Edição original em LP Orfeu STAT 040
(PORTUGAL 1977, Agosto 25)
Fausto Bordalo Dias grava, em 1977, "Madrugada dos Trapeiros" (Orfeu), um dos discos fundadores da música popular portuguesa e que, embora com algumas particularidades decorrentes do momento histórico, aborda temáticas que hoje, decorridos quarenta anos, são preocupantemente actuais: desigualdades sociais, desemprego, condições de trabalho lesivas da dignidade humana, redução da mulher a mercadoria sexual, questões ambientais, etc. «Tendo como ponto básico de partida a música tradicional e a criação de raiz urbana, no seio da qual ganha alento novo a tendência para a fusão de elementos vários provenientes de influências diversas» (cit. Mário Correia), o trabalho surge também como reacção à invasão avassaladora e uniformizadora da música anglo-americana (mais propriamente do pop-rock): «Sempre me opus e resisti à tirania do rock e do pop em Portugal pelo que isso representa de normalização da música» (cit. Fausto). Infelizmente, o problema ainda está por resolver e muitos têm sido os danos causados à nossa música de maior valia e autenticidade, perante a indiferença olímpica dos poderes político-culturais. Parafraseando Viriato Teles, «"Madrugada dos Trapeiros" é, ainda, um disco com uma profunda carga política, mas onde é já possível vislumbrar as novas preocupações estéticas do seu autor, nomeadamente através da utilização sistemática de elementos tradicionais – o embrião, afinal, daquilo que virá a ser conhecido como Música Popular Portuguesa. O disco inclui aquele que permanece como um dos maiores êxitos do músico: "Rosalinda", um belíssimo manifesto ecológico [contra a central nuclear que pretendiam construir em Ferrel, Peniche], que foi, inclusivamente regravado em Espanha por Luis Pastor». Destaque ainda para a belíssima e algo esquecida "Mariana das Sete Saias", canção que versa o problema social da prostituição, assunto que Carlos Mendes também cantou na altura ("Amélia dos Olhos Doces") e que Vitorino retomará, quinze anos mais tarde, no álbum "Eu Que me Comovo por Tudo e por Nada" (EMI-VC, 1992). (in anosdaradio)


4 comentários:
...para a belíssima e algo (e não alga) esquecida...
Adoro este álbum e em particular os dois temas que refere!
Pois é... algas só no mar...
O "meu" Fausto preferido.
Um verdadeiro masterpiece!!!
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