Edição original em LP Columbia (EMI) 8E 064-40233
(PORTUGAL, 1973 - Gravado em 11/5/1968)
Era de esperar que num ano (1984) em que Amália precisava de resolver alguns problemas de saúde se editasse um disco compilatório, para não haver "silêncios" na sua discografia. Ironicamente, enquanto ela lutava pela vida em Nova Iorque procurando consolo nos velhos filmes de Fred Astaire (todo um símbolo da Broadway), em Portugal era editado no final desse mesmo ano este disco com os principais standards da Broadway. Gravado em 1965, com arranjos e direcção de orquestra do inglês Norrie Paramor, este disco, apesar das muitas oportunidades que houve, só foi editado vinte anos depois. Nunca saberemos se Amália, que não estava contente com o resultado final das gravações, acabaria por tomar a decisão de o tornar público, depois desta sua nova presença na cidade de Nova Iorque. Clássicos de Jerome Kern, Richard Rodgers e Georges Gershwin corporizam-se de uma forma esplendorosa na vibrante voz de Amália de 1965, com pequenos erros quase imperceptíveis na pronúncia. Na capa colorida, um tanto óbvia para um disco como este, vemos uma glamorosa fotografia sobreposta, de uma famosa sessão de Augusto Cabrita (Ramiro Guiñazú in "Amália no Mundo")
Com a voz de Amália Rodrigues é a própria alma de Portugal que nos surge. A verdade é que nenhum outro intérprete do fado conseguiu, como ela, ser o reflexo da sensibilidade de todo um povo, desse povo que nela se reconhece. O fado, esse canto melancólico e apaixonado, começou por se cantar nas tavernas do porto de Lisboa. Se, depois, foi adoptado por todos apesar da sua origem e se se tornou parte integrante da vida de Lisboa, é a Amália Rodrigues que o deve. Não admira, pois, que os melhores poetas do país tivessem proposto os seus textos a Amália. A sua interpretação profunda e subtil sabia dar aos poemas todo o seu significado e toda a sua beleza. A qualidade musical das canções é obra de um compositor muito dotado: Alain Oulman. Embora português de adopção, ele soube renovar o fado e criar um novo estilo, unindo elementos de música clássica às melodias de origem popular. O seu encontro com Amália foi um encontro feliz, já que, depois de Frederico Valério, raros compositores tinham compreendido a sua voz. Voz que Alain Oulman entendeu como nenhum outro, para ela escrevendo uma música de forma ampla mas definida, a que sabia ligar sempre uma melodia carregada de ambiente, permitindo que Amália se transfigurasse, se desdobrasse nas suas incessantes improvisações. E permitindo também, através da sua música, que Amália cantasse os poetas de que tanto gostava.
"Gostava de Ser Quem Era" foi o primeiro álbum de material inédito, composto por dez fados originais com letras da própria Amália, escritas em sua casa durante a convalescença de uma doença. As músicas são dos dois guitarristas, Carlos Gonçalves e Fontes Rocha. A estes dois associam-se Joel Pina (viola-baixo) e Pedro Leal (viola). A pintura de capa é de Enric Ribô e a fotografia interior é de Augusto Cabrita. A edição original incluía uma capa de abrir (gatefold), com um livreto de oito páginas ilustradas, as letras das canções e ainda duas páginas em papel manteiga com uma poesia de Alexandre O’Neill dedicada à fadista.
É o primeiro disco ao vivo de Amália a ser editado e um dos de maior sucesso absoluto, com várias edições num grande número de países, a saber França, Reino Unido, Itália, Japão, Brasil, Estados Unidos da América, Holanda, África do Sul, Portugal, e outros ainda. Foi escolhido um conjunto todo cantado em português (e ainda bem, porque os estrangeirismos nunca foram o forte de Amália) , o que na época não acontecia nas actuações no estrangeiro, com os standards a partir de então sempre exigidos ("Uma Casa Portuguesa", "Coimbra", "Lisboa Antiga" e o indispensável "Barco Negro"), a que se juntam quatro Valérios, antes talvez de Amália ter concluído que Valério era um compositor de sucessos pouco internacionalizáveis. A única raridade, nunca depois gravado, é o tema "Nem às Paredes Confesso". E há também "Tudo Isto é Fado", que ficou no reportório. No conjunto, é um óptimo disco, uma voz portentosa, interpretações brilhantes, uma grande segurança nas apresentações, uma grande timidez nos agradecimentos, mas demasiado arrumado no sector aplausos-cantiga-aplausos, acusando talvez a demasiada passagem pelo estúdio, que não a falta de entusiasmo dos espectadores do Olympia, que se sabe ser grande, pois mesmo sendo a primeira actuação de Amália naquele que era o mais importante palco de music-hall europeu, não se pode esquecer que ficou duas temporadas, caso que até então nunca acontecera (Vítor Pavão dos Santos in “Amália Uma Biografia”)
A Valentim de Carvalho edita, em 1962, o álbum "Amália Rodrigues", que passou a ser conhecido por "Busto", em referência à escultura de Joaquim Valente reproduzida na capa, ou "Asas Fechadas", o nome do tema que abre o alinhamento. É o primeiro álbum de estúdio de Amália e o primeiro disco da cantora com músicas de Alain Oulman, quiçá o compositor mais importante da artista e a quem se deve o impulso decisivo para a renovação do fado. «Ele foi o primeiro a intuir, a um nível mais profundo, a fundamental coexistência, na personalidade de Amália, do popular e do culto, do espontâneo e do vigiado, do grácil e do austero – de tudo, em suma, o que a nimba de génio», disse David Mourão-Ferreira. Nesta primeira colaboração entre a fadista e o compositor francês, a escolha recaiu em quatro poemas de David Mourão-Ferreira ("Maria Lisboa", "Madrugada", "Abandono" e "Aves Agoirentas"), três de Luís de Macedo ("Asas Fechadas", "Cais de Outrora", e "Vagamundo"), um de Pedro Homem de Melo ("Povo Que Lavas no Rio") e um da própria Amália ("Estranha Forma de Vida"), sendo estes dois últimos os únicos que não têm música de Alain Oulman, respectivamente, de Joaquim Campos (Fado Vitória) e de Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Bailado). O acompanhamento instrumental foi de José Nunes (guitarra portuguesa), Castro Mota (viola) e do próprio Alain Oulman (piano, em "Asas Fechadas" e "Cais de Outrora"). Tal como viria a acontecer em discos posteriores de Amália, a gravação foi efectuada por Hugo Ribeiro, o técnico de som que «grava aquela que eu acho que é a minha voz, aquela que eu oiço... Só o Ribeiro é que está habituado à minha maneira de cantar».