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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

De Loucura Em Loucura

Edição Original em LP Alvorada LP-S-98.3 
(Portugal, 1973)


Confesso-me surpreendido pela aceitação que o Fado tem tido por estas bandas (sobretudo por parte de estrangeiros). Este LP, em particular, tem-me sido muito solicitado, desde que o original post foi colocado em Dezembro de 2007. Por isso, acho que está na altura de satisfazer todos esses pedidos. Trata-se de um dos melhores trabalhos de Fernanda Maria, uma das duas fadistas mais queridas aqui do Rato (a outra é a Tereza Tarouca, da qual e infelizmente não possuo qualquer album de originais), gravado no auge da sua carreira, a viver então uns esplenderosos 36 anos e ainda um dos principais atractivos do Bairro Alto, na casa típica “Lisboa à Noite”, onde actuava também o saudoso Manuel de Almeida. Com acompanhamento de Jaime Santos à guitarra, Martinho de Assunção à viola e Raúl Silva no baixo, esta dúzia de pérolas liberta um som magnífico, forte e profundo, no seu estéreo bem equilibrado e preciso. Um som bem característico dos discos em vinil que infelizmente é hoje em dia muito difícil de ser imitado. O que evidentemente tem também o condão de realçar a belissima voz da fadista, uma voz que aperta o coração e traz a tristeza que faz entrar em fermentação o amor.




quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Não sabíamos mais, tínhamos quinze anos..."

Edição Original em LP London Globe SLLGB 1000
(Portugal, 1969)


Um album raríssimo e muito difícil de encontrar, editado exclusivamente em Portugal durante o ano de 1969. A editora foi a Valentim de Carvalho, pelo que se receia o desaparecimento das bobines originais de gravação. Esta transcrição para formato digital foi feita particularmente, e a expensas próprias, mas só foi possível graças ao meu amigo Daniel Bacelar que gentilmente me disponibilizou o vinil original, como sempre em estado impecável. Por isso mesmo convém aqui lembrar que o disco não se encontra à venda em qualquer formato; é que tenho recebido várias solicitações para esse efeito, inclusivé do biógrafo do próprio Serrat que há muitos anos anda à procura de uma cópia do album original. «Tanto cambiaron que aquel mismo año, el hombre pisó la Luna al parecer por primera vez, las gentes del D.F. se aventuraron a desplazarse de Tacubaya a Chapultepec en metro y un servidor grababa este, su primer LP en castellano que con todo respeto quiero dedicar desde estas líneas a mi amigo, hoy desaparecido, Plinio Chiesa, ingeniero de sonido de esta grabación.» São doze canções (mais duas do que a versão original espanhola, disco também já disponibilizado) com letras e músicas do próprio Serrat, e versões portuguesas de Alexandre O'Neil (que assina 8 temas), António José (très) e Magalhães Pereira. É precisamente com a versão deste último, "Meu Amor Adeus" (a minha preferida de todas) que vos deixo:

Quero esquecer essa casa vermelha
e a janela em flor
a escada tosca e a imagem velha
recordações dum breve amor.

A cama negra e tão esburacada
d’alvos lençóis iguais
e a chegada duma madrugada
que juntos não veremos mais.

Não quero que teus olhos chorem
e procurem os meus
o caminho é tão longo
meu amor adeus!

Adeus, adeus, partirei à calada
que frio paira no ar...
mas vou cantar, gritar uma toada
assim o frio irá passar.

Não vou esperar e não quero ouvir nada
nem o ladrido do teu cão
nem o adeus dessa gente que é nada
inútil recordação.

Não quero que teus olhos chorem
e procurem os meus
o caminho é tão longo
meu amor adeus!

Pus a guitarra ao ombro e agora
vou p’ra longe daqui
quando na noite bater uma hora
não estarei já ao pé de ti.

Os anos hão-de apagar as pisadas
que deixo em teu redor
eu vou a pé, o caminho é tão longo
direi adeus a cada flor.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

"A Liberdade Estava a Passar Por Aqui..."


Edição original em LP Guida da Música, DP 006
(Portugal, Janeiro de 1972)

Lisboa, Cinema Roma, 26 de Novembro de 1971. Numa sessão conjunta eram apresentados o EP “Romance de um dia na estrada” de Sérgio Godinho (uma espécie de cartão de visita para o album de estreia “Os Sobreviventes”, editado pouco tempo depois, nos princípios de 1972) e o album “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” de José Mário Branco. Uma sessão promovida sem a presença dos respectivos autores (que contudo enviariam um depoimento gravado em Paris e lido na altura pelo jornalista Adelino Gomes). Ambos os trabalhos tinham sido gravados em França (fins de Abril de 1971), no recentemente inaugurado Strawberry Studio, localizado no Chateau d’Hérouville, nos arredores de Paris. E ambos revelar-se-iam peças-chave num processo de revolução musical que, depois das primeiras pistas de José Afonso, encetavam a ideia de uma música moderna em Portugal. Uma revolução que chegava de Paris. Este primeiro album de SG exibe uma impressionante versatilidade de abordagens a estéticas musicais diversas e uma paleta igualmente diversificada de temas e caminhos no coração das palavras. Apesar de ter sido retirado do mercado português pouco depois de editado, “Os Sobreviventes” não só garantiu a imediata revelação de Sérgio Godinho, como lhe trouxe o primeiro de muitos prémios: o de melhor disco português do ano, atribuído em finais de 1972 pela Casa da Imprensa. Nas entrelinhas passava uma mensagem de luta e esperança: «a liberdade está a passar por aqui», cantava em “Maré Alta”, como que a dizer: «agarrem-na!»


DISCOGRAFIA (albuns originais)

- 1972/01 – Os Sobreviventes
- 1972/09/24 – Pré-histórias
- 1974/10/13 – À Queima Roupa
- 1976/04/14 – De Pequenino Se Torce o Destino
- 1978 – A Confederação (banda sonora)
- 1978/04/03 – Pano-Cru
- 1979/11/23 – Campolide
- 1981/02/25 – Kilas, o Mau da Fita (banda sonora)
- 1981/09/12 – Canto da Boca
- 1983/06/02 – Coincidências
- 1984/12 – Salão de Festas
- 1986/05/05 – Na Vida Real
- 1988 – Os Amigos do Gaspar (disco infantil)
- 1989/09/12 – Aos Amores
- 1993/08/15 – Tinta Permanente
- 1997/06/02 – Domingo no Mundo
- 2000/10/16 – Lupa
- 2003/04/21 – O Irmão do Meio (com artistas convidados)
- 2006/10/23 – Ligação Directa
- 2011/09/12 – Mútuo Consentimento
- 2013/11/25 – Caríssimas Canções (album de versões)
- 2018/01/26 – Nação Valente

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na Hora da Morte de JOSÉ NIZA (16/9/1938 - 23/9/2011)

Edição Original em LP Orfeu STAT 013 (1972)





tempo de poesia
***
todo o tempo é de poesia
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia
desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
entre bombas que deflagram
corolas que se desdobram
corpos que em sangue soçobram
vidas que a amar se consagram
sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança
sob o arco da aliança
da celeste alegoria
todo o tempo é de poesia
desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia
(RE-UPLOAD)

sábado, 31 de maio de 2008

GAC: "... E VIRA BOM" (1977)

Edição da "Vozes na Luta"
Cooperativa de Acção Cultural S.C.A.R.L.

GAC - VOZES NA LUTA: "POIS CANTÉ!!"

Tudo mudou na música portuguesa depois de Abril de 74. A mais evidente das transformações assinalou o fim do exílio, da vida escondida e dos discos passados por debaixo do balcão para os muitos cantores de intervenção que desde os idos de 60 lutavam contra o regime. Passaram a ser as vozes dos discos mais procurados, que enchiam cantos livres, que se escutavam nas emissões de rádio e televisão, num ciclo de protagonismo da canção popular politizada (e na esmagadora maioria dos casos essencialmente panfletária) que conheceria fim a 25 de Novembro de 75. Inversamente proporcional, a criação e divulgação de géneros antes "eleitos", como o fado ou a canção ligeira (apelidada de “nacional cançonetismo”) acabou quase silenciada.
Em 1975, concretização da euforia musical que inundou as ruas e salas de espectáculo da cidade e província desde 74, os nomes do canto de intervenção chegaram, em massa, aos discos (num ano onde raras foram as fugas editoriais a este tronco politizado... e de esquerda). Salvo pontuais e raras excepções, a canção política do Portugal pós-revolucionário transformou-se num programa de princípios com evidente carga pedagógica e, sobretudo, ideológica. Defendia-se o poder popular, a reforma agrária, o combate ao capitalismo, a celebração do operário e do camponês. Tractores e enxadas viravam protagonistas em canções feitas sob certas regras implícitas que promoviam frequentemente a eficaz descodificação da mensagem, a repetição do slogan, a fácil memorização da melodia, a transmissão da ideia.
O GAC – VOZES NA LUTA foi fundado em casa de José Jorge Letria, no dia 30 de Abril de 1974, então ainda sob a designação de CAC-Colectivo de Acção Cultural. Essa foi precisamente a data em que o cantor e compositor José Mário Branco, um dos mentores do movimento, regressou do seu exílio em França. Pelos vistos, já tinha a ideia amadurecida e por isso tratou logo de a pôr em práctica. Para além dessa incontornável figura da música popular portuguesa estiveram ligados à fundação daquele movimento personalidades como Afonso Dias, Eduardo Paes Mamede, João Loio, Luís Pedro Faro (cuja formação etno-musicológica foi de especial importância), Nuno Ribeiro da Silva (que veio a ser mais tarde secretário de Estado num dos governos de Cavaco Silva), Toinas (Maria Antónia Vasconcelos), o poeta Manuel Alegre e a violoncelista Luísa Vasconcelos, entre outros (muitos deles oriundos da Juventude Musical Portuguesa).
No início o que se pretendia com este grupo era tão sómente apoiar as greves e outras manifestações que despontavam como cogumelos, chegando a haver um manifesto de intenções lido no 1º Encontro Livre da Canção Popular, a 6 de Maio de 1974.
O tempo viria no entanto a abrir cisões e a criar dissidências. Afastaram-se os músicos ligados ao PCP, depois os próximos da LUAR, mantendo-se firme o grupo associado à UDP. Em 1975, o GAC – VOZES NA LUTA nascia dos sobreviventes ideológicos do CAC, abdicando os envolvidos de qualquer manifestação individualista, destacando antes o trabalho colectivo e depurado do que então se criticava como "vícios burgueses".
O grupo concorre ao Festival RTP da canção com o tema "Alerta" e editará muitos outros singles , tais como "A Cantiga É Uma Arma" ou " A Ronda do Soldadinho". Estes singles serão , posteriormente, reunidos num LP intitulado "A Cantiga É Uma Arma".

Com o 25 de Novembro, os ânimos políticos arrefecem e o grupo começa a iniciar uma nova fase que passa pela recolha de temas tradicionais , recriados com novas letras da autoria do grupo ou com originais muito próximos da música tradicional.
Tal é o caso do LP "Pois Canté!!", editado em Abril de 1976. Este é um disco fundamental para a compreensão de todo o fenómeno posterior de recriação da música tradicional, feita por grupos como Raízes, Brigada Victor Jara, Vai de Roda, etc., fazendo inclusivé parte dos trabalhos discográficos que o jornal "Público", numa votação dos seus críticos musicais , considerou como dos melhores de sempre da música portuguesa.
Ouvido agora, a mais de trinta anos de distância, é evidente que as letras são profundamente datadas, demagógicas, e em que qualquer réstia de poesia se encontra ausente, sendo, nesse campo, um espelho fiel da realidade daqueles anos. Aliás, e como já tive ocasião de dizer em posts anteriores, apenas Sérgio Godinho conseguiu “dar a volta” ao panfletismo reinante, muito por mérito dos trocadilhos linguísticos, sempre tão presentes na sua obra. Nem mesmo o Grande José Afonso conseguiu distanciar-se de todo aquele imediatismo.

E no entanto, musicalmente, “Pois Canté!!” é ainda hoje de uma rara beleza auditiva, o mesmo se podendo dizer das magníficas interpretações que o atravessam do princípio ao fim. Sugiro portanto que se tentem abstrair das palavras, que se façam de estrangeiros sem perceber népia da língua de Camões e conseguirão ouvir “Pois Canté!!” em toda a sua riqueza instrumental e vocal.
Voltando à curta história do GAC, José Mário abandona o grupo ( que mantém a mesma designação) para se dedicar à militância política e ao teatro. Serão editados mais 2 LP's (" Vira Bom", em 77 e "Ronda da Alegria" em 78), na mesma linha do primeiro e antes do grupo se dissolver. Embora por vezes não se dê conta disso (talvez muito por culpa das tais letras panfletárias) esta trilogia do GAC – VOZES NA LUTA contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de uma estética musical baseada na criatividade e na inovação, criando uma espécie de fusão dialética entre a linha musical de José Afonso (marcadamente urbana), as pesquisas de Michel Giacometti (notáveis percursos pelo Portugal musical rural) e o enquadramento clássico de Fernando Lopes-Graça.
Quem porventura se encontrar à espera que estes discos sejam editados em CD, acho melhor tirarem daí o sentido, a não ser que os responsáveis do “Tempo do Vinil” os tenham agendados para um futuro mais ou menos próximo. Até lá deliciem-se com a excelente qualidade sonora deste primeiro album dos GAC - VOZES NA LUTA, digitalmente transcrito a expensas próprias pelo vosso amigo Rato. O segundo, “…E Vira Bom”, em breve também será aqui recordado.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

JOSÉ ALMADA HOJE


No Natal de 1970, eu e o irmão caçula oferecemos à nossa Mãe o EP de José Almada, "Mendigos", e escrevemos na contracapa do disco: «o Zé Almada diz coisas importantes».

Nunca mais ninguém soube de José Almada.

No dia 30 de Novembro de 2007, lancei o alerta: o que é feito de José AlmadaUm filho do cantor-poeta ouviu-me e estabeleceu o contacto.

Hoje, dia 25 de Abril de 2008, 38 anos depois de "Mendigos" e 34 anos depois do 25 de Abril, José Almada, no interior da sua casa no Furadouro, privilegiou-me com uma audição única de "Hóspede" que nenhum microfone alguma vez registou. Mentiria se não dissesse que as lágrimas não rolaram... O dia estava tórrido, o mar agitado com ondas a sério. Na esplanada do "Pé de Vento", eu aguardava a chegada de José Almada. Como seria? A minha memória era a de um puto. A Teresa avisou-me: «acho que vem aí, é ele!»O coração bateu como o caraças e o abraço foi fraterno. A conversa foi para distrair as emoções. Belenenses (o José Almada é fã), Veterinária (a mulher do Zé é veterinária, os meus dois filhos são veterinários, o Pai da Teresa é veterinário, o Tio da Teresa é veterinário...), Souto de Lafões, Douro, tudo era desculpa.


Ninguém quis enfrentar o momento, tudo serviu para assobiar para o lado. Sabíamos que o momento seria inevitável, mas nenhum dos dois o queria pegar pelos cornos. O sol estava abrasador, as saladas óptimas. Caminhávamos perigosamente para o clímax. A Teresa já me sussurrava: «é o Syd Barrett português»Mala hippie a tiracolo, batemos a marginal até à simpática moradia de José Almada, um pouco mais distante das areias cálidas. Fui um privilegiado: José Almada pegou na viola e cantou-me, só para mim e para a Teresa "Hóspede", "Ó Pastor Que Choras", "Os Anjos Cantam", "Eh! Amigo Lagarto", "Ah! Se Um Dia O Pedro Louco", "Ah! Como Odeio"Meu Deus! Que mais poderia eu desejar num 25 de Abril? Obrigado mesmo, José AlmadaAté breve!
(texto de Luís Pinheiro de Almeida)

domingo, 27 de abril de 2008

CARLOS CRUZ APRESENTA...

Em 15 de Outubro (1973) os serviços de promoção da casa Arnaldo Trindade apresentavam aos órgãos de Informação o primeiro trabalho discográfico de Paulo de Carvalho para a editora portuense Orfeu.
Numa reunião muito agradável, toda a gente ressaltava o pequeno «show» conduzido por Carlos Cruz, com um timing e uma leveza a todos os títulos assinaláveis e que ainda hoje o classificam como um dos mais completos realizadores de que a rádio portuguesa pode (e não quer, pelos vistos) dispor.

Aproveitando o pequeno écran do Satélite, Carlos Cruz traçou com graça, verdade e bom gosto uma trajectória da vida musical de Paulo de Carvalho, desde as origens, em Alvalade, até à sensacional transferência da Movieplay-Procope para a Orfeu-Arnaldo Trindade, efectivada neste Verão. Slides, discos, a conversa do Paulo, um spot publicitário dito pelo Fernando Tordo (seu grande amigo e agora também companheiro de editora), as dicas de Carlos Cruz e finalmente, sem que isso fosse esperado, uma breve sequência de canções cantadas pelo Paulo no palco.

Já agora, quanto ao disco – um “simples” 45 r.p.m., “double A-Side”, “Animal farm / I’ll be there with you” – música de Paulo de Carvalho e José Calvário e letras de Kevin Hoidale (refª KSAT 501), cumpre dizer que ficámos à espera de melhor oportunidade para “observarmos” o Paulo de Carvalho.
(in “Cinéfilo” nº 4, 25 de Outubro de 1973)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos
...
a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal
...
a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas tradições
de mau latim
da Eneida
...
enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida
(Mário-Henrique Leiria)

À ESPERA DUM 26 DE ABRIL...

Raul Solnado considerou-o o melhor actor da sua geração. José Niza teve pena que ele fosse um génio porque a genialidade encurta a vida. Mas foi José Saramago quem melhor o soube definir: «Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo de boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

EDUCAÇÃO CÍVICA

Faz-se de tudo
o abano da anca
o olho sorridente
o rebolado
perante o presidente
da república
faz-se o bailado
e a pirueta
para agradar
e arejar o presidente
do conselho
lubricamente
mostra-se o joelho
aos ministros todos
lança-se
simpatia a rodos
aos generais
e aos marechais
também aos furriéis
se for preciso
afinal
o que é preciso
é ter juízo
...
faz-se de tudo
sempre a abanar
a anca
(Mário-Henrique Leiria)

MANIFESTAÇÃO DE APOIO

A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava, imperativa, a grande glória da pátria. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Os gritos indicados. Guinchos.
Várias crianças à procura da mãe ou do pai.
Era o apoio. Incondicional.
Ininterrupto, ao primeiro-ministro.
Ali, na praça enorme e paciente.
O primeiro-ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do Paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou uma das mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala dos Actos.
Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apoplética.
Abriu a janela num gesto amplo e paternal
e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff das bandas desenhadas, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço.
Alguém tirara a varanda. Toda.
(Mário-Henrique Leiria)

sábado, 29 de março de 2008

GALARZA 75

Edição Original em LP Alvorada LP-S-50-87 (1975)
Este magnífico album instrumental homenageia três dos mais importantes nomes da chamada música de intervenção portuguesa: José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco. São doze temas inesquecíveis, sendo apenas dois deles posteriores a Abril de 74. Habituados que estamos a ouvir todas estas canções cantadas (e não apenas tocadas) esquecemo-nos frequentemente das grandes melodias que estavam por detrás das palavras (sabidas de cor e salteado, muitas delas até mesmo à exaustão). Mas estas belas orquestrações de Galarza vêm-nos lembrar, precisamente, a qualidade exemplar das melodias do Zeca, do Sérgio e do Zé Mário. Disfrutem, que a experiência vale a pena; ainda por cima servida por um som fabuloso.

sábado, 12 de janeiro de 2008

EP Alvorada AEP 60.481 (PT, 1962)

MÁRIO SIMÕES, CONJUNTO SEM NOME
E TRIO FEMININO
"5 a 3: Campeões da Europa"
Notas: E depois do 3-2 ao Barcelona em Berna o Benfica bisa no ano seguinte em Amsterdam, a 2 de Maio de 1962, novamente contra um clube espanhol, o Real Madrid, que no estádio Olímpico é derrotado sem apelo nem agravo por uns concludentes 5 a 3 (golos de Eusébio, 2, José Águas, Cavém e Coluna). É a elevação do moçambicano ao palco dos deuses: em Amesterdam, o mundo vê surgir, brilhante, imponente e indomável, aquele que todos se habituariam a conhecer por “pantera negra”.
Nesse histórico e empolgante cenário, o Benfica de Eusébio acabou com o reinado do mítico Real Madrid, onde pontificavam estrelas como Di Stefano, Puskas e Gento. Mal o jogo acabou, Eusébio dirigiu-se a Di Stefano, cumprimentaram-se e trocaram de camisolas. Aquela troca simbolizou, também, a entrega do trono de melhor jogador da Europa. «Enrolei a camisola à volta da mão e enfiei-a nas cuecas, que era o único sítio onde a podia esconder», esclareceu Eusébio no final.

Este foi o 1º feito desportivo que festejei efusivamente na minha vida. Acabara de completar os 9 anos de idade e esta vitória do Benfica teve na altura o sabor de uma prenda retardatária. Acho que foi nesse dia que a dita "mística" colheu uma geração mais na minha família. E mal acabado o relato radiofónico (não havia televisão em Moçambique) foi a correria para as ruas da cidade, onde os festejos se prolongaram horas a fio. Que me lembre foi a primeira vez que tive autorização para me deitar às tantas da matina.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

SINGLE Movieplay SP 20.020 (PT, 1972)


PAULO DE CARVALHO
"Perdido Por Cem"

Notas: Tema do filme de estreia de António Pedro de Vasconcelos, com letra do próprio realizador, que explica na contracapa a razão do mesmo ser cantado pelo Paulo de Carvalho. No filme a canção aparece designada como "Menina e Moça", o que aqui não acontece. No lado B encontra-se "Chuvas de Verão", de Fernando Lobo, que Caetano Veloso imortalizou: «Podemos ser amigos simplesmente / Coisas do amor nunca mais / Amores do passado no presente / Repetem velhos temas tão banais...»
Vi o filme apenas na sua estreia, em Lourenço Marques, no dia 1 de Agosto de 1973 (no cinema Estúdio 222) e é uma boa memória a que dele guardo, apesar de já terem passado 34 anos e de nunca mais o ter revisto. Aliás, é um dos filmes do cinema português cuja saída em DVD mais aguardo, precisamente devido a essa grata lembrança. E existe também uma coincidência que fez com que não me esquecesse nunca deste filme: é que eu tinha 20 anos quando o vi; e as primeiras palavras que nele se ouvem são: “Eu tinha acabado de fazer vinte anos e não deixarei que ninguém diga que é a mais bela idade da nossa vida”. Com José Cunha e Marta Leitão nos principais papeis, o filme conta ainda com as participações de Nuno Martins, Ana Maria Lucas e Rosa Lobato Faria, entre outros.

No Dicionário de Cinema Português pode ler-se o seguinte apontamento de Jorge Leitão Ramos: «Perdido por Cem... é a fusão de um imaginário cinéfilo (de Nick Ray a Godard) com um certo desencanto português. Narrado na primeira pessoa, confessional e nervoso, inquieto, dolente, triste até ao desespero sufocante e ao fecho em morte, este filme, nem sempre muito hábil agarra o espectador através dessa funda verdade que lhe nasce dos poros. Mesmo quando o que sobretudo passa a súbita irrupção de um imaginário estrangeiro (é o caso da sequência final, fatalista como um filme negro, fatal como uma guerra colonial que nos instalava a violência ao pé da porta).
Fernando Lopes disse "que o filme do António é o imenso adeus aos nossos verdes anos " e, nesse trocadilho feliz, resumia o que de mais denso "Perdido por Cem..." possui: as ilusões perdidas de um quotidiano, banhadas luz das mais intensas memórias cinéfilas.»
Ver ainda a crítica de Luís Pina aqui.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

OS PORFIRIOS

A partir de 1965 Lisboa, e também o Porto, passam a ter os Porfirios, loja especializada em vestuário jovem, copiado directamente de Carnaby St e outros centros de moda mais em voga na segunda metade dos anos 60. Isso porque os donos se limitavam a importar ideias e não as roupas propriamente ditas, as quais eram 97 por cento de fabrico nacional.
A loja de Lisboa, localizada no nº 63 da Rua da Vitória, tinha duas entradas, passagens muito estreitas, escadas em caracol, luzes psicadélicas (embora o ambiente geral fosse um tanto ou quanto pró escuro), música anglo-americana em som muito alto, e...claro, roupa muito louca para aquilo a que a juventude portuguesa estava habituada: jeans de vários tecidos e feitios (com os anos 70 chegaram as “bocas de sino”), camisas muito coloridas e às flores, blusões estampados, as inevitáveis mini-saias, os anéis, os lenços, os cintos (os meus preferidos eram os que tinham o logo da casa, dois círculos concêntricos), os colares e variadissimos artefactos, desde carteiras, isqueiros, posters, enfim..., um pouco de toda a parafernália que se vendia lá por fora.
Os Porfírios marcaram efectivamente toda uma nova geração (ou pelo menos uma parte importante dela, visto nem todos terem aderido àquelas extravagâncias na altura), assumindo um papel de relevo na criação da moda jovem até aí inexistente, como recorda o estilista Manuel Alves: «a única ligação com o mundo, num Portugal pautado por uma mentalidade um bocado tacanha e provinciana, a loja remava contra a maré e o obscurantismo do país».
Hoje apenas a loja do Porto se encontra ainda em funcionamento, a de Lisboa fechou em Setembro de 2001.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Há muito, muito tempo, eras tu uma criança...

Tudo começa sempre ao som dos “Vinte Anos” dos Greenwindows e segue por ali fora, num ressurgimento de situações mais ou menos conhecidas, mais ou menos já vividas pela geração que hoje tem mais de 50 anos. Pela parte que me toca todos os domingos à noite tenho bilhete pré-comprado num compartimento da máquina do tempo que a RTP1 colocou à nossa disposição.
Falo, como decerto já adivinharam, da série “Conta-me Como Foi” que em boa hora a televisão pública foi adaptar da equivalente espanhola, “Cuentame Como Pasó”. Retratando o dia-a-dia de uma família lisboeta dos finais da década de sessenta (a acção inicia-se em Março de 68 com a chegada de um moderno televisor a casa da família Lopes, já equipado com UHF para poder apanhar o futuro programa 2) a série acompanha as peripécias dessa famíla típica da média-baixa burguesia, recordadas em voz-off pelo Carlos, que na altura em que a acção decorre era o benjamim do clã com 8 anos. Fica assim definido o canal de retorno ao passado: é através da família Lopes que se assiste ao desfile de acontecimentos marcantes na vida política, social, cultural e desportiva em Portugal e no mundo daquela época, enquadrados com a trama de cada episódio.

“Conta-me como foi” retrata, acima de tudo, o modo de viver e pensar de uma sociedade ainda muito fechada sobre si, com todos os tabus característicos da época e a gradual embora desconfiada abertura a novas mentalidades. Tudo feito sem espírito saudosista, sem abordagens moralistas ou juízos de valor.
A moda, bem documentada no vestuário e nos cortes de cabelo (a Isabel, filha mais velha do casal, trabalha num cabeleireiro), as músicas da época que se escutavam livremente na rádio ou aquelas outras que apenas se ouviam, quantas vezes a medo, em pequenos gira-discos, os programas televisivos com todas aquelas caras bem conhecidas, entre apresentadores e vedetas, as publicações periódicas (o Camões tem um quiosque na rua sempre atulhado com as últimas novidades), produtos diversos sempre muito bem publicitados, tudo tem a sua participação muito especial num tempo em que o computador ou o telemóvel não passavam de meras alucinações futuristas.

Na origem do grande sucesso da série está um exaustivo trabalho de reconstrução que ficou a cargo da jornalista e historiadora Helena Matos. «É um trabalho de minúcia, que chega até ao pormenor das moedas usadas na época. Não é um trabalho perfeito, porque senão desistia logo. O desafio está na máxima proximidade à realidade da altura», referiu ela numa entrevista ao DN, Um projecto que implicou uma detalhada pesquisa, iniciada um ano antes do começo das filmagens «e que ainda continua, uma vez que tenho que acompanhar a evolução da série e dos anos», acrescenta a historiadora.
Nesse processo de reconstrução Helena Matos não confiou na memória dos que viveram naquela altura. «Podia ser muito traiçoeiro, pelo que investi em documentos da época», Para isso, recorreu a várias revistas e jornais, bem como boletins municipais (nomeadamente para saber os preços a afixar em diversos artigos expostos).

A indumentária das personagens está de igual modo preparada ao pormenor: «Recorremos às roupas antigas que os nossos pais e avós guardaram», diz Rita Brütt, que interpreta na série a filha Isabel. Os restantes fatos foram feitos pelas costureiras Catarina Santos e Lurdes Gonçalves ou comprados em lojas retro, como a Outra Face da Lua (Bairro Alto).
O mobiliário da casa dos Lopes foi encontrado em «empresas que recebem móveis antigos que as pessoas já não querem e que nós aproveitamos ou reciclamos», explicou Marta Gil, chefe de produção de estúdio.Os exteriores foram outra dificuldade, em especial a praia e a piscina, que, naturalmente, mudaram desde 68: «Tivemos que contornar os planos das câmaras de filmar e fazê-los muito fechados», acrescenta.

No final de cada episódio, e ainda sob o efeito emocional que cada um deles sempre me provoca, nunca sei o que mais admirar: se a reconstituição cenográfica e decorativa (sempre atenta aos mais ínfimos pormenores), se o argumento (muito bem enquadrado com as realidades da época), ou se o notável desempenho dos actores (todos eles muito bem dirigidos e completamente identificados com as diversas personagens), não sómente dos principais (e Miguel Guilherme e Rita Blanco arriscam-se a ter aqui os papeis da vida deles) como de todo o restante elenco.
Realizada por Fernando Ávila e Pedro Miguel, e adaptada pelo grupo Cartas de Amor, a série da RTP conta com uma equipa de 80 profissionais e tem prevista a apresentação de um primeiro naipe de 26 episódios (espero que não fique por aí, até porque em Espanha a série se mantém no ar há sete anos consecutivos, sempre com o mesmo grande sucesso), dezasseis dos quais já foram para o ar (a estreia ocorreu no dia 22 de Abril deste ano, estando o último episódio previsto para 20 de Janeiro de 2008).

O formato de "Cuéntame cómo pasó" foi adaptado noutros países, como a Itália e o México, para além de Portugal, devido às semelhanças históricas das décadas de 60 e 70. De tal forma que os criadores da série original querem juntar elencos dos vários países para um episódio especial. Essa ideia era uma forma de, «junto do público, fazermos perceber que "Cuéntame cómo pasó" fala de um tema universal e mostrar que existiam realidades semelhantes à nossa, partilhadas por pessoas que estavam em partes distintas do globo.»
Deixo aqui um alerta e um voto para que brevemente possamos aceder em DVD a todos os episódios desta série magnífica e sem paralelo na história televisiva portuguesa. Desse modo teremos então a possibilidade de os arquivar junto a enciclopédias e outros livros de consulta, para que se um dia mais tarde nos pedirem “Conta-me como foi…” podermos rapidamente dar a resposta.

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