terça-feira, 11 de outubro de 2016

SG: "À QUEIMA ROUPA"

Edição original em LP Guilda da Música DP 016
(PORTUGAL 1974, Outubro 13)


Este terceiro trabalho de Sérgio Godinho é um album que tem o 25 de Abril de 1974 como centro de gravidade. Algumas canções (como a “Etelvina”, “Cão Raivoso” ou “De Coração e Raça”) foram ainda concebidas e gravadas no Canadá, outras (como "Independência" ou a famosa “Liberdade” que abre o disco) surgiram no rescaldo da Revolução. Mas a finalização do LP aconteceu já em Portugal, no outono, altura em que o cantor regressou de vez à sua terra. Por coincidência, no momento em que soube dos acontecimentos políticos em Portugal, Sérgio Godinho, então a viver no Canadá, estava na iminência de fazer as malas para uma viagem à Europa. «O meu pai ia fazer 60 anos a 10 de Maio e queria reunir os três filhos. Iriam ter comigo a França, onde o meu irmão Paulo então vivia. Mas quando cheguei a Paris já não encontrei os meus amigos. Alguns tinham partido no dia anterior, no “avião do Cunhal”.


Era o 1º de Maio, vejam lá só que data, um dia de calor, as ruas desertas, eu a tentar saber o que se passava em Portugal e lá o povo todo a comemorar. Tentei certificar-me, sendo um refractário, se havia riscos ao entrar e sair de Portugal. Disseram-me para vir, havia um vazio de autoridade em muitos sectores e nas fronteiras também, não ia haver problemas. E assim vim. De longe, de muito longe, como diria o Zé Mário. No dia em que cheguei fui logo “raptado” para participar num daqueles cantos improvisados que, durante algum tempo, se chamaram “cantos livres”. Foi, penso eu, no átrio da Faculdade de Letras. E na mesma noite fui cantar ao São Luiz numa sala repleta de gente e entusiasmo. E poucos dias depois fui ao Porto ver a minha família e amigos.» Continuemos a reviver as memórias do Sérgio daqueles excitantes dias: «Era muito emocionante perceber que as pessoas conheciam bem as canções, eu que nunca as tinha tocado ao vivo na minha terra. Lembro-me de cantar, entre outras, o “Que Força é Essa”, o “Pode Alguém Ser Quem Não é” e o “Maré Alta”, que me deu um frisson especial. Cantar 'a liberdade está a passar por aqui', que antes tinha sido uma premonição, na própria altura em que isso se estava a tornar realidade, era incrível!»


Fruto do tempo em que surge, “À Queima Roupa” é habitualmente descrito como um dos albuns politicamente mais explícitos da obra de Sérgio Godinho. Sem o panfletarismo imediato que dominaria casos paradigmáticos da canção política pura e dura (com uma proliferação de casos musicalmente menores e com exemplos maiores nos dois primeiros albuns do GAC), Sérgio Godinho retratava o seu tempo, aderia à Revolução, mas não colocava a qualidade poética da escrita em segundo plano, evitando assim uma rendição incondicional à doutrina e urgência de certas manifestações contemporâneas.


A edição de “À Queima Roupa” assinala, de certa forma, o início da carreira de palcos de Sérgio Godinho que, então, passou inevitavelmente pelas muitas sessões de “canto livre” que se disseminavam de norte a sul do País. O facto de ter editado os primeiros dois discos no estrangeiro e de não ter podido actuar em Portugal não correspondia ao que seria um percurso natural. Acentuou-se assim a ideia, ainda hoje firme em si, de procurar satisfazer em palco o que não tinha resultado como queria em estúdio: «Não consigo conformar-me com o facto de a versão gravada ser a versão definitiva. Acho que o disco é um momento importante na vida da canção. É um casamento, onde se faz a boda é no disco. Mas depois a vida continua e a vida da canção também continua. E, como os amores, pode morrer de morte natural ou ganhar vida nova. Podemos fazer transformações que são como os filhos que nascerão dela. Esse é o percurso natural de vida e morte de uma canção.» “À Queima Roupa” mereceu prémios, como os trabalhos anteriores. Entre eles o de "Melhor Album do Ano", para a Rádio Renascença. (extractos de “Retrovisor – Uma biografia musical de Sérgio Godinho, de Nuno Galopim, edição Assírio & Alvim, Maio 2006)

2 comentários:

Anonymous disse...

Hola Rato:

Gracias por postear los discos de Sérgio en su mejor etapa (los setenta) y a tan gran calidad.

Um saúdo

Fernando

Anonymous disse...

Ola Rato,

Muito obrigado pelo essa Godinho.
Saudades.

Onzi

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