Edição original em LP Duplo EMI 7905461
(PORTUGAL, 1988)
Sobre Rui Veloso já tive a oportunidade de ler as opiniões
mais díspares. Lembro-me aqui há alguns anos, num comentário a um post inserido
no blog YéYé do meu amigo Luís Pinheiro de Almeida, de alguém o apelidar, e
cito, «o António Calvário do cavaquismo, assim uma espécie de cantor do
regime!» No polo oposto, quantas vezes a designação de “Pai do Rock Português”
não lhe foi já concedida? É por demais sabido que extremismos nunca levarão
nada a bom porto. E se apenas por maledicência se pode conotar o Rui Veloso com
o nacional-cançonetismo (o que até pode não ser um insulto, pois mesmo dentro
desse género musical existem coisas muito interessantes e de
qualidade), já o cognome de “Pai do Rock Português” só poderá ser atribuído por
ignorância. Como diria o meu amigo José Forte, «Rui Veloso é tanto pai do rock
português como o Elvis Presley é o rei do rock ‘n’ roll». Com o devido
distanciamento, é claro. Aliás, sendo o Rock um tipo de música marginal e
irreverente, nunca lhe consegui vislumbrar “sangue azul” ou atribuir sequer uma
ascendência legítima. Pelo contrário, sempre o vi mais como que um bastardo
filho-da-mãe, fruto acidental de uma noitada de copos e devaneios.
Há quem também tente justificar o êxito do Rui Veloso com as
condições propícias em que ele apareceu. Económicas, sociais e culturais. Não
partilho dessa opinião. É verdade que os tempos têm a sua influência, mas penso
sinceramente que Rui Veloso seria sempre Rui Veloso e que a sua qualidade se
imporia de qualquer modo, independentemente da altura em que aparecesse, contra
ventos e marés e arautos da desgraça. A propósito, vale a pena reler o que
escreveu em tempos o saudoso Daniel Bacelar, um dos pioneiros, no início da década de 60, do Rock
cantado em português (e se o Rui Veloso fosse efectivamente o “Pai do Rock
Português”, o Daniel seria provavelmente o “Avô”): «A minha opinião vale o que vale mas continuo a achar que no
meio de muita coisa má que apareceu no chamado novo Rock dos anos 80, apareceu
muita coisa boa que como de costume desapareceu (as pessoas têm de ganhar a sua
vida por outros lados) e também apareceu o excepcional. Incluo o Rui nesta
última classe, pois acho-o um artista completo (extraordinário guitarrista, uma
voz expressiva e rica, e um compositor cheio de talento). O que lamento é a
nossa capacidade tão portuguesa de destruir aquilo que é bom (a nossa inveja é
uma doença que nos consome até á destruição total que aí vem em passo acelerado
) em vêz de acarinhar e divulgar o que há de bom nesta terra.»
Um dos albuns mais vendidos de sempre da Música Popular Portuguesa e o registo de maior popularidade de Rui Veloso com resultados para lá das expectativas. Com efeito foram vendidos perto de 300 mil exemplares deste duplo álbum, o que equivaleu, à época, ao recorde de 7 Discos de Platina para os autores. Também, até aos dias de hoje, nenhum outro artista português conseguiu o feito de permanecer 24 semanas seguidas em 1ª lugar no Top Nacional de Vendas. De "Mingos & Os Samurais" foram extraídos 3 singles de imenso êxito radiofónico, a saber: "Não Há Estrelas no Céu", "A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)" e "Fio de Beque". Uma espécie de Sgt. Pepper português, um disco conceptual sobre uma banda de salão de festas de província num Portugal que nunca deixou de existir. Apesar de o Rui Veloso ter deixado marcas comerciais e na psique popular como um pioneiro do rock, foi num pop produzido que ele encontrou o seu pé, usando o idioma do rock como um acessório de moda, e sempre dentro dos limites do consumo familiar, uma espécie de bonus pater familias em formato musical. Este disco é porém o momento onde afina melhor a fórmula, e mesmo hoje é difícil ignorar o seu impacto. Lembro-me de muitas destas faixas terem rotação constante na rádio, onde talvez ainda subsistam, porque foi para isso que foram produzidas. Em formato de disco, a sua extensão não é realmente um factor, devido à sua consistência. É o equivalente aural de umas pantufas confortáveis, aberto a reavaliação.
Em Julho de 1980, num contexto de pós 25 de abril, Portugal era um país que respirava, finalmente, liberdade e onde a mudança cultural era urgente. Rui Veloso conseguiu instalar e afirmar o rock, em Portugal, com "Ar de Rock", o primeiro grande álbum de Rock & Roll cantando em português. Ao som de "Chico Fininho", "A Rapariguinha do Shopping" e "Sei de uma Camponesa", Rui Veloso dava-se assim a conhecer ao público. Estava dado o início de uma longa e célebre carreira, com músicas que atravessaram gerações e que ainda hoje são cantadas. "Ar de Rock" foi o mote para a revolução musical em Portugal e Rui Veloso não só construiu as bases para a sua carreira de sucesso, mas também para aquilo que seria o rock em solo português. Rui Veloso tinha 23 anos quando lançou o álbum "Ar de Rock", gravado com a Banda Sonora (Ramon Galarza e Zé Nabo) e produzido por António Pinho que também escreveu a letra de 2 temas. Além de assinalar a estreia de um cantor-compositor (Rui Veloso) e de um letrista (Carlos Tê), "Ar de Rock" é um retrato do Portugal do final dos anos 1970, início de 80. As fotos da capa são da autoria de Luís Vasconcelos, pai da artista plástica Joana Vasconcelos, na altura também fotógrafo da Valentim de Carvalho. "Ar de Rock" veio arejar definitivamente o panorama da música portuguesa. O single de apresentação "Chico Fininho" foi um marco na história da música rock, cantada em português, e uma inspiração para muitos novos músicos nacionais. O álbum bateu recordes de vendas, conquistou o país, provou que também era possível rockar em português e, em Setembro de 1980, valeu a Rui Veloso um convite para fazer a primeira parte do primeiro concerto dos britânicos Police em Portugal, no estádio do Restelo. O sucesso e a qualidade das músicas de "Ar de Rock", não só "Chico Fininho" mas também "Rapariguinha do Shopping", "Bairro do Oriente", "Sei de uma Camponesa" e "Saiu para a Rua", garantiram a viabilidade comercial do rock cantado em português e mostraram que a parceria Rui Veloso/Carlos Tê tinha futuro e havia de inspirar muitas gerações de músicos. (in RFM)