segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O BUSTO DE AMÁLIA


Edição original em LP Columbia SX 1440 (mono)
(UK, August 1962)


A Valentim de Carvalho edita, em 1962, o álbum "Amália Rodrigues", que passou a ser conhecido por "Busto", em referência à escultura de Joaquim Valente reproduzida na capa, ou "Asas Fechadas", o nome do tema que abre o alinhamento. É o primeiro álbum de estúdio de Amália e o primeiro disco da cantora com músicas de Alain Oulman, quiçá o compositor mais importante da artista e a quem se deve o impulso decisivo para a renovação do fado. «Ele foi o primeiro a intuir, a um nível mais profundo, a fundamental coexistência, na personalidade de Amália, do popular e do culto, do espontâneo e do vigiado, do grácil e do austero – de tudo, em suma, o que a nimba de génio», disse David Mourão-Ferreira. Nesta primeira colaboração entre a fadista e o compositor francês, a escolha recaiu em quatro poemas de David Mourão-Ferreira ("Maria Lisboa", "Madrugada", "Abandono" e "Aves Agoirentas"), três de Luís de Macedo ("Asas Fechadas", "Cais de Outrora", e "Vagamundo"), um de Pedro Homem de Melo ("Povo Que Lavas no Rio") e um da própria Amália ("Estranha Forma de Vida"), sendo estes dois últimos os únicos que não têm música de Alain Oulman, respectivamente, de Joaquim Campos (Fado Vitória) e de Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Bailado). O acompanhamento instrumental foi de José Nunes (guitarra portuguesa), Castro Mota (viola) e do próprio Alain Oulman (piano, em "Asas Fechadas" e "Cais de Outrora"). Tal como viria a acontecer em discos posteriores de Amália, a gravação foi efectuada por Hugo Ribeiro, o técnico de som que «grava aquela que eu acho que é a minha voz, aquela que eu oiço... Só o Ribeiro é que está habituado à minha maneira de cantar».


Amália já tinha interpretado avulsamente poetas eruditos, mas a vasta erudição literária de Alain Oulman permitiu-lhe abordar poemas mais densos e de leitura menos óbvia. «Houve sempre coisas que eu queria cantar, poemas de que gostava, e não encontrava música para eles dentro dos fados clássicos. Precisava de quem escrevesse música para mim, e depois do Valério pouca gente escreveu», disse mais tarde a cantora. «Na realidade, – escreve Rui Vieira Nery – Alain Oulman trazia a Amália a resposta a uma sua preocupação de sempre, a de construir, de certa forma, um fado para além do fado, ou seja, uma música capaz de encontrar na grande poesia portuguesa de todos os tempos formas de estar, de ver e de sentir essencialmente idênticas às do repertório fadístico tradicional mas de, ao mesmo tempo, as envolver numa construção formal e harmónica mais sofisticada, sem perda do sabor expressivo próprio dos velhos fados estróficos. Protestaram-se supostos sacrilégios, pela voz dos fundamentalistas da poesia erudita e do fado castiço, mas cedo a magia de Amália triunfava e embalava-nos nestas melodias tristes, de forte travo modal, que obrigavam os guitarristas a encontrar encadeamentos harmónicos de uma complexidade a que não estavam habituados ("Vamos às óperas", dizia o grande guitarrista José Nunes, num tom entre a ironia e a sedução, quando tinha que tocar Oulman)»O próprio regime, se bem que por outras razões, também não ficou indiferente ao disco. Estava em causa a letra do tema "Abandono": "Por teu livre pensamento / Foram-te longe encerrar / [...] Levaram-te a meio da noite". Versos que eram facilmente conotáveis com as acções persecutórias da PIDE. E havia também os versos "Ao menos ouves o vento / Ao menos ouves o mar". Como havia um calabouço cheio de presos políticos precisamente à beira-mar, no Forte de Peniche, não demorou que "Abandono" ganhasse novo título: "Fado Peniche". O disco acabou por ser interditado e só viria novamente à luz do dia em 1970, já em plena Primavera Marcelista. Quem acusa Amália Rodrigues de conivência com a ditadura devia ouvir este fado e já agora também a "Trova do Vento Que Passa", incluída noutro álbum fundamental, intitulado "Com Que Voz" (Columbia/VC, 1970).


A propósito do álbum "Busto" assim escreveu Luís Maio: «Este disco é um óbvio marco histórico na história do fado e da música portuguesa em geral deste século. É como o "In The Wee Small Hours" de Sinatra, ou o "Revolver" dos Beatles. Porque é também uma mudança de nível, o salto qualitativo na carreira de uma artista já consagrada em termos de sucesso, que nesse movimento de risco inesperado atinge o auge da sua arte e determina a evolução de todo um género musical. Hoje é um disco de clássicos do fado, mas quando foi lançado representou uma ruptura com o classicismo então instituído, uma mudança de paradigma em termos de som e de imaginário. Antes, o fado tinha evoluído de modalidade de entretenimento marginal para uma forma musical sancionada e reivindicada pelas classes populares do país urbano. Sem perder esse cunho popular, este disco elevou-o a uma nova dignidade cultural. O requintado discurso dos poetas, as complexas composições de Oulman, mas também a nova liberdade vocal de Amália conjugada com uma sábia austeridade promoveram o fado a um plano superior de apuro artístico e cultural. Mais de cincuenta anos depois, "Busto" emana um encanto intemporal que faz com que seja muito do fado feito depois que soe datado. Não que o fado ou a obra de Amália tenham morrido em 1962, mas este disco representa o género de associação entre espontaneidade e visionarismo característicos das obras em que assentam edifícios musicais. Por isso mesmo, a sua riqueza é tal que se presta sempre a novas formas de ouvir. Com Madredeus, em particular de "O Espírito da Paz", aprendemos a reescutar a música portuguesa de raiz popular como paisagem sonora. Ora, "Busto", com a toda a sua elaboração e austeridade, surge como que talhado pela mesma espiritualidade pictórica, extrapolação das formas de sentir portuguesas para um plano de inebriante metafísica. Uma estranha coincidência ou nem tanto?»


3 comentários:

Willians disse...

Eu que estou descobrindo o fado agora, já conhecia, mas meio de passagem, ouvindo uma coisa aqui e ali, como "Fado tropical" do Chico e "Argonautas" do Caetano que ajudou a conhecermos a música portuguesa, com os discos que estou baixando aqui, dá para ter uma ideia melhor da qualidade musical. Só tenho a agradecer a generosidade do Rato. Falou de Beatles e também de Sinatra, já aguçou a curiosidade mais ainda. Amália já é muito conhecida aqui no Brasil. Baixando para conferir. Obrigado.

Rato disse...

Amigo Willians: Você já descarregou a colecção "Variações do Fado"? São 3 volumes duplos, onde poderá constatar a grande riqueza deste tipo de música portuguesa. Vou começar a trabalhar num 4º volume que irá aparecer por aqui daqui a uns tempos. Esteja atento!

Willians disse...

Obrigado pela dica, Rato. Mas os links estão off da coleção "Variações do Fado 1, 2 e 3". Quando lançar o volume 4, tem como re-postar os 3 primeiros? Obrigado.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...