Edição original em LP Orfeu DASPEAT 401
(PORTUGAL, 1981)
A segunda metade dos anos 70 foi atribulada para o Duo Ouro Negro. Depois de participarem em 1974 no Festival RTP da Canção, com a canção "Bailia dos trovadores", lançam o single "Poema para Allende / Tentando ir mais alto" em 1975, e fazem a última gravação da década para a EMI-Valentim de Carvalho com o album "Epopeia / Lamento do Rei". No ano seguinte é lançado um disco ao vivo. Em 1979, voltam a gravar um novo album de originais, desta vez para a Orfeu, por sinal um dos LPs de maior sucesso do duo. Um álbum magnífico, que teve a participação de Mike Sergeant na guitarra e do já conhecido Zé Nabo no baixo. "Lindeza!", foi o nome escolhido pelos cantores para homenagear a Terra-Mãe («minha terra é grande mas será maior se eu a fizer crescer»). Não existem pontos fracos neste album, que pessoalmente considero um dos melhores da música portuguesa: quase 4 décadas volvidas, continua a ouvir-se repetidamente, com o mesmo prazer de sempre. Tanto quanto julgo saber, esta preciosidade nunca foi editada em CD, por isso têm aqui a oportunidade de aceder a uma cópia de grande qualidade, que Rato Records vos disponibiliza. Um grande obrigado ao Carlos Santos, pela ajuda dada na remasterização do vinil original.
Em 1969, o Duo Ouro Negro partiu para os Estados Unidos em digressão. A experiência que ali tiveram foi determinante para o que conheceríamos três anos depois. «Don’t forget your blackground», exclamaria em 1972 Raul Indipwo, voz saída de "Blackground", precisamente, álbum histórico da banda angolana. Despertados para o activismo dos Black Power, atentos ao jazz que se criava em terras americanas, a que se juntava o interesse pelos movimentos independentistas das colónias africanas, aquela que era então a mais internacional das bandas portuguesas gravaria em Lisboa um álbum de vibrante afirmação cultural através da música. Miguel Augusto Silva, fundador da editora Armoniz (que relançou agora o álbum original em vinil de 180 gr) refere que, apesar de ser hoje em dia um disco quase desconhecido, teve à época grande impacto, a que não terá sido alheio o facto de ter sido apresentação ao vivo, meses antes do lançamento, no histórico Festival de Vilar de Mouros de 1971. «Teve tanta importância na carreira deles que foi reeditado duas vezes, em 1974 e em 1985, com capas diferentes das originais». Em "Blackground", conta Miguel Augusto Silva, Raul Indipwo e Milo MacMahon «inspiram-se nas tradições de Angola e vão mais longe que antes na pureza [dessa abordagem] e na utilização das línguas tradicionais do país. Dão um novo contexto às músicas africanas, mostrando como estas saem de África e como voltam através de outras formas musicais».
Houve um tempo, um tempo breve, em que pareceu que a música
popular portuguesa podia ser assim: uma coisa intercontinental, afro-europeia e
euro-africana, que pregava um estilo de vida dominado pela elegância e a
alegria; atenta às mudanças do mundo e a cada uma das novas tendências
internacionais; ecuménica, capaz de acolher no seu seio a memória do antigo
reino dos Kwaniamas enquanto gerava luminosas versões de canções dos Beatles
cantadas em português e acotovelava as grandes estrelas da época, como Eartha
Kitt, Peter Ustinov, Maria Callas, Charles Aznavour ou Gina Lolobrigida. Houve
um tempo em que o Duo Ouro Negro, que nasceu no sul de Angola na segunda metade
da década de 50, de lá saíu como uma estrela cadente, para fazer escala em
Lisboa antes de partir em direcção a outras e mais vibrantes constelações.
Houve um tempo em que pareceu que Angola ia ser assim. Sendo originalmente um
trio, foi já como duo que Raul Indipwo e Milo MacMahon - então conhecidos ainda
com os seus nomes lusitanos, Raul Aires Peres e Emílio Pereira – se tornaram
conhecidos graças às suas espantosas harmonias vocais e a um domínio exímio da
guitarra. A princípio projectavam apresentar um elenco do folclore angolano e
das suas várias etnias e línguas. Mas a canção que foram estrear ao Cine-Teatro
Restauração, em Luanda, e que se tornou o seu primeiro grande êxito, já havia
excedido esses limites. No seu registo impressionista e misterioso,
"Kurikutela", cujo nome significa «comboio» e celebra o veículo de
ferro onde «Toda a gente leva pressa/ de chegar à sua terra/ Estão os parentes
à espera» ainda hoje se dá a ouvir como um caso à parte.![]() |
| Na esplanada do Hotel Panorama (ilha de Luanda), refrescando-se com uma Coca-Cola e uma laranjada (1964) |
O que não pode ser desmentido, porém, é que o verdadeiro
trunfo do Duo Ouro Negro sempre foi a perspicácia e a actualidade da sua visão
africanista, que também poderemos interpretar como uma fidelidade às origens. E
isto apesar dos triunfos internacionais que lhes surgem pela frente logo na
primeira metade dos anos 60, quando percorrem o norte da Europa e de lá
regressam com versões em português dos Beatles ("Agora Vou Ser
Feliz", em 1964, com nova letra sobre a melodia de "I Wanna Hold Your
Hand") e de Charles Aznavour ("La Mamma") - antes ainda das
actuações no Olympia parisiense (1965), das galas para os Príncipes do Mónaco
(1966), do convite para o primeiro grande espectáculo televisivo da UNICEF e
das primeiras actuações no Rio de Janeiro (1967). Estas últimas motivaram aliás
nova explosão criativa, de início patente em temas como "Quando Cheguei ao
Brasil": «Minha terra era Cabinda/ No Maiombe eu nasci/ Meu cantar era
marimba/ Antes de vir para aqui// Quando cheguei ao Brasil/ Sem a minha
liberdade/ Quando cheguei ao Brasil/ Tudo em mim era saudade». Era a celebração
da diáspora africana, mas também o início do período afro-latino, que ao longo
dos anos daria origem a temas como o espantoso "Moamba, Banana e Cola"
(1969, com a orquestra de Jorge Leone), "Iemanjá" (1971), ou o
encíclico "África Latina" (1979).
A tribute band dedicated to Duo Ouro Negro, a popular Angolan duo from the 1960s and '70s, Muxima is a Portuguese quartet who made their Top Five hit album debut with "Homenagem ao Duo Ouro Negro" in 2010. Founded in 1956 in Benguela, Angola, a country in southwest Africa that was an overseas province of Portugal until 1975, Duo Ouro Negro was comprised of Raul Indipwo and Milo MacMahon. They made their commercial recording debut in 1959. Though they were active throughout the '70s, they were most popular during the '60s, when they scored numerous hits and performed Portuguese-language covers of popular music of the era such as the Beatles ("Agora Vou Ser Feliz") and Charles Aznavour ("La Mamma"). Founded with the intent of paying tribute to the 50th anniversary of Duo Ouro Negro, Muxima is a quartet comprised of Janita Salomé (who hails from Portugal), Filipa Pais (Portugal), Ritinha Lobo (Cape Verde), and Yami (Angola). The album includes some Duo Ouro Negro favorites such as "Amanhã," "Maria Rita," and "Vou Levar-te Conmigo." Produced by Manuel d'Oliveira and Hélder Moutinho.
“Afrika Mulowa” foi o 2º álbum editado pelo Duo Ouro Negro. Composto maioritariamente por temas extraídos do folclore angolano, o LP continha ainda uma canção tradicional de Goa (“Canção da Despedida”), além do hit “Iliza (Gomara Saiá)”, um tema inspirado nas deambulações de Raul e Milo por Lourenço Marques (assim se chamava a capital de Moçambique), mais concretamente na célebre Rua Araújo, onde fervilhavam os cabarets e as casas de prostituição. O álbum teve o acompanhamento musical do grupo Thilo’s Combo e também do coro feminino da Emissora Nacional. Mais tarde, “Afrika Mulowa” viria a ser reeditado, primeiro em 1974 e depois em 1982, com uma nova capa, que reproduzia uma pintura africana de Raul Indipwo. Essa reedição seria alargada a outros países, como a França, a Alemanha, o Brasil, a Argentina ou os Estados Unidos, tendo neste último sido rebaptizado com o nome de “The Music of Africa Today”, para além de uma nova capa de gosto muito duvidoso.