Edição original em LP Comuna CLP-1001
(PORTUGAL 1978, Janeiro 19)
Mãe - filha da revolução
Naquele Verão, quando se retirou de férias com a família para Odeceixe, José Mário Branco atravessava um período particularmente difícil. Desde que chegara a Portugal, a 30 de Abril de 1974, disposto a «mergulhar a fundo» no processo revolucionário aberto pelo derrube da ditadura, muitas coisas tinham seguido caminhos inesperados. O Grupo de Acção Cultural-Vozes na Luta, grupo musical que ajudara a fundar, passava agora sem ele; o PCP(R), partido de que fora membro activo, afastara-o em nome de uma campanha «proletarizante» que fomentava o desprezo pelos intelectuais; o projecto de festival popular «Reviver Lágrimas de Alegria», que ele idealizara como forma de comemorar o terceiro aniversário do 25 de Abril naquele ano de 1977, morria atrofiado em folhas de papel travadas por desprezo ou indiferença; e, a piorar as coisas, crescia perante ele a evidência de um casamento à beira do fim e chegava-lhe aos ouvidos a dolorosa notícia de que tinha sido diagnosticada em José Afonso a doença incurável que viria a vitimá-lo. Do casamento findo (que as férias em família confirmaram) e da doença de José Afonso nasceram duas canções: "Treze Anos, Nove Meses" e a primeira versão de "Zeca". Mas o festival sabotado provocou nele uma imensa depressão, agravada pela expulsão do partido a que antes entregara a sua vida.
Foi quando a depressão começava a dar lugar ao vazio que, ainda em férias, recebeu um telefonema. Alguém da Comuna queria falar com ele. Um novo convite? Em 1976 recusara musicar "O Muro" , peça baseada nas "Aventuras de João Sem Medo", de José Gomes Ferreira, invocando falta de tempo e de disponibilidade - havia a música do GAC, a política do PCP(R). Agora, afastados ambos, tempo e disponibilidade podiam ser geridos de outra forma. Disse que sim, quando do outro lado do fio a actriz Manuela de Freitas o convidou, em nome da Comuna, para musicar uma versão da peça "A Mãe" , de Bertolt Brecht. E começou de imediato a trabalhar. Em Setembro, findas as férias e aberto um novo capítulo na sua vida, já tinha escrito a primeira canção. A ideia de encenar Brecht num grupo de teatro de pesquisa como era a Comuna nasceu de uma conjugação de factores. Manuela de Freitas recorda uma «espécie de congresso» onde, ao longo de três dias, o grupo fez o balanço do seu trabalho e discutiu os caminhos a seguir. Porquê Brecht? Porque para um grupo considerado anti-brechtiano e conotado sobretudo com as propostas de Peter Brook e Grotowski («havia aquela ideia de que nós não sabíamos representar textos, só sabíamos grunhir», diz Carlos Paulo, outro dos membros do grupo) era simultaneamente uma provocação e um desafio.
Porquê "A Mãe"? Porque a peça passara pouco tempo antes pelo palco da Comuna, representada por um grupo amador, e a companhia residente ficou rendida ao texto. Manuela de Freitas, em particular. Mas não só. Carlos Paulo: «Ficámos fascinados. Uma obra que até nem era das mais representadas de Brecht, porque panfletária, permitia-nos criar um musical possível, em 78/79». A ideia de trabalhar com José Mário Branco já vinha de antes. De tal modo que, apesar da indisponibilidade do cantor em 1976, a Comuna usou com autorização dele o tema "Perfilados de Medo" (do álbum "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades") na peça "O Muro". E na peça seguinte, "Em Maio" , o grupo insistiu com José Mário Branco para que compusesse uma canção original, o que veio a acontecer. Chamava-se "Travessia do Deserto", foi inspirada num poema de Sophia de Mello Breyner e mais tarde figurou no álbum "Ser Solidário" (1982).
No dia 23 de Dezembro de 1977 "A Mãe" é apresentada em ante-estreia no casarão cor-de-rosa da Comuna, na Praça de Espanha, em Lisboa. Mas a estreia comercial só ocorre a 19 de Janeiro de 1978. Pelo meio, todos os elementos do grupo recolhem aos estúdios da Rádio Triunfo, em Lisboa, para gravação do disco agora reeditado, com as canções e alguns (curtos) diálogos da peça, de modo a dar maior consistência ao registo fonográfico daquilo que é, no essencial, uma peça de teatro embora musicada (o album é colocado à venda no Teatro, no próprio dia da estreia).
Entre essas duas datas, Portugal vivia um conturbado período de crise política e económica. O PS, então no Governo, anunciava um programa de austeridade para 1978; o Presidente da República Ramalho Eanes entregava ao actual Presidente Jorge Sampaio (nessa altura líder do grupo Intervenção Socialista) a chefia de uma missão diplomática a Moçambique; e Mário Soares, ainda longe da Presidência da República (cargo que ocupou entre 1986 e 1996), depois de ter visto o seu governo cair no Parlamento a 8 de Dezembro, era reconduzido vinte dias depois ao cargo de Primeiro-Ministro à frente de uma coligação PS-CDS. Nos anúncios dos jornais, como saldos de uma revolução finada, anunciavam-se a 300 escudos medalhas de bronze com a efígie de Vasco Gonçalves e o «lema» «Revolução ou Reacção» e «finalmente em português!» as obras escolhidas de Lenine. Primeiro volume, 250 escudos... Cinemas e teatros não se apresentavam no seu melhor. Mesmo assim, nos ecrãs portugueses, as atenções dividiam-se entre a estreia de «A Guerra das Estrelas», de George Lucas, e a reposição de «2001, Odisseia no Espaço», de Kubrick. Pelo meio ficavam «New York, New York» , de Scorsese, «Inserts» , de Byrum, e o implacável Clint Eastwood na pele de «Dirty Harry».
Nos palcos lisboetas, o Teatro da Graça encenava «Uma Abelha na Chuva» (de Carlos de Oliveira), a Casa da Comédia «A Dama Pé de Cabra», o Grupo 4 «Os Macacões» e, no Trindade, estava Augusto Boal com «Zumbi», de Guarnieri e Edu Lobo. No Porto, a Seiva Trupe apresentava os «Contos Cruéis» (Jorge de Sena) e o TEP «Os Emigrantes». Na televisão, que já disputava fortemente as audiências entre os consumidores de espectáculos, a primeira telenovela brasileira a ser exibida em Portugal («Gabriela») dava lugar à segunda («O Casarão»), enquanto o concurso «A Visita da Cornélia» chegava ao fim, entre aplausos e apupos. Em termos discográficos, "Enquanto há força", de José Afonso (1978), "Pano-Cru", de Sérgio Godinho (1978), "Um homem na cidade", de Carlos do Carmo (1977), "Madrugada dos Trapeiros", de Fausto (1977), "Chão Nosso", dos Trovante (1977) e "Lisboémia", de Júlio Pereira (1978) são os títulos mais em evidência no período que vê nascer e crescer, em palco e em disco, "A Mãe".
Mas voltemos à Comuna. As reacções à estreia da peça são entusiásticas, aquém e além fronteiras. Carlos Porto, no Diário de Lisboa de 28/1/78, classifica-o como «um dos melhores espectáculos da Comuna, o que significa um dos melhores espectáculos do teatro português de há seis anos a esta parte. (...) Ao mesmo tempo de Brecht e da Comuna, ao mesmo tempo didáctico e comovente, ao mesmo tempo político e poético (...) Mais do que indispensável.» Fernando Midões, por seu turno, escreve no Diário Popular (24/1/78): «Pela segunda vez em Portugal, a função da música em teatro, como era pretendida por Brecht, teve realização absoluta (...) tanto mais que José Mário Branco 'fez Brecht aqui', partindo (e compondo) consciente e inspiradamente de raízes nacionais (chulas, toadas transmontanas, etc.), cantando com cortes, respiração e andamentos que desmentem, em definitivo, a proclamada indisponibilidade de transmitir, através da nossa língua, a oralidade e a intenção, enquanto versificadas, do discurso brechtiano.» O Diário de Notícias descreve-o como «uma proposta de prazer, vitalidade e inteligência,» a revista Seara Nova como «um espectáculo claro, justo, necessário e exemplar» e o jornal alemão Stuttgarter Zeitung, referindo-se à apresentação no Festival Internacional de Teatro de Stuttgart (1978), classifica-o de «inimitável «e «inconfundível»: «Para estes jovens actores (...) nada há de supérfluo ou de casual. Os aplausos de fogo foram justos para este espectáculo.»
Em França, onde corre 18 localidades, "A Mãe" é vista como um espectáculo marcadamente português. «O Brecht, no fundo, serviu-nos de pretexto para falarmos de nós, de Portugal, daquele período, dos sonhos e das ingenuidades, das contradições todas que estávamos a viver», diz Carlos Paulo. Prova disso é que, no colectivo da Comuna, sob a direcção de João Mota (responsável pela versão cénica e encenação), o texto original de Brecht - traduzido para português por Yvette Centeno e Teresa Balté e editado pela Ática em Janeiro de 1978 - foi objecto de diversas adaptações, não só nas letras e músicas das canções como no próprio texto da peça de modo a conferir-lhe outro fôlego. "A Mãe" que sobe ao palco da Comuna e assegura quase um ano de representações já não é a de Brecht mas sim uma outra "Mãe", nascida das interrogações da revolução portuguesa e com a patente partilhada entre Máximo Gorki, autor do romance original, Bertolt Brecht e a própria Comuna. Os próprios nomes dos protagonistas são aportuguesados para criar uma maior identificação do público. E é assim que a velha mãe Pelãgia Vlassova passa a chamar-se, na pele de Manuela de Freitas, Maria Rodrigues - uma combinação entre os nomes da actriz (Maria Manuela) e da mãe do encenador, João Mota (Rodrigues). Os novos nomes, aliás, ou vêm dos próprios actores ou de alguém conhecido. Pavel, o filho, é rebaptizado como Carlos por ser esse o nome do actor que o interpreta: Carlos Paulo.
José Mário Branco, que além de dirigir as vozes dos actores nas partes musicadas teve a seu cargo um pequeno papel (o de um cozinheiro conciliador), diz com algum humor que esta peça é «um produto típico de João/de Freitas/Branco» - ou seja, do trabalho conjugado de João Mota, Manuela de Freitas e José Mário Branco com todo o elenco da Comuna na época. «Para nós, actores» - recorda agora Carlos Paulo - «foi um trabalho de criação lindíssimo porque foi sendo feito connosco e veio complementar o que até aí fazíamos. Para nós, a música era um elemento estranho que nos era metido numa determinada altura de um espectáculo. A partir de - "A Mãe" conseguimos descobrir que a música podia ser mais um elemento criativo, harmónico e enriquecedor. Crescemos todos muito com este trabalho. E perdemos o medo de cantar, que é uma coisa que o actor tem sempre. O Zé Mário deu-nos uma grande confiança.» As canções de "A Mãe" foram interpretadas apenas pêlos actores da Comuna. De fora vieram só os músicos, como Júlio Pereira e Luís Pedro Faro (que também colaborou nos arranjos). Mais tarde, o próprio José Mário Branco voltou a trabalhar com a Comuna, juntamente com Manuela de Freitas, nas peças "A Pécora", de Natália Correia (1989) e "O Estrangeiro em Casa", de Richard Démarcy (1990).
E para o futuro, o que ficou? Manuela de Freitas diz que «ficou sobretudo a recordação de uma grande comunhão com o público, a sensação de que o teatro devia ser sempre assim, com o público como co-criador de cada espectáculo. Um teatro que já não há. "A Mãe" foi o culminar do trabalho da Comuna, o expoente máximo do sentido desse trabalho.» E ficou também uma outra proximidade com a música. Na peça seguinte, a Comuna trabalhou, por exemplo, com José Afonso. Outros músicos que colaboraram, com maior ou menor assiduidade, com o grupo foram José Pedro Caiado, Eduardo Paes Mamede, Luís Pedro Faro e Carlos Mendes. Para quem, à época, não viu a peça (e jamais a verá, dado que não existem registos fílmicos ou videográficos), a audição do disco que agora se reedita pode ser uma experiência tão curiosa quanto enriquecedora: desde logo pela forma como vozes e instrumentos são utilizados na sugestão de ambiências contraditórias (opressivas, épicas, exaltantes, alegóricas, quase infantis); como se contêm ou despoletam emoções; como da frieza erudita da música de Hanns Eislerfoi possível passar, sem decalques nem transposições primárias, para uma leitura emocionada e vigorosa de um clássico quase panfletário. Hoje, mesmo com as revoluções e os ideais comunistas já arrumados no museu da História, a audição de canções como "Qual é Coisa Qual é Ela (Elogio do Comunismo)", "ABC", "Os Meninos de Amanhã" ou "Cantiga de Alevantar" (onde José Mário Branco misturou de forma magistral o «leva, leva» dos pescadores algarvios a dois cantos tradicionais, de aboiar e fúnebre, recolhidos por Michel Giacometti) pode, mais do que questionar as propostas ideológicas aqui contidas, levar à constatação de que a arte, - quando é de arte que se trata - sobrevive à efemeridade das mensagens políticas.
Com "A Mãe", se é certo que o Teatro da Comuna ganhou alguma coisa ao aproximar-se da música, não será menos verdade que José Mário Branco ganhou muito com o teatro, primeiro em Paris, mais tarde com a breve mas fecunda experiência na Comuna ("A Mãe" e "Homem Morto, Homem Posto"). Os próximos passos da sua carreira (Teatro do Mundo, "Ser Solidário", "A Noite") aí estão a confirmá-lo.
Nuno Pacheco, 1996