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sexta-feira, 25 de abril de 2008

A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos
...
a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal
...
a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas tradições
de mau latim
da Eneida
...
enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida
(Mário-Henrique Leiria)

À ESPERA DUM 26 DE ABRIL...

Raul Solnado considerou-o o melhor actor da sua geração. José Niza teve pena que ele fosse um génio porque a genialidade encurta a vida. Mas foi José Saramago quem melhor o soube definir: «Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo de boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

EDUCAÇÃO CÍVICA

Faz-se de tudo
o abano da anca
o olho sorridente
o rebolado
perante o presidente
da república
faz-se o bailado
e a pirueta
para agradar
e arejar o presidente
do conselho
lubricamente
mostra-se o joelho
aos ministros todos
lança-se
simpatia a rodos
aos generais
e aos marechais
também aos furriéis
se for preciso
afinal
o que é preciso
é ter juízo
...
faz-se de tudo
sempre a abanar
a anca
(Mário-Henrique Leiria)

MANIFESTAÇÃO DE APOIO

A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava, imperativa, a grande glória da pátria. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Os gritos indicados. Guinchos.
Várias crianças à procura da mãe ou do pai.
Era o apoio. Incondicional.
Ininterrupto, ao primeiro-ministro.
Ali, na praça enorme e paciente.
O primeiro-ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do Paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou uma das mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala dos Actos.
Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apoplética.
Abriu a janela num gesto amplo e paternal
e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff das bandas desenhadas, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço.
Alguém tirara a varanda. Toda.
(Mário-Henrique Leiria)
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