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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Os Fados Do TI ALFREDO

«My biggest regret, has to do with Fado, was to record my songs, the records came to industrialize Fado, Fado should not be sold, I sing because my soul commands it, I sing as if I am praying. I do not like to sing for machines. I want to see the public, to analyze its reactions, to see if they are enjoying.»

Before Mariza, before Carlos do Carmo, before Amália, there was Marceneiro, “Uncle Alfred”, like everybody treated him. He began to sing already with 52 years old (he lived 91 years, from 1891 to 1982) and he represented the trully pure essence of Lisbon Fado. Although he didn't knew a single music note he was one of the best composers that Fado had. “Fado” is a music genre which most likely originated in the 1820s in Portugal. Its universe is about sadness, grief, death, lost loves, tragic lives but above all is about “saudade” a word with no accurate English translation: briefly, it’s a nostalgic memory from someone, something or some place that you have lost in your life. “Fado”'s origins are probably from a mixture of African slave rhythms with the traditional music of Portuguese sailors and Arabic influence. Rato Records has reunited 20 of the best fados of Alfredo Marceneiro. And no matter if you don’t understand the words, you know already what they are about. Just listen to the portuguese guitars surrounding that unique voice and surely you’ll feel the music into your deepest skin.



Alfredo Rodrigo Duarte nasceu em Lisboa, no dia 29 de Fevereiro de 1888, embora o seu bilhete de identidade referisse o seu nascimento a 25 de Fevereiro de 1891. Homem simples, adoptou como nome artístico o do ofício que manteve até aos 52 anos, altura em que se dedicou inteiramente ao Fado. Assinava-o numa caligrafia incerta: Alfredo Duarte Marceneiro. Do desejo de vir a ser actor (experiência que provou apenas nalgumas cegadas da juventude) ficou-lhe a preocupação de valorizar a letra, dizendo bem, cuidando de transmitir ao público o que o poeta escrevera. Reconhecendo que não tinha uma voz nem forte nem bem timbrada, provou ser ilusória essa inferioridade graças a outra característica em que foi inigualável: as inflexões melódicas improvisadas que, em linguagem fadística, se chamam estilar. Acrescentou uma postura altiva, de mãos nos bolsos, lenço ao pescoço, cabeça erguida, sobrancelhas levantadas, um esgar de desdém nos lábios finos. Arrebatado pelo conteúdo das letras, gingava, dava pequenos passos, maneava a cabeça, esgotava o fôlego ao ponto de partir palavras para respirar. Mas nele as transgressões, pessoais como uma impressão digital, transformavam-se em lei.


Foi um inovador: iniciou a tradição de cantar de pé e a de escurecer a sala e acender velas. Foi um purista: jamais se lhe ouviu um fado com refrão. Cultivou exclusivamente o Fado tradicional, puro, descritivo. Exigiu sempre acompanhamentos simples, para não desviar a atenção do poema. Os guitarristas que reservassem os floreados para as variações: o que motivou algumas zangas famosas, em cena, com virtuosos não menos famosos. Sem saber música, foi um dos mais importantes compositores de Fado. Compunha de ouvido, cristalizando um ou outro improviso que se impunha pela originalidade e alguém passava à pauta, para registo autoral. Viu-se rodeado pelos melhores letristas do tempo, por feliz acaso os de uma época de oiro do Fado, o que proporcionou uma combinação ímpar de qualidade, à qual se juntaram os melhores guitarristas.


Pertencia à noite lisboeta, de que era um emblema. Preenchia-a, já em adiantada veterania, fazendo a ronda das casas de fado. Não havia taxista do turno da noite que o não conhecesse e não o levasse onde queria, sem cobrar a corrida. Raramente saiu da sua cidade, e nunca fez “tournées” ao estrangeiro. Era avesso a palcos, a projectores, a microfones: para gravar o primeiro LP, aos 69 anos, num estúdio apetrechado com vasta aparelhagem, vendou os olhos, para cantar na sua tão querida obscuridade e não ver a parafernália hostil que o cercava… Felizmente, viveu muito. Em 1963 foi-lhe feita uma festa de “consagração e despedida”, por aposentação, aos 72 anos; pois ainda cantou quase mais 20 anos depois disso, para regalo de quem o ouviu! Isto transformou-o numa ponte entre gerações do Fado. Foi contemporâneo dos grandes nomes desaparecidos antes da rádio e dos discos, fazendo chegar aos nossos dias esse legado cultural de enorme riqueza, casticismo e autenticidade popular. Em 1980, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou-o e concedeu-lhe a Medalha de Mérito da Cidade.


Nos últimos tempos, sem perder as qualidades que dele fizeram também um mito, já com 91 anos e cantando até poucos meses antes da morte (que veio a 26 de Junho de 1982), ouvir a sua voz agreste e quente, cheia de musicalidade, de timbre discutível mas irrepreensível afinação, ver-lhe as expressões com que dava ênfase a certas passagens, os trejeitos fadistas a pontuar as frases-chave, era admirar um monumento vivo. Tão cativante a cantar como a conversar, possuía um tesouro de histórias do Fado, de memórias doutros tempos, contadas com um humor cáustico, mas sem dizer mal de ninguém. Morreu na sua freguesia de Alcântara, como tantas vezes pediu cantando; teve um funeral em que o padre citou esses versos e o corpo baixou à terra ao som de guitarras. Continuou – e continuará – a ser celebrado. 

Com a fadista Fernanda Maria
No dia de Portugal de 1984, foi agraciado a título póstumo com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Em 1991, no 100º aniversário do nascimento, a "Grande Noite do Fado" foi dedicada à sua memória; fez-se uma romagem ao cemitério dos Prazeres, com a presença de representantes do Presidente da República e do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. O filho Alfredo Duarte Jr. prolonga-lhe a lembrança nas suas actuações. O neto Vítor Duarte publicou um livro ilustrado sobre a sua vida. Eduardo Sucena dedica-lhe um capítulo do seu livro “Lisboa, o Fado e os Fadistas”. Em 1997, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal evocou a sua figura numa palestra e sessão de fados, com a colaboração da Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado. Mais importante do que isso, no íntimo de quem cante, toque guitarra portuguesa ou viola, escreva letras, ou simplesmente goste de ouvir esta forma musical cuja singeleza é feita de complexidades, Alfredo Marceneiro será uma eterna referência.

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