Original released on CD Epic 19439774432
(US 2020, April 20)
About a minute into "I Want You to Love Me," the opening cut on her fifth album "Fetch the Bolt Cutters", Fiona Apple holds a note a few seconds longer than you'd expect, then a few seconds more. It's the first time Apple veers away from the expected course on "Fetch the Bolt Cutters" and it's hardly the last, but it's telling that the shift occurs within a song, not in a transition between tracks. Apple spent the years after the 2012 release of "The Idler Wheel" sculpting the songs and sounds of "Fetch the Bolt Cutters", working at her home studio with a band featuring drummer Amy Aileen Wood, bassist Sebastian Steinberg, and multi-instrumentalist David Garza, using their interactions and interplay as a suggestion of where the finished track should head. Everything on "Fetch the Bolt Cutters" seems restless: overdubbed harmonies don't quite jibe, rhythms are cluttered, narratives turn inside out, and Apple treats her own voice as a rubber instrument, stretching it beyond comfort. As pure sound, it's exhilarating. It's rare to listen to a pop album and have no idea what comes next, and "Fetch the Bolt Cutters" delivers surprises that delight and bruise at a rapid pace. The density is dizzying but melodies and certain lyrics make an immediate impression, such as the jolting denouement of "For Her." Apple wrote "For Her" in the wake of the contentious Brett Kavanaugh hearings and while its fury is palpable and by no means an anomaly on "Fetch the Bolt Cutters", the album isn't defined by anger. Rage sits alongside heartache and humor, the shifts in mood occurring with a dramatic flair and a disarming playfulness. The unpredictable nature feels complex and profoundly human, resulting in an album that's nourishing and joyfully cathartic. (Stephen Erlewine in AllMusic)
«Gosto imenso de juntar palavras, mas apenas quando isso me é fácil, quando esse processo parece desenvolver-se por si mesmo. Nunca apago nada e praticamente nunca escrevo. Uma canção tem de estar completa na minha cabeça antes de eu a escrever. E só a escrevo se, de alguma forma, me servir, se me aperceber que, para me sentir melhor, não posso evitar escrevê-la. Se não tenho coisa alguma a transbordar, nada tenho para dar. Preciso de manter a antena sintonizada e, quando me dou conta de que já estou ‘cheia’, então, sento-me e escrevo. Se não tenho vontade de escrever canções, nunca me forço a fazê-lo», conta Fiona Apple numa videomontagem do YouTube na qual conversa com Quentin Tarantino. E, quando este lhe diz que começou a analisar as canções dela e se apercebeu de que as melhores são aquelas que recorrem a imagens violentas (“Metafóricas, sim, mas, simultaneamente, autênticas. Naquele instante, pensavas mesmo em matá-lo!”), Fiona recorda como a mãe lhe descrevia as suas birras infantis: «Quando, por algum motivo, me irritava, ouviam-se sempre três sons: batia furiosamente com os pés no chão, fechava as portas com estrondo e corria a martelar o piano. Pela sua natureza percussiva, o piano atraía-me muito, tal como muita gente que toca bateria como forma de libertar a raiva.» Tudo isso está intensamente presente em “Fetch the Bolt Cutters” e, muito em particular, nas três canções desse álbum — "I Want You To Love Me", "Shameika" e "Fetch the Bolt Cutters"— que, em Outubro passado, interpretou num vídeo para o New Yorker Festival (online): as mãos como aranhas sobre o teclado, a voz, à beira do sufoco, que gorgoleja à maneira do John Cale do tempo em que lhe corria lava nas veias, o quase rap alucinado e vertiginoso de "Shameika" cuspido sobre um microfone em risco de ser avidamente devorado. Aí apenas com a implacável e austera cumplicidade live do contrabaixista Sebastian Steinberg, da baterista Amy Aileen Wood, e do guitarrista/teclista Davíd Garza, mas despida da formidável atmosfera waitsiana de primitivismo sonoro presente no disco, cozinhada nas nada canónicas jam sessions (baldes, pedaços de metal, mesas, paredes, utensílios de cozinha, ossadas de cães, arquejos, gritos, latidos) da casa-estúdio de Venice Beach, na Califórnia, lugar de encarceramento voluntário onde Fiona, desde há muito, se asilara. A intolerável existência do (ainda) inquilino da Casa Branca já lhe inspirara o loop de agitprop "Tiny Hands" (“We don’t want your tiny hands, anywhere near our underpants”) e o nojo perante a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça (“Good mornin’, good mornin’, you raped me in the same bed your daughter was born in”) fá-la-ia transbordar no labiríntico desenho rítmico do coral "For Her". Penúltima canção a ser escrita, "Fetch the Bolt Cutters" deveria ser o sinal para «o culminar de tudo o que tinha sido a minha vida até aí», o momento em que diria: «É a altura de enfrentar o mundo e sair daqui para fora.» E, justamente no instante em que estava disposta a usar o alicate para me desencarcerar, aconteceu o lockdown. Fiona continuou em casa, mas o álbum seria publicado a 17 de Abril, «contribuindo para que as pessoas possam sentir-se vivas, criativas e consigam exprimir a sua ira. E isso é o melhor com que eu poderia sonhar.» (João Lisboa in Expresso)






