
Tudo começa sempre ao som dos “Vinte Anos” dos Greenwindows e segue por ali fora, num ressurgimento de situações mais ou menos conhecidas, mais ou menos já vividas pela geração que hoje tem mais de 50 anos. Pela parte que me toca todos os domingos à noite tenho bilhete pré-comprado num compartimento da máquina do tempo que a RTP1 colocou à nossa disposição.
Falo, como decerto já adivinharam, da série “Conta-me Como Foi” que em boa hora a televisão pública foi adaptar da equivalente espanhola, “Cuentame Como Pasó”. Retratando o dia-a-dia de uma família lisboeta dos finais da década de sessenta (a acção inicia-se em Março de 68 com a chegada de um moderno televisor a casa da família Lopes, já equipado com UHF para poder apanhar o futuro programa 2) a série acompanha as peripécias dessa famíla típica da média-baixa burguesia, recordadas em voz-off pelo Carlos, que na altura em que a acção decorre era o benjamim do clã com 8 anos. Fica assim definido o canal de retorno ao passado: é através da família Lopes que se assiste ao desfile de acontecimentos marcantes na vida política, social, cultural e desportiva em Portugal e no mundo daquela época, enquadrados com a trama de cada episódio.

“Conta-me como foi” retrata, acima de tudo, o modo de viver e pensar de uma sociedade ainda muito fechada sobre si, com todos os tabus característicos da época e a gradual embora desconfiada abertura a novas mentalidades. Tudo feito sem espírito saudosista, sem abordagens moralistas ou juízos de valor.
A moda, bem documentada no vestuário e nos cortes de cabelo (a Isabel, filha mais velha do casal, trabalha num cabeleireiro), as músicas da época que se escutavam livremente na rádio ou aquelas outras que apenas se ouviam, quantas vezes a medo, em pequenos gira-discos, os programas televisivos com todas aquelas caras bem conhecidas, entre apresentadores e vedetas, as publicações periódicas (o Camões tem um quiosque na rua sempre atulhado com as últimas novidades), produtos diversos sempre muito bem publicitados, tudo tem a sua participação muito especial num tempo em que o computador ou o telemóvel não passavam de meras alucinações futuristas.

Na origem do grande sucesso da série está um exaustivo trabalho de reconstrução que ficou a cargo da jornalista e historiadora Helena Matos. «É um trabalho de minúcia, que chega até ao pormenor das moedas usadas na época. Não é um trabalho perfeito, porque senão desistia logo. O desafio está na máxima proximidade à realidade da altura», referiu ela numa entrevista ao DN, Um projecto que implicou uma detalhada pesquisa, iniciada um ano antes do começo das filmagens «e que ainda continua, uma vez que tenho que acompanhar a evolução da série e dos anos», acrescenta a historiadora.
Nesse processo de reconstrução Helena Matos não confiou na memória dos que viveram naquela altura. «Podia ser muito traiçoeiro, pelo que investi em documentos da época», Para isso, recorreu a várias revistas e jornais, bem como boletins municipais (nomeadamente para saber os preços a afixar em diversos artigos expostos).

A indumentária das personagens está de igual modo preparada ao pormenor: «Recorremos às roupas antigas que os nossos pais e avós guardaram», diz Rita Brütt, que interpreta na série a filha Isabel. Os restantes fatos foram feitos pelas costureiras Catarina Santos e Lurdes Gonçalves ou comprados em lojas retro, como a Outra Face da Lua (Bairro Alto).
O mobiliário da casa dos Lopes foi encontrado em «empresas que recebem móveis antigos que as pessoas já não querem e que nós aproveitamos ou reciclamos», explicou Marta Gil, chefe de produção de estúdio.Os exteriores foram outra dificuldade, em especial a praia e a piscina, que, naturalmente, mudaram desde 68: «Tivemos que contornar os planos das câmaras de filmar e fazê-los muito fechados», acrescenta.

No final de cada episódio, e ainda sob o efeito emocional que cada um deles sempre me provoca, nunca sei o que mais admirar: se a reconstituição cenográfica e decorativa (sempre atenta aos mais ínfimos pormenores), se o argumento (muito bem enquadrado com as realidades da época), ou se o notável desempenho dos actores (todos eles muito bem dirigidos e completamente identificados com as diversas personagens), não sómente dos principais (e Miguel Guilherme e Rita Blanco arriscam-se a ter aqui os papeis da vida deles) como de todo o restante elenco.
Realizada por Fernando Ávila e Pedro Miguel, e adaptada pelo grupo Cartas de Amor, a série da RTP conta com uma equipa de 80 profissionais e tem prevista a apresentação de um primeiro naipe de 26 episódios (espero que não fique por aí, até porque em Espanha a série se mantém no ar há sete anos consecutivos, sempre com o mesmo grande sucesso), dezasseis dos quais já foram para o ar (a estreia ocorreu no dia 22 de Abril deste ano, estando o último episódio previsto para 20 de Janeiro de 2008).

O formato de "Cuéntame cómo pasó" foi adaptado noutros países, como a Itália e o México, para além de Portugal, devido às semelhanças históricas das décadas de 60 e 70. De tal forma que os criadores da série original querem juntar elencos dos vários países para um episódio especial. Essa ideia era uma forma de, «junto do público, fazermos perceber que "Cuéntame cómo pasó" fala de um tema universal e mostrar que existiam realidades semelhantes à nossa, partilhadas por pessoas que estavam em partes distintas do globo.»
Deixo aqui um alerta e um voto para que brevemente possamos aceder em DVD a todos os episódios desta série magnífica e sem paralelo na história televisiva portuguesa. Desse modo teremos então a possibilidade de os arquivar junto a enciclopédias e outros livros de consulta, para que se um dia mais tarde nos pedirem “Conta-me como foi…” podermos rapidamente dar a resposta.