sexta-feira, 2 de novembro de 2007

"Mundo Moderno"

O Blog “Reis do YéYé”, do meu amigo fantomas, tem-nos deliciado com imagens nostálgicas dos anos sessenta, quer através de capas de EP’s quer por intermédio de ilustrações de capas de revistas da época.
Por ele influenciado, aqui o Rato vai começar também a disponibilizar, para todos os interessados, as capas e contra-capas desses suportes musicais (também conhecidos por extended-plays) que fizeram (e fazem!) as delícias de coleccionador deste vosso amigo. Confesso que muitas vezes nem me lembra de ouvir o disquinho, o que me seduz mesmo são as imagens que lá vêm impressas ou o grafismo e comentários / apresentações inseridos nas contra-capas. Como muitas dessas capas se têm deteriorado com os anos, tenho por hábito retocá-las um pouco no Photoshop, pelo menos para lhes retirar o “lixo” mais incomodativo. Estou convencido de que haverá por aí pelo menos umas dezenas de maluquinhos dos discos como eu que darão o devido valor a esta iniciativa os quais, mesmo sem terem os originais, ficarão felizes de possuir umas réplicas em condições (eu pelo menos tenho-me sentido assim com as belas capas do fantomas. Só é pena de ele se esquecer muitas vezes das contra-capas).
Voltando um pouco atrás, ao “Mundo Moderno”, julgo que o melhor dessa revistinha seriam também as capas. Isso por causa de alguns exemplares que me passaram pela mão. Vocês dirão de vossa justiça, mas sinceramente parece-me algo muito ligeirinho, incorrecto e de má qualidade (quer artigos quer imagens). Um exemplo bem elucidativo é o nº 41, de 1 de Agosto de 1970, que ainda por cima tem o Engelbert Humperdinck na capa e não uma daquelas meninas jeitosas a que o fantomas nos tem habituado. Neste número é apresentado aos leitores um “novo” grupo de rock. Atentem, por favor, na prosa:

« Um novo grupo. Um novo nome. Desta feita, são os “The Doors”, cujo chefe, o cantor Jim Morrison, conquistou grande número de admiradoras logo que começou a cantar a canção-título do seu primeiro disco “Hello, I Love You”».
Sinceramente, não consigo compreender como se conseguia escrever tanto disparate num único parágrafo. Lembre-se que se estava em Agosto de 1970, a banda já estava perto do fim (Morrison nem chegaria a viver mais um ano completo, pois seria encontrado morto pela namorada Pamela a 3 de Julho de 1971, num quarto de hotel em Paris), tendo sido criada 5 (cinco!) anos antes em Los Angeles e publicado 6 albuns a partir de 1967 (o sétimo e último album oficial, “L.A. Woman”, seria editado em Abril de 1971), antes que os tipos do “Mundo Moderno” dessem pela sua existência. E depois “Hello, I Love You” não é canção-título de coisa nenhuma, já que o album onde se encontrava inserida (que era o terceiro, e não o primeiro) se chamava, como toda a gente sabe, “Waiting For The Sun”.
E para terminar com chave de ouro (ou pau-preto se preferirem) deixo-vos com um rectângulozinho inserido na página 3 desse mesmo número 41. Exemplar:

A MORTE DE SALAZAR
«Apesar de ter a última folha a entrar na máquina, “Mundo Moderno” não podia deixar de referir a morte do Presidente Salazar a quem o País e sobretudo a Juventude muito ficaram a dever.
Portugal está mais pobre. A nossa Juventude perdeu um amigo.
Que descanse em paz!»

5 comentários:

Fantomas disse...

Pois...as contra-capas...
Para ser honesto...só devo ter umas 5 scanadas no PC. As capas dos discos portugueses tenho todas guardadas.
Nas contra-capas, por vezes, aparecem textos que são de uma pessoa atirar-se ao chão e rir!!!!
Tenho pena de só ter 5 exemplares da MUNDO MODERNO. Uma vez encontrei um tipo numa feira com cerca de 10 revistas, só que o preço que pedia era demasiado elevado e só comprei 5. A revista era muito avançada para a época (para Portugal), apesar de muita ingenuidade e de um certo atraso em relação ao resto do mundo.
Bom sr. Rato, tambem quero ver as capas que vai mostrar. Existem capas de discos que, para mim, são verdadeiras obras de Arte. Algumas reflectem a época, o som, o grupo...

josé disse...

O Mundo Moderno é o retrato de uma época- a dos anos sessenta.

As imagens, textos e referências, são o que são: pobres, sem grande relevância crítica, algumas vezes.

Mas por exemplo, no nº5 tem uma tradução da canção dos Beatles- Lady Madonna, da autoria de Dórdio de Guimarães.
Assim:
Como cor-de-rosa pele à quinta feira
Dedos dos pés rebrilham um suor de pérola
Com lantejoulas leite um olfacto que da gola
Vem de arminhos no ar coágulos de quem os queira.

Framboesa morango cereja
Ele a caça
Jacinto papoila narceja ela dança

Ó dona de carne
Que de má já o danado dono aleija
Teu lanho tenho
De liga preta já outro olhar adeja
Vermelha vermelha tanta mulher
-Seja.

Pode dizer-se que lhe falta algo. Até pode dizer-se que é especiosa demais.

Mas é sempre um texto do marido da Natália Correira e autor por mérito próprio.

Qual foi a revista portuguesa que teve esse provilégio? A Mundo da Canção? A Música & Som?
Nenhuma delas. Mas por exemplo o suplemente A Mosca do Diário de Lisboa,já teve. Alexandre O´Neill, um grande, grande poeta do realismo fantástico, para não dizer outra coisa.

Rato disse...

Acho que existe aqui uma grande confusão. Primeiro a revista em questão não foi, seguramente, um retrato dos anos 60. E se calhar nunca o quis ser. Porque caso o tivesse pretendido, no mínimo esse retrato teria aparecido desfocado ou, pior, com o motivo completamente fora do enquadramento. Até porque o conceito de “anos 60” só surgiu algumas décadas depois. Nós que na realidade vivemos aqueles anos não tínhamos sequer a noção de que os estávamos a viver. Sabíamos que éramos novos, que acreditávamos num mundo melhor e que as pequenas transgressões quotidianas nos davam um gozo do caraças. Tudo se fazia por oposição à ordem e à doutrina institucionalizadas, até porque a rebeldia é apanágio da juventude (sempre foi e sempre será). E ponto final. No fundo, e honrosas excepções à parte, a larga maioria da malta do meu tempo não estava minimamente interessada em mudar o mundo. E viu-se, quando a dita geração de 60 chegou ao poder, o pouco que fez para alterar o que quer que fosse.
Quanto à “tradução” da Lady Madonna, peço imensa desculpa, mas acho que o Dórdio de Guimarães, como faziam tantos outros nessa altura, se limitou a usar o nome do grupo (no caso o nome de uma canção) para ter sobre si um pequeno foco de luz que de outro modo se calhar não conseguiria (até porque viveu quase sempre na sombra da mulher). Não está aqui em causa o mérito do poema (que provavelmente o tem, mas não sou nem pretendo ser entendido para o julgar), mas a total discrepância com o tema dos Beatles. É que nem por analogia faz qualquer sentido em falar-se em “tradução”. Será que o nosso poeta alguma vez se deu ao trabalho de ler os versos da Lady Madonna? Eles aqui ficam para quem quiser comparar e tirar as suas próprias conclusões:

Lady Madonna children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet.
Who finds the money when you pay the rent?
Did you think that money was heaven sent?
Friday night arrives without a suitcase
Sunday morning creeping like a nun
Monday's child has learned ot tie his bootlace.
See how they'll run.
Lady Madonna baby at your breast
Wonder how you manage to feed the rest.
See how they'll run.
Lady Madonna lying on the bed
Listen to the music playing in your head.
Tuesday afternoon is never ending
Wedn'sday morning papers didn't come
Thursday night your stockings needed mending.
See how they'll run.
Lady Madonna children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet.

P.S.: Quer a “Música e Som” quer sobretudo o “Mundo da Canção” eram infinitamente superiores ao “Mundo Moderno”. É que não há mesmo qualquer termo de comparação que possa ser equacionado. Ou então, e por uma feliz coincidência, só me passaram pelas mãos os melhores números daquelas duas revistas.
Um abraço, José, e não leves a mal. Ao fim e ao cabo as nossas crenças apenas divergem, nada mais.

ié-ié disse...

Para dizer a verdade, o "Mundo Moderno" também não me entusiasmou muito. Estive agora com uma colecção nas mãos e desisti. Ou vi mal ou até trazia pouca coisa de música.

Uma correcção: a tradução de "Lady Madonna", de Dórdio Guimarães, está na "CineDisco - Revista do Mundo Moderno" e não no "Mundo Moderno" propriamente dito.

Desculpem lá, mas como diz o Rato sou muito picuinhas. Defeito profissional.

Luís

josé disse...

rato e luís:

O Cine-Disco Mundo Moderno, é a meu ver, um retrato dos anos sessenta. Porém, há retratos e retratos; uns aprimorados, outros meros esquissos de uns anos que passaram e pelos quais também passei, embora com idade de criança. Em 70, tinha 13-14 anos ( sou de Agosto).
Nessa idade, descobri os Beatles, os Creedence, Johnny Cash, Cat Stevens and so on. Descobri que gostava mesmo de umas Levi´s de bombazine e que adoraria ter umas botas Clarks originais, daquelas do deserto. Vou escrever sobre isso no Rapsódias do Mundo Moderno, porque é um tema que me fascina.

A revista Mundo Moderno, para mim, também é um símbolo desse tempo, mais do que outra coisa.
É verdade que não é assim uma grande coisa, em termos de escrítica.

Mas também o não era a Disco, música e moda, como não era a Música & Som e também a Mundo da Canção. Ler algumas crónicas de Tito Lívio ou outros, é a prova do que escrevo.

Como já disse antes, houve dois ou três indivíduos que escreveram bem sobre música em Portugal: Trindade Santos, Miguel Esteves Cardoso e ...não me lembro de mais ninguém. Deixo o terceiro para mais tarde, se me lembrar.

Agora, quanto ao aspecto gráfico da Mundo Moderno, tenho de discordar, caro rato.
O grafismo da revista era inovador, em Portugal e embora pudesse copiar outras revistas ( francesas e eventualmente alemãs), dá gosto ver a inspiração na conbinação das oores nas páginas, na arrumação dos textos e nos desenhos de Carlos Alberto. É isso que me atrai na revista, para além das fotos de "gajas" que na altura era um must, também aproveitado em jornais como o DIário Popular.
A Mundo Moderno, era a nossa Playboy.

Sobre o grafismo, muito poderia ser escrito. Por exemplo, em França, a revista Rock & Folk que inspirou alguns críticos portugueses, foi criada por Phillipe Koechlin, porque este era adepto de jazz e gostava do grafismo de uma revista alemã da época, também uma espécie de Playboy europeia: a Twen.

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