«My biggest regret, has to do with Fado, was to record my songs, the records came to industrialize Fado, Fado should not be sold, I sing because my soul commands it, I sing as if I am praying. I do not like to sing for machines. I want to see the public, to analyze its reactions, to see if they are enjoying.»
Before Mariza, before Carlos do Carmo, before Amália, there was Marceneiro, “Uncle Alfred”, like everybody treated him. He began to sing already with 52 years old (he lived 91 years, from 1891 to 1982) and he represented the trully pure essence of Lisbon Fado. Although he didn't knew a single music note he was one of the best composers that Fado had. “Fado” is a music genre which most likely originated in the 1820s in Portugal. Its universe is about sadness, grief, death, lost loves, tragic lives but above all is about “saudade” a word with no accurate English translation: briefly, it’s a nostalgic memory from someone, something or some place that you have lost in your life. “Fado”'s origins are probably from a mixture of African slave rhythms with the traditional music of Portuguese sailors and Arabic influence. Rato Records has reunited 20 of the best fados of Alfredo Marceneiro. And no matter if you don’t understand the words, you know already what they are about. Just listen to the portuguese guitars surrounding that unique voice and surely you’ll feel the music into your deepest skin.Foi um inovador: iniciou a tradição de cantar de pé e a de escurecer a sala e acender velas. Foi um purista: jamais se lhe ouviu um fado com refrão. Cultivou exclusivamente o Fado tradicional, puro, descritivo. Exigiu sempre acompanhamentos simples, para não desviar a atenção do poema. Os guitarristas que reservassem os floreados para as variações: o que motivou algumas zangas famosas, em cena, com virtuosos não menos famosos. Sem saber música, foi um dos mais importantes compositores de Fado. Compunha de ouvido, cristalizando um ou outro improviso que se impunha pela originalidade e alguém passava à pauta, para registo autoral. Viu-se rodeado pelos melhores letristas do tempo, por feliz acaso os de uma época de oiro do Fado, o que proporcionou uma combinação ímpar de qualidade, à qual se juntaram os melhores guitarristas.
Pertencia à noite lisboeta, de que era um emblema. Preenchia-a, já em adiantada veterania, fazendo a ronda das casas de fado. Não havia taxista do turno da noite que o não conhecesse e não o levasse onde queria, sem cobrar a corrida. Raramente saiu da sua cidade, e nunca fez “tournées” ao estrangeiro. Era avesso a palcos, a projectores, a microfones: para gravar o primeiro LP, aos 69 anos, num estúdio apetrechado com vasta aparelhagem, vendou os olhos, para cantar na sua tão querida obscuridade e não ver a parafernália hostil que o cercava… Felizmente, viveu muito. Em 1963 foi-lhe feita uma festa de “consagração e despedida”, por aposentação, aos 72 anos; pois ainda cantou quase mais 20 anos depois disso, para regalo de quem o ouviu! Isto transformou-o numa ponte entre gerações do Fado. Foi contemporâneo dos grandes nomes desaparecidos antes da rádio e dos discos, fazendo chegar aos nossos dias esse legado cultural de enorme riqueza, casticismo e autenticidade popular. Em 1980, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou-o e concedeu-lhe a Medalha de Mérito da Cidade.
Nos últimos tempos, sem perder as qualidades que dele fizeram também um mito, já com 91 anos e cantando até poucos meses antes da morte (que veio a 26 de Junho de 1982), ouvir a sua voz agreste e quente, cheia de musicalidade, de timbre discutível mas irrepreensível afinação, ver-lhe as expressões com que dava ênfase a certas passagens, os trejeitos fadistas a pontuar as frases-chave, era admirar um monumento vivo. Tão cativante a cantar como a conversar, possuía um tesouro de histórias do Fado, de memórias doutros tempos, contadas com um humor cáustico, mas sem dizer mal de ninguém. Morreu na sua freguesia de Alcântara, como tantas vezes pediu cantando; teve um funeral em que o padre citou esses versos e o corpo baixou à terra ao som de guitarras. Continuou – e continuará – a ser celebrado.
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| Com a fadista Fernanda Maria |






