A 4 de Junho de 2006, desaparecia a segunda metade do Duo Ouro Negro, um dos três nomes (os outros dois são Eusébio e Amália Rodrigues) que nos idos de sessenta lograram dar a conhecer Portugal aos quatro cantos do mundo. Apenas porque tinham qualidade, demasiada qualidade para ficarem restringidos a este pequeno rectângulo à beira-mar plantado, onde, já nesse tempo, a inveja e a mesquinhez reinantes eram incompatíveis com uma carreira nacional de grande sucesso. Por isso Raul e Milo se fizeram à estrada, levando a sua música a ouvidos mais limpos e a mentes mais arejadas. Fizeram bem, até por usarem Portugal unicamente como trampolim. Afinal aquela música nada tinha a ver com o fado ou o folclore lusitano, e só por circunstâncias políticas da época se poderiam confundir.
Em Fevereiro de 1974, entrevistado por Regina Louro para a
revista «Flama», Milo apontava, com algum sarcasmo, algumas razões para há
muito tempo não actuarem em Portugal: «Quais são os artistas portugueses que
têm actuado aqui? A verdade é que não há um sítio, uma casa de music-hall para
cantarmos. Os teatros têm os seus elencos, os cinemas o que querem é vender
filmes, a televisão contrata como vedetas cançonetistas que lá fora ficam num
plano inferior a nós. Ao artista português mais não resta do que esperar pelo
Verão para ir a feiras, festas na província, ou a um ou outro casino nas
estâncias balneares. Fora desse período está condenado a uma carreira
internacional».
UMA MIRAGEM
Houve um tempo, um tempo breve, em que pareceu que a música
popular portuguesa podia ser assim: uma coisa intercontinental, afro-europeia e
euro-africana, que pregava um estilo de vida dominado pela elegância e a
alegria; atenta às mudanças do mundo e a cada uma das novas tendências
internacionais; ecuménica, capaz de acolher no seu seio a memória do antigo
reino dos Kwaniamas enquanto gerava luminosas versões de canções dos Beatles
cantadas em português e acotovelava as grandes estrelas da época, como Eartha
Kitt, Peter Ustinov, Maria Callas, Charles Aznavour ou Gina Lolobrigida. Houve
um tempo em que o Duo Ouro Negro, que nasceu no sul de Angola na segunda metade
da década de 50, de lá saíu como uma estrela cadente, para fazer escala em
Lisboa antes de partir em direcção a outras e mais vibrantes constelações.
Houve um tempo em que pareceu que Angola ia ser assim. Sendo originalmente um
trio, foi já como duo que Raul Indipwo e Milo MacMahon - então conhecidos ainda
com os seus nomes lusitanos, Raul Aires Peres e Emílio Pereira – se tornaram
conhecidos graças às suas espantosas harmonias vocais e a um domínio exímio da
guitarra. A princípio projectavam apresentar um elenco do folclore angolano e
das suas várias etnias e línguas. Mas a canção que foram estrear ao Cine-Teatro
Restauração, em Luanda, e que se tornou o seu primeiro grande êxito, já havia
excedido esses limites. No seu registo impressionista e misterioso,
"Kurikutela", cujo nome significa «comboio» e celebra o veículo de
ferro onde «Toda a gente leva pressa/ de chegar à sua terra/ Estão os parentes
à espera» ainda hoje se dá a ouvir como um caso à parte.![]() |
| Na esplanada do Hotel Panorama (ilha de Luanda), refrescando-se com uma Coca-Cola e uma laranjada (1964) |
Após o êxito conseguido na capital angolana chegam a Lisboa
em 1959 pela mão do empresário cinematográfico Ribeiro Belga e, apesar da
concorrência em voga no mundo da canção, conquistam em absoluto o público com
actuações no Cinema Roma e no Casino Estoril, gravam três discos (inicialmente
acompanhados pelo conjunto de Sivuca, depois pela orquestra de Joaquim Luís
Gomes), passam pelos écrãs da RTP (onde nessa época se actuava sempre em
directo) e regressam a Angola pouco antes do eclodir da guerra, em 1961. Até
1985, ano do falecimento de Milo (a 20 de Fevereiro), decorrerá então o período
efervescente do Duo Ouro Negro, marcado por diversas fases e pela polarização
do reportório (como todos, submetido à vigilância da censura prévia) entre os
registos pop mais inanes e lustrosos de romantismo radiofónico, e outras
canções que, não sendo de intervenção política, serão no mínimo de intervenção
ideológica. O próprio ano de 1961, em que publicam "Garota" («...se
eu beijar sua boca/ Deixará de ser garota/ Passará a ser mulher») e "Mãe
Preta" (uma canção espantosa que fala da escravatura glosando a melodia do
"Barco Negro" cantado por Amália) é um bom exemplo deste estado de
coisas algo esquizóide: celebrados como verdadeiros ídolos em Angola – e ali
impedidos pelos censores de interpretarem em palco parte do seu reportório – a
presença mediática que conquistaram na metrópole fez com que aqui fossem
olhados como um novo trunfo do regime, a garantia de que, apesar da guerra, a
existência de um Portugal pluricontinental, como «muitas raças, um só povo» era
um dado indesmentível.
O que não pode ser desmentido, porém, é que o verdadeiro
trunfo do Duo Ouro Negro sempre foi a perspicácia e a actualidade da sua visão
africanista, que também poderemos interpretar como uma fidelidade às origens. E
isto apesar dos triunfos internacionais que lhes surgem pela frente logo na
primeira metade dos anos 60, quando percorrem o norte da Europa e de lá
regressam com versões em português dos Beatles ("Agora Vou Ser
Feliz", em 1964, com nova letra sobre a melodia de "I Wanna Hold Your
Hand") e de Charles Aznavour ("La Mamma") - antes ainda das
actuações no Olympia parisiense (1965), das galas para os Príncipes do Mónaco
(1966), do convite para o primeiro grande espectáculo televisivo da UNICEF e
das primeiras actuações no Rio de Janeiro (1967). Estas últimas motivaram aliás
nova explosão criativa, de início patente em temas como "Quando Cheguei ao
Brasil": «Minha terra era Cabinda/ No Maiombe eu nasci/ Meu cantar era
marimba/ Antes de vir para aqui// Quando cheguei ao Brasil/ Sem a minha
liberdade/ Quando cheguei ao Brasil/ Tudo em mim era saudade». Era a celebração
da diáspora africana, mas também o início do período afro-latino, que ao longo
dos anos daria origem a temas como o espantoso "Moamba, Banana e Cola"
(1969, com a orquestra de Jorge Leone), "Iemanjá" (1971), ou o
encíclico "África Latina" (1979).
Comparativamente, a longa digressão pelo Extremo Oriente – a
que o Duo se remete na primeira metade dos anos 70, após a sua exibição na Expo
de Tóquio – não parece ter deixado grandes marcas no reportório que praticavam.
Mais do que a miragem do que o nosso passado comum poderia ter sido, é a
história de uma miragem de futuro, também ela invulgar, e que pode
sintetizar-se, afinal, em breves linhas: «Sou da África Latina/ Sou do século
21/ Nossa gente está por cima/ Todos juntos somos um». É a grande vantagem das
canções.
NOTA: Esta dupla coletânea, que uma vez mais aqui se disponibiliza, resultou do alargamento de um primeiro apanhado de trinta canções do Duo Ouro Negro intitulado "30 Pedaços de Saudades". Esse CD ocupa aqui a primeira parte desta coletânea (Disco 1)
NOTA: Esta dupla coletânea, que uma vez mais aqui se disponibiliza, resultou do alargamento de um primeiro apanhado de trinta canções do Duo Ouro Negro intitulado "30 Pedaços de Saudades". Esse CD ocupa aqui a primeira parte desta coletânea (Disco 1)






