje, quase 40 anos depois (!), o meu favorito entre todos. Com um som de Moreno Pinto em que os graves, predominantes, conferiam logo desde a primeira faixa («...muito boa noite, senhoras e senhores...») um impacto sonoro de grande profundidade, “Pano Cru” concretiza os sinais de mudança indiciados no trabalho anterior. É um album-charneira na discografia de Sérgio Godinho que contém dez temas de grande qualidade. Como se costumava dizer, no tempo do vinil, um album em que só era necessário levantar a agulha para mudar de lado.
Este quarto album de Sérgio Godinho solidificava, em 1976, a sua presença nos cenários da música popular portuguesa. Disco de transição e procura, “De Pequenino Se Torce O Destino” completa com “À Queima Roupa” o que poderíamos hoje, à distância, recordar como o “díptico” político na sua discografia. Mas retoma já o prazer das liberdades poéticas e indica experiências que se materializariam no album seguinte, dois anos depois. A participação de Fausto nos arranjos e direcção musical confere a este disco um notável esforço de aperfeiçoamento: «Trocávamos então experiências musicais e achei que era boa ideia partilharmos a responsabilidade dos arranjos que, de qualquer maneira, não são muito sofisticados. São arranjos onde geralmente a guitarra tem uma presença central.» Além de Fausto, que assina inclusivé a música de “O Namoro” sobre um poema do poeta angolano Viriato da Cruz (único tema que em todo o disco não é da autoria de Sérgio Godinho), há músicos cujos nomes surgem pela primeira vez associados à obra do Sérgio. É o caso de Carlos Zíngaro, que terá uma presença muito mais determinante no album posterior, "Pano-Cru". No album estão ainda incluídas duas das canções compostas por Sérgio Godinho para o filme “Os Demónios de Alcácer Quibir” de José Fonseca e Costa, onde também participou como actor: a canção-título e “Cantiga do Camolas”.
