sábado, 4 de abril de 2020

As Pré-Histórias do Sérgio


Edição original no LP Guilda da Música DP 024
(PORTUGAL 1972, Setembro 24)


Editado cerca de um ano após o album de estreia, este “Pré-Histórias” é um disco pensado on the road: com efeito, as dez canções que o compõem foram escritas ao longo das andanças do autor, na altura integrado no grupo teatral Living Theatre: Paris, Brasil, Holanda. Por exemplo, “A Noite Passada” (uma das suas mais belas canções de sempre) foi começada em Paris e continuada numa viagem de autocarro à Bahia, depois, com uma grande ganza numa praia de São Salvador e terminada já na prisão (onde toda a troupe passaria mais de dois meses por causa de uma violenta campanha movida por uma associação de extrema-direita brasileira). As palavras sugerem o momento: «A noite passada um paredão ruiu / pela fresta aberta o meu peito fugiu / estavas do outro lado a tricotar janelas / vias-me em segredo ao debruçar-te nelas...»


Mas demos a palavra ao próprio Sérgio Godinho: «Este segundo album é mais ágil que "Os Sobreviventes". Não tem um tom tão denso, tão pesado. Foi bom começar com o “Barnabé”, que resume em pinceladas breves e fortes o que era o Portugalzinho de então». Mais que no disco anterior, “Pré-Histórias” reflecte uma atenção maior por elementos da música tradicional portuguesa. Um fascínio pelo trabalho de Michel Giacometti, uma admiração continuada pela obra de José Afonso e uma confessa adesão ao lado “pícaro” de algumas canções de António Mafra sugeriram caminhos, que a personalidade de Sérgio Godinho talhou de um modo muito particular, num todo onde as influências folk também foram marcantes.


Como Sérgio Godinho admite, o album não é verbal nem tematicamente tão denso quanto o fora o primeiro: «Há, de certo modo, um propósito assumido de claridade e depuração.» Tal como acontecera no album de estreia, “Pré-Histórias” foi um disco premiado, uma vez mais, pela Casa da Imprensa, que o apontou como Disco do Ano, em 1973. De comum, ambos os discos tiveram igual sorte junto ao mercado português, isto é, este foi também retirado pela censura pouco depois da sua edição.


Como apontamento final sobre um disco que fez história, realcemos que a capa, desenhada à distância, sempre desagradou ao próprio Sérgio Godinho. Era a chamada interpretação literal que ele não queria nem imaginara: «Nunca pensei nos Flinstones nem em imagens caricaturais. O propósito era, precisamente, pegar, como muitas vezes faço, em conceitos adquiridos e dar-lhes um outro sentido.» Os sobreviventes... pré-histórias..., títulos que, quase intuitivamente, eram premonitórios em relação ao 25 de Abril, que se aproximava, à queima-roupa...

(extractos de “Retrovisor – Uma biografia musical de Sérgio Godinho, de Nuno Galopim, Maio 2006)


4 comentários:

Anonymous disse...

Obrigado. Agora tenemos opportunidade de escutar cancões Portuguesas fora Portugal, no mundo global. Everywhere we can hear American and English songs but not Portuguese. Thanks a lot. I'll do my best to understand what Sérgio is singin'about.

Onzi

nowhereman disse...

Ainda hoje, 35 anos depois, continuo a considerar este "Pré-histórias" o melhor album de toda a discografia do Sérgio, embora apenas alguns furos acima do também excelente "Panu Cru" de 78.
Aliás foi na década de 70 que toda a genialidade do compositor se manifestou. Fica aqui uma sugestão pró Rato, pois bem sabemos como ele é exímio nessas coisa: uma grande Antologia (provavelmente terá de ser dupla dada a quantidade de material de grande qualidade) do SG dos anos 70.
Disposto a isso, amigo Rato?

Rato disse...

Concordo plenamente, nowhere man: o trabalho do Sérgio na década de 70 foi mesmo do melhor que a música portuguesa nos deu. Depois é claro que continuou a compor coisas igualmente muito boas mas já sem aquela força criadora dos setenta.
Uma compilação dupla desses anos? É capaz de ser uma boa ideia. Fica registada.

Anónimo disse...

Video muito engraçado e original, fazendo justiça a este belo trabalho do Sérgio Godinho.

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