
Editado cerca de um ano após o album de estreia, este “Pré-Histórias” é um disco pensado on the road: com efeito, as dez canções que o compõem foram escritas ao longo das andanças do autor, na altura integrado no grupo teatral Living Theatre: Paris, Brasil, Holanda. Por exemplo, “A Noite Passada” (uma das suas mais belas canções de sempre) foi começada em Paris e continuada numa viagem de autocarro à Bahia, depois, com uma grande ganza numa praia de São Salvador e terminada já na prisão (onde toda a troupe passaria mais de dois meses por causa de uma violenta campanha movida por uma associação de extrema-direita brasileira). As palavras sugerem o momento: «A noite passada um paredão ruiu / pela fresta aberta o meu peito fugiu / estavas do outro lado a tricotar janelas / vias-me em segredo ao debruçar-te nelas...»
Mas demos a palavra ao próprio Sérgio Godinho: «Este segundo album é mais ágil que "Os Sobreviventes". Não tem um tom tão denso, tão pesado. Foi bom começar com o “Barnabé”, que resume em pinceladas breves e fortes o que era o Portugalzinho de então». Mais que no disco anterior, “Pré-Histórias” reflecte uma atenção maior por elementos da música tradicional portuguesa. Um fascínio pelo trabalho de Michel Giacometti, uma admiração continuada pela obra de José Afonso e uma confessa adesão ao lado “pícaro” de algumas canções de António Mafra sugeriram caminhos, que a personalidade de Sérgio Godinho talhou de um modo muito particular, num todo onde as influências folk também foram marcantes.
Como apontamento final sobre um disco que fez história, realcemos que a capa, desenhada à distância, sempre desagradou ao próprio Sérgio Godinho. Era a chamada interpretação literal que ele não queria nem imaginara: «Nunca pensei nos Flinstones nem em imagens caricaturais. O propósito era, precisamente, pegar, como muitas vezes faço, em conceitos adquiridos e dar-lhes um outro sentido.» Os sobreviventes... pré-histórias..., títulos que, quase intuitivamente, eram premonitórios em relação ao 25 de Abril, que se aproximava, à queima-roupa...
(extractos de “Retrovisor – Uma biografia musical de Sérgio Godinho, de Nuno Galopim, Maio 2006)








4 comentários:
Obrigado. Agora tenemos opportunidade de escutar cancões Portuguesas fora Portugal, no mundo global. Everywhere we can hear American and English songs but not Portuguese. Thanks a lot. I'll do my best to understand what Sérgio is singin'about.
Onzi
Ainda hoje, 35 anos depois, continuo a considerar este "Pré-histórias" o melhor album de toda a discografia do Sérgio, embora apenas alguns furos acima do também excelente "Panu Cru" de 78.
Aliás foi na década de 70 que toda a genialidade do compositor se manifestou. Fica aqui uma sugestão pró Rato, pois bem sabemos como ele é exímio nessas coisa: uma grande Antologia (provavelmente terá de ser dupla dada a quantidade de material de grande qualidade) do SG dos anos 70.
Disposto a isso, amigo Rato?
Concordo plenamente, nowhere man: o trabalho do Sérgio na década de 70 foi mesmo do melhor que a música portuguesa nos deu. Depois é claro que continuou a compor coisas igualmente muito boas mas já sem aquela força criadora dos setenta.
Uma compilação dupla desses anos? É capaz de ser uma boa ideia. Fica registada.
Video muito engraçado e original, fazendo justiça a este belo trabalho do Sérgio Godinho.
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