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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"Não sabíamos mais, tínhamos quinze anos..."

Edição Original em LP London Globe SLLGB 1000
(Portugal, 1969)


Um album raríssimo e muito difícil de encontrar, editado exclusivamente em Portugal durante o ano de 1969. A editora foi a Valentim de Carvalho, pelo que se receia o desaparecimento das bobines originais de gravação. Esta transcrição para formato digital foi feita particularmente, e a expensas próprias, mas só foi possível graças ao meu amigo Daniel Bacelar que gentilmente me disponibilizou o vinil original, como sempre em estado impecável. Por isso mesmo convém aqui lembrar que o disco não se encontra à venda em qualquer formato; é que tenho recebido várias solicitações para esse efeito, inclusivé do biógrafo do próprio Serrat que há muitos anos anda à procura de uma cópia do album original. «Tanto cambiaron que aquel mismo año, el hombre pisó la Luna al parecer por primera vez, las gentes del D.F. se aventuraron a desplazarse de Tacubaya a Chapultepec en metro y un servidor grababa este, su primer LP en castellano que con todo respeto quiero dedicar desde estas líneas a mi amigo, hoy desaparecido, Plinio Chiesa, ingeniero de sonido de esta grabación.» São doze canções (mais duas do que a versão original espanhola, disco também já disponibilizado) com letras e músicas do próprio Serrat, e versões portuguesas de Alexandre O'Neil (que assina 8 temas), António José (très) e Magalhães Pereira. É precisamente com a versão deste último, "Meu Amor Adeus" (a minha preferida de todas) que vos deixo:

Quero esquecer essa casa vermelha
e a janela em flor
a escada tosca e a imagem velha
recordações dum breve amor.

A cama negra e tão esburacada
d’alvos lençóis iguais
e a chegada duma madrugada
que juntos não veremos mais.

Não quero que teus olhos chorem
e procurem os meus
o caminho é tão longo
meu amor adeus!

Adeus, adeus, partirei à calada
que frio paira no ar...
mas vou cantar, gritar uma toada
assim o frio irá passar.

Não vou esperar e não quero ouvir nada
nem o ladrido do teu cão
nem o adeus dessa gente que é nada
inútil recordação.

Não quero que teus olhos chorem
e procurem os meus
o caminho é tão longo
meu amor adeus!

Pus a guitarra ao ombro e agora
vou p’ra longe daqui
quando na noite bater uma hora
não estarei já ao pé de ti.

Os anos hão-de apagar as pisadas
que deixo em teu redor
eu vou a pé, o caminho é tão longo
direi adeus a cada flor.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

De Loucura Em Loucura

Edição Original em LP Alvorada LP-S-98.3 
(Portugal, 1973)


Confesso-me surpreendido pela aceitação que o Fado tem tido por estas bandas (sobretudo por parte de estrangeiros). Este LP, em particular, tem-me sido muito solicitado, desde que o original post foi colocado em Dezembro de 2007. Por isso, acho que está na altura de satisfazer todos esses pedidos. Trata-se de um dos melhores trabalhos de Fernanda Maria, uma das duas fadistas mais queridas aqui do Rato (a outra é a Tereza Tarouca, da qual e infelizmente não possuo qualquer album de originais), gravado no auge da sua carreira, a viver então uns esplenderosos 36 anos e ainda um dos principais atractivos do Bairro Alto, na casa típica “Lisboa à Noite”, onde actuava também o saudoso Manuel de Almeida. Com acompanhamento de Jaime Santos à guitarra, Martinho de Assunção à viola e Raúl Silva no baixo, esta dúzia de pérolas liberta um som magnífico, forte e profundo, no seu estéreo bem equilibrado e preciso. Um som bem característico dos discos em vinil que infelizmente é hoje em dia muito difícil de ser imitado. O que evidentemente tem também o condão de realçar a belissima voz da fadista, uma voz que aperta o coração e traz a tristeza que faz entrar em fermentação o amor.




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na Hora da Morte de JOSÉ NIZA (16/9/1938 - 23/9/2011)

Edição Original em LP Orfeu STAT 013 (1972)





tempo de poesia
***
todo o tempo é de poesia
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia
desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
entre bombas que deflagram
corolas que se desdobram
corpos que em sangue soçobram
vidas que a amar se consagram
sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança
sob o arco da aliança
da celeste alegoria
todo o tempo é de poesia
desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia
(RE-UPLOAD)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

JOSÉ ALMADA HOJE


No Natal de 1970, eu e o irmão caçula oferecemos à nossa Mãe o EP de José Almada, "Mendigos", e escrevemos na contracapa do disco: «o Zé Almada diz coisas importantes».

Nunca mais ninguém soube de José Almada.

No dia 30 de Novembro de 2007, lancei o alerta: o que é feito de José AlmadaUm filho do cantor-poeta ouviu-me e estabeleceu o contacto.

Hoje, dia 25 de Abril de 2008, 38 anos depois de "Mendigos" e 34 anos depois do 25 de Abril, José Almada, no interior da sua casa no Furadouro, privilegiou-me com uma audição única de "Hóspede" que nenhum microfone alguma vez registou. Mentiria se não dissesse que as lágrimas não rolaram... O dia estava tórrido, o mar agitado com ondas a sério. Na esplanada do "Pé de Vento", eu aguardava a chegada de José Almada. Como seria? A minha memória era a de um puto. A Teresa avisou-me: «acho que vem aí, é ele!»O coração bateu como o caraças e o abraço foi fraterno. A conversa foi para distrair as emoções. Belenenses (o José Almada é fã), Veterinária (a mulher do Zé é veterinária, os meus dois filhos são veterinários, o Pai da Teresa é veterinário, o Tio da Teresa é veterinário...), Souto de Lafões, Douro, tudo era desculpa.


Ninguém quis enfrentar o momento, tudo serviu para assobiar para o lado. Sabíamos que o momento seria inevitável, mas nenhum dos dois o queria pegar pelos cornos. O sol estava abrasador, as saladas óptimas. Caminhávamos perigosamente para o clímax. A Teresa já me sussurrava: «é o Syd Barrett português»Mala hippie a tiracolo, batemos a marginal até à simpática moradia de José Almada, um pouco mais distante das areias cálidas. Fui um privilegiado: José Almada pegou na viola e cantou-me, só para mim e para a Teresa "Hóspede", "Ó Pastor Que Choras", "Os Anjos Cantam", "Eh! Amigo Lagarto", "Ah! Se Um Dia O Pedro Louco", "Ah! Como Odeio"Meu Deus! Que mais poderia eu desejar num 25 de Abril? Obrigado mesmo, José AlmadaAté breve!
(texto de Luís Pinheiro de Almeida)

domingo, 27 de abril de 2008

CARLOS CRUZ APRESENTA...

Em 15 de Outubro (1973) os serviços de promoção da casa Arnaldo Trindade apresentavam aos órgãos de Informação o primeiro trabalho discográfico de Paulo de Carvalho para a editora portuense Orfeu.
Numa reunião muito agradável, toda a gente ressaltava o pequeno «show» conduzido por Carlos Cruz, com um timing e uma leveza a todos os títulos assinaláveis e que ainda hoje o classificam como um dos mais completos realizadores de que a rádio portuguesa pode (e não quer, pelos vistos) dispor.

Aproveitando o pequeno écran do Satélite, Carlos Cruz traçou com graça, verdade e bom gosto uma trajectória da vida musical de Paulo de Carvalho, desde as origens, em Alvalade, até à sensacional transferência da Movieplay-Procope para a Orfeu-Arnaldo Trindade, efectivada neste Verão. Slides, discos, a conversa do Paulo, um spot publicitário dito pelo Fernando Tordo (seu grande amigo e agora também companheiro de editora), as dicas de Carlos Cruz e finalmente, sem que isso fosse esperado, uma breve sequência de canções cantadas pelo Paulo no palco.

Já agora, quanto ao disco – um “simples” 45 r.p.m., “double A-Side”, “Animal farm / I’ll be there with you” – música de Paulo de Carvalho e José Calvário e letras de Kevin Hoidale (refª KSAT 501), cumpre dizer que ficámos à espera de melhor oportunidade para “observarmos” o Paulo de Carvalho.
(in “Cinéfilo” nº 4, 25 de Outubro de 1973)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos
...
a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal
...
a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas tradições
de mau latim
da Eneida
...
enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida
(Mário-Henrique Leiria)

À ESPERA DUM 26 DE ABRIL...

Raul Solnado considerou-o o melhor actor da sua geração. José Niza teve pena que ele fosse um génio porque a genialidade encurta a vida. Mas foi José Saramago quem melhor o soube definir: «Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo de boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

EDUCAÇÃO CÍVICA

Faz-se de tudo
o abano da anca
o olho sorridente
o rebolado
perante o presidente
da república
faz-se o bailado
e a pirueta
para agradar
e arejar o presidente
do conselho
lubricamente
mostra-se o joelho
aos ministros todos
lança-se
simpatia a rodos
aos generais
e aos marechais
também aos furriéis
se for preciso
afinal
o que é preciso
é ter juízo
...
faz-se de tudo
sempre a abanar
a anca
(Mário-Henrique Leiria)

MANIFESTAÇÃO DE APOIO

A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava, imperativa, a grande glória da pátria. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Os gritos indicados. Guinchos.
Várias crianças à procura da mãe ou do pai.
Era o apoio. Incondicional.
Ininterrupto, ao primeiro-ministro.
Ali, na praça enorme e paciente.
O primeiro-ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do Paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou uma das mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala dos Actos.
Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apoplética.
Abriu a janela num gesto amplo e paternal
e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff das bandas desenhadas, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço.
Alguém tirara a varanda. Toda.
(Mário-Henrique Leiria)

sábado, 29 de março de 2008

GALARZA 75

Edição Original em LP Alvorada LP-S-50-87 (1975)
Este magnífico album instrumental homenageia três dos mais importantes nomes da chamada música de intervenção portuguesa: José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco. São doze temas inesquecíveis, sendo apenas dois deles posteriores a Abril de 74. Habituados que estamos a ouvir todas estas canções cantadas (e não apenas tocadas) esquecemo-nos frequentemente das grandes melodias que estavam por detrás das palavras (sabidas de cor e salteado, muitas delas até mesmo à exaustão). Mas estas belas orquestrações de Galarza vêm-nos lembrar, precisamente, a qualidade exemplar das melodias do Zeca, do Sérgio e do Zé Mário. Disfrutem, que a experiência vale a pena; ainda por cima servida por um som fabuloso.

sábado, 12 de janeiro de 2008

EP Alvorada AEP 60.481 (PT, 1962)

MÁRIO SIMÕES, CONJUNTO SEM NOME
E TRIO FEMININO
"5 a 3: Campeões da Europa"
Notas: E depois do 3-2 ao Barcelona em Berna o Benfica bisa no ano seguinte em Amsterdam, a 2 de Maio de 1962, novamente contra um clube espanhol, o Real Madrid, que no estádio Olímpico é derrotado sem apelo nem agravo por uns concludentes 5 a 3 (golos de Eusébio, 2, José Águas, Cavém e Coluna). É a elevação do moçambicano ao palco dos deuses: em Amesterdam, o mundo vê surgir, brilhante, imponente e indomável, aquele que todos se habituariam a conhecer por “pantera negra”.
Nesse histórico e empolgante cenário, o Benfica de Eusébio acabou com o reinado do mítico Real Madrid, onde pontificavam estrelas como Di Stefano, Puskas e Gento. Mal o jogo acabou, Eusébio dirigiu-se a Di Stefano, cumprimentaram-se e trocaram de camisolas. Aquela troca simbolizou, também, a entrega do trono de melhor jogador da Europa. «Enrolei a camisola à volta da mão e enfiei-a nas cuecas, que era o único sítio onde a podia esconder», esclareceu Eusébio no final.

Este foi o 1º feito desportivo que festejei efusivamente na minha vida. Acabara de completar os 9 anos de idade e esta vitória do Benfica teve na altura o sabor de uma prenda retardatária. Acho que foi nesse dia que a dita "mística" colheu uma geração mais na minha família. E mal acabado o relato radiofónico (não havia televisão em Moçambique) foi a correria para as ruas da cidade, onde os festejos se prolongaram horas a fio. Que me lembre foi a primeira vez que tive autorização para me deitar às tantas da matina.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

SINGLE Movieplay SP 20.020 (PT, 1972)


PAULO DE CARVALHO
"Perdido Por Cem"

Notas: Tema do filme de estreia de António Pedro de Vasconcelos, com letra do próprio realizador, que explica na contracapa a razão do mesmo ser cantado pelo Paulo de Carvalho. No filme a canção aparece designada como "Menina e Moça", o que aqui não acontece. No lado B encontra-se "Chuvas de Verão", de Fernando Lobo, que Caetano Veloso imortalizou: «Podemos ser amigos simplesmente / Coisas do amor nunca mais / Amores do passado no presente / Repetem velhos temas tão banais...»
Vi o filme apenas na sua estreia, em Lourenço Marques, no dia 1 de Agosto de 1973 (no cinema Estúdio 222) e é uma boa memória a que dele guardo, apesar de já terem passado 34 anos e de nunca mais o ter revisto. Aliás, é um dos filmes do cinema português cuja saída em DVD mais aguardo, precisamente devido a essa grata lembrança. E existe também uma coincidência que fez com que não me esquecesse nunca deste filme: é que eu tinha 20 anos quando o vi; e as primeiras palavras que nele se ouvem são: “Eu tinha acabado de fazer vinte anos e não deixarei que ninguém diga que é a mais bela idade da nossa vida”. Com José Cunha e Marta Leitão nos principais papeis, o filme conta ainda com as participações de Nuno Martins, Ana Maria Lucas e Rosa Lobato Faria, entre outros.

No Dicionário de Cinema Português pode ler-se o seguinte apontamento de Jorge Leitão Ramos: «Perdido por Cem... é a fusão de um imaginário cinéfilo (de Nick Ray a Godard) com um certo desencanto português. Narrado na primeira pessoa, confessional e nervoso, inquieto, dolente, triste até ao desespero sufocante e ao fecho em morte, este filme, nem sempre muito hábil agarra o espectador através dessa funda verdade que lhe nasce dos poros. Mesmo quando o que sobretudo passa a súbita irrupção de um imaginário estrangeiro (é o caso da sequência final, fatalista como um filme negro, fatal como uma guerra colonial que nos instalava a violência ao pé da porta).
Fernando Lopes disse "que o filme do António é o imenso adeus aos nossos verdes anos " e, nesse trocadilho feliz, resumia o que de mais denso "Perdido por Cem..." possui: as ilusões perdidas de um quotidiano, banhadas luz das mais intensas memórias cinéfilas.»
Ver ainda a crítica de Luís Pina aqui.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

OS PORFIRIOS

A partir de 1965 Lisboa, e também o Porto, passam a ter os Porfirios, loja especializada em vestuário jovem, copiado directamente de Carnaby St e outros centros de moda mais em voga na segunda metade dos anos 60. Isso porque os donos se limitavam a importar ideias e não as roupas propriamente ditas, as quais eram 97 por cento de fabrico nacional.
A loja de Lisboa, localizada no nº 63 da Rua da Vitória, tinha duas entradas, passagens muito estreitas, escadas em caracol, luzes psicadélicas (embora o ambiente geral fosse um tanto ou quanto pró escuro), música anglo-americana em som muito alto, e...claro, roupa muito louca para aquilo a que a juventude portuguesa estava habituada: jeans de vários tecidos e feitios (com os anos 70 chegaram as “bocas de sino”), camisas muito coloridas e às flores, blusões estampados, as inevitáveis mini-saias, os anéis, os lenços, os cintos (os meus preferidos eram os que tinham o logo da casa, dois círculos concêntricos), os colares e variadissimos artefactos, desde carteiras, isqueiros, posters, enfim..., um pouco de toda a parafernália que se vendia lá por fora.
Os Porfírios marcaram efectivamente toda uma nova geração (ou pelo menos uma parte importante dela, visto nem todos terem aderido àquelas extravagâncias na altura), assumindo um papel de relevo na criação da moda jovem até aí inexistente, como recorda o estilista Manuel Alves: «a única ligação com o mundo, num Portugal pautado por uma mentalidade um bocado tacanha e provinciana, a loja remava contra a maré e o obscurantismo do país».
Hoje apenas a loja do Porto se encontra ainda em funcionamento, a de Lisboa fechou em Setembro de 2001.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Há muito, muito tempo, eras tu uma criança...

Tudo começa sempre ao som dos “Vinte Anos” dos Greenwindows e segue por ali fora, num ressurgimento de situações mais ou menos conhecidas, mais ou menos já vividas pela geração que hoje tem mais de 50 anos. Pela parte que me toca todos os domingos à noite tenho bilhete pré-comprado num compartimento da máquina do tempo que a RTP1 colocou à nossa disposição.
Falo, como decerto já adivinharam, da série “Conta-me Como Foi” que em boa hora a televisão pública foi adaptar da equivalente espanhola, “Cuentame Como Pasó”. Retratando o dia-a-dia de uma família lisboeta dos finais da década de sessenta (a acção inicia-se em Março de 68 com a chegada de um moderno televisor a casa da família Lopes, já equipado com UHF para poder apanhar o futuro programa 2) a série acompanha as peripécias dessa famíla típica da média-baixa burguesia, recordadas em voz-off pelo Carlos, que na altura em que a acção decorre era o benjamim do clã com 8 anos. Fica assim definido o canal de retorno ao passado: é através da família Lopes que se assiste ao desfile de acontecimentos marcantes na vida política, social, cultural e desportiva em Portugal e no mundo daquela época, enquadrados com a trama de cada episódio.

“Conta-me como foi” retrata, acima de tudo, o modo de viver e pensar de uma sociedade ainda muito fechada sobre si, com todos os tabus característicos da época e a gradual embora desconfiada abertura a novas mentalidades. Tudo feito sem espírito saudosista, sem abordagens moralistas ou juízos de valor.
A moda, bem documentada no vestuário e nos cortes de cabelo (a Isabel, filha mais velha do casal, trabalha num cabeleireiro), as músicas da época que se escutavam livremente na rádio ou aquelas outras que apenas se ouviam, quantas vezes a medo, em pequenos gira-discos, os programas televisivos com todas aquelas caras bem conhecidas, entre apresentadores e vedetas, as publicações periódicas (o Camões tem um quiosque na rua sempre atulhado com as últimas novidades), produtos diversos sempre muito bem publicitados, tudo tem a sua participação muito especial num tempo em que o computador ou o telemóvel não passavam de meras alucinações futuristas.

Na origem do grande sucesso da série está um exaustivo trabalho de reconstrução que ficou a cargo da jornalista e historiadora Helena Matos. «É um trabalho de minúcia, que chega até ao pormenor das moedas usadas na época. Não é um trabalho perfeito, porque senão desistia logo. O desafio está na máxima proximidade à realidade da altura», referiu ela numa entrevista ao DN, Um projecto que implicou uma detalhada pesquisa, iniciada um ano antes do começo das filmagens «e que ainda continua, uma vez que tenho que acompanhar a evolução da série e dos anos», acrescenta a historiadora.
Nesse processo de reconstrução Helena Matos não confiou na memória dos que viveram naquela altura. «Podia ser muito traiçoeiro, pelo que investi em documentos da época», Para isso, recorreu a várias revistas e jornais, bem como boletins municipais (nomeadamente para saber os preços a afixar em diversos artigos expostos).

A indumentária das personagens está de igual modo preparada ao pormenor: «Recorremos às roupas antigas que os nossos pais e avós guardaram», diz Rita Brütt, que interpreta na série a filha Isabel. Os restantes fatos foram feitos pelas costureiras Catarina Santos e Lurdes Gonçalves ou comprados em lojas retro, como a Outra Face da Lua (Bairro Alto).
O mobiliário da casa dos Lopes foi encontrado em «empresas que recebem móveis antigos que as pessoas já não querem e que nós aproveitamos ou reciclamos», explicou Marta Gil, chefe de produção de estúdio.Os exteriores foram outra dificuldade, em especial a praia e a piscina, que, naturalmente, mudaram desde 68: «Tivemos que contornar os planos das câmaras de filmar e fazê-los muito fechados», acrescenta.

No final de cada episódio, e ainda sob o efeito emocional que cada um deles sempre me provoca, nunca sei o que mais admirar: se a reconstituição cenográfica e decorativa (sempre atenta aos mais ínfimos pormenores), se o argumento (muito bem enquadrado com as realidades da época), ou se o notável desempenho dos actores (todos eles muito bem dirigidos e completamente identificados com as diversas personagens), não sómente dos principais (e Miguel Guilherme e Rita Blanco arriscam-se a ter aqui os papeis da vida deles) como de todo o restante elenco.
Realizada por Fernando Ávila e Pedro Miguel, e adaptada pelo grupo Cartas de Amor, a série da RTP conta com uma equipa de 80 profissionais e tem prevista a apresentação de um primeiro naipe de 26 episódios (espero que não fique por aí, até porque em Espanha a série se mantém no ar há sete anos consecutivos, sempre com o mesmo grande sucesso), dezasseis dos quais já foram para o ar (a estreia ocorreu no dia 22 de Abril deste ano, estando o último episódio previsto para 20 de Janeiro de 2008).

O formato de "Cuéntame cómo pasó" foi adaptado noutros países, como a Itália e o México, para além de Portugal, devido às semelhanças históricas das décadas de 60 e 70. De tal forma que os criadores da série original querem juntar elencos dos vários países para um episódio especial. Essa ideia era uma forma de, «junto do público, fazermos perceber que "Cuéntame cómo pasó" fala de um tema universal e mostrar que existiam realidades semelhantes à nossa, partilhadas por pessoas que estavam em partes distintas do globo.»
Deixo aqui um alerta e um voto para que brevemente possamos aceder em DVD a todos os episódios desta série magnífica e sem paralelo na história televisiva portuguesa. Desse modo teremos então a possibilidade de os arquivar junto a enciclopédias e outros livros de consulta, para que se um dia mais tarde nos pedirem “Conta-me como foi…” podermos rapidamente dar a resposta.

EP Columbia SLEM 2084 (PT, 1961)

OS CONCHAS
"Greenfields"
Notas: Terceiro EP do duo formado por José Manuel Concha e Fernando Gaspar (falecido a 10 de Fevereiro de 1998), os "Everly Brothers" portugueses dos inícios da década de sessenta (1960-1962), período durante o qual editaram 7 discos, todos neste formato, sendo o primeiro de parceria com Daniel Bacelar (mostrado no início desta exposição). Saíria ainda um último disco em 1964 mas sob o nome de José Manuel Concha e Os Conchas.

domingo, 11 de novembro de 2007

EP Alvorada 60-1008 (PT, 1968)

ANTÓNIO CALVÁRIO
"O Nosso Mundo"
Notas: Este é dedicado ao João Carlos Calixto, por conter a "Balada Para D. Inês" do Cid. Ainda nem sequer ouvi esta versão, pelo que não posso opinar.
Mais um conterrâneo aqui do Rato (nasceu em Lourenço Marques a 17 de Outubro de 1938), António Calvário foi o Rei incontestado da música ligeira portuguesa nos meados da década de 60, tendo sido eleito pelos fãs em 1962, 64, 65, 66 e ainda em 1972. As raparigas desse tempo como que transferiram para solo lusitano o que se passava lá fora com os Beatles, tornando-se o nosso António no alvo preferido das histerias da moda (chegou a ter camisas e casacos rasgados em muitas actuações). No auge da popularidade Calvário chega a cobrar 20 contos por actuação, uma fortuna para a época. Com o primeiro tema deste EP (“O Nosso Mundo”) concorre em 1968 ao “Grande Prémio da Canção”, depois de quatro anos antes ter vencido o primeiro Festival com “Oração”. Em representação de Portugal na Eurovisão, que esse ano teve lugar na Dinamarca, a canção não consegue qualquer voto mas a sua actuação consegue ter as atenções de um grupo de manifestantes que invade o palco com cartazes onde se podia ler “Abaixo Franco e Salazar”.
Tendo participado também em diversos filmes (os mais populares foram ao lado da também idolatrada Madalena Iglésias), resolve em 1969 custear do seu próprio bolso a produção do filme “O Diabo Era o Outro”, orçamentado inicialmente em 900 contos. Mas o “diabo” não era nada “o outro” e esteve mesmo presente na rodagem do filme, a qual acabou por elevar aquele valor a 3200 contos. Endividado em 2000 contos António Calvário pagou tudo, até ao último tostão, actuando em todo o lado onde pudesse ganhar dinheiro, tendo inclusivamente cantado em circos como atracção. «Meteram-me numa alhada, mas não se ficaram a rir de mim», afirmaria mais tarde numa entrevista a A Capital, em 1984.
(notas retiradas da “Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa”, de Luís e João Pinheiro de Almeida)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

EP Parlophone LMEP 1231 (PT, 1966)

MAFALDA SOFIA
"Teach Me Tiger"
Notas 1: Segundo o referido pelo João Carlos Calixto (obrigado “Bissaide”!) no blog do Luís Tita, esta formosa intérprete nacional é natural de Olhão, Algarve, onde nasceu em 1943. Conhecem-se-lhe meia dúzia de Eps (este é o primeiro), gravados entre os anos de 1966 e 1971. O tema "Oh!", de 1967, foi até à presente data o único editado em CD, na coletânea "Portugal DeLuxe, Vol. 1: Um Cocktail Estereofónico". Também pode ser encontrado no 2º Volume dos "Caloiros da Canção", aqui na Rato Records.
Notas 2: O Luís Tita colocou no seu excelente blog uma belissima capa da revista Rádio e Televisão (Agosto 67), com a sexy Mafalda na capa. Ah, e teve a amabilidade de nos revelar o conteúdo do artigo. Aqui fica:
«A revista diz que tinha 24 anos em 67, logo terá hoje 64 anos. Na altura era casada, mas não tinha filhos. Cantou profissionalmente desde 1965. Casou por procuração aos 18 (marido em África), nasceu em Olhão. Esteve em Lourenço Marques durante 3 anos. Adora a praia e detesta o campo. Aprecia Cary Grant, Frank Sinatra, Shirley Maclaine, Sofia Loren. Gravou dois discos para a VC e - na altura - ia para a Belter. Diz que não consegue fazer carreira em Portugal, porque cultiva o género "sexy". "Sexy"? "Sim, passo as mãos pelo cabelo... e canto. Assim...". "Gosto de algumas interpretações dos Beatles, as menos barulhentas". O maior sonho dela era ter um prédio de rendimento.»

terça-feira, 6 de novembro de 2007

EP Decca PEP 1193 (UK, 1967)

EDUARDO NASCIMENTO
"O Vento Mudou"
Notas: Eduardo Nascimento nasceu em Angola em 1944 e foi líder do conjunto Os Rocks que participou num dos concursos de ié-ié realizados no Teatro Monumental. Seguiu-se a profissionalização, com grande sucesso, tendo sido a atração principal de várias casas nocturnas de Lisboa e também o Casino do Estoril, para onde foram após a inauguração das novas instalações-
Em 1967, Eduardo Nascimento venceu o Festival RTP da Canção com "O vento Mudou". A canção foi representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, realizado em Viena ficando em 12º lugar entre 17 países, ex-aequo com a Finlândia. A vencedora foi Sandie Shaw com o tema "Puppet on a String".
Foi o primeiro negro a pisar os palcos da Eurovisão. Dizia-se que foi Salazar quem quis que Eduardo Nascimento representasse Portugal na Eurovisão para provar que não era racista.
Os Rocks gravaram um single com os temas "Wish I May" e "The Pied Piper" e o EP "Don´t Blame Me".
O cantor continuou a actuar com Os Rocks até 1969, altura em que voltou para Angola e abandonou a carreira musical.
(obrigado ao Luís Tita pela disponibilidade das imagens)
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