terça-feira, 13 de dezembro de 2016

OS 2 ALBUNS DOS SECOS & MOLHADOS

Edição Original em LP Continental SLP 10112
(Brasil, Agosto de 1973)

Primeiro album do grupo formado nos inícios da década de 70 por João Ricardo, foi gravado entre Maio e Junho de 1973, em sessões de seis horas diárias, durante apenas 15 dias. Editado em Agosto desse ano, “Secos & Molhados” vendeu mais de 300 mil cópias em apenas dois meses, atingindo rapidamente o milhão de cópias, o que fez do grupo um dos maiores fenómenos da MPB desses anos. João Ricardo nasceu em Portugal, em Arcozelo, Ponte de Lima, no dia 21 de Novembro de 1949. Filho do poeta e crítico teatral João Apolinário, teve uma infância fortemente influenciada pelos sons do rock and roll, desde Elvis Presley até Johnny Hallyday e Les Chats Sauvages (tinha uma predileção muito especial pelo rock francês). Conhece a música brasileira através de Miltinho e Doris Monteiro, através dos discos que o seu pai tinha em casa. Em 1963 a Beatlemania contamina-o como a tantos outros e é aí que decide ser a música o seu futuro. Um ano depois, a 28 de Março de 1964, a família muda-se para o Brasil, onde o movimento Jovem Guarda estava a viver os seus anos de ouro. João Ricardo tem apenas 14 anos, mas depressa aprende a tocar violão, além de começar a escrever alguns dos temas que anos mais tarde seriam grandes sucessos. Estuda e trabalha como jornalista no jornal Diário Popular, na TV Globo e no extinto jornal Última Hora.



Em Setembro de 1970, durante umas férias passadas em Ubatuba com um amigo, João Ricardo viu uma placa de armazém publicitando o estabelecimento onde costumavam comer e beber, “Secos e Molhados”. O nome desperta-lhe a atenção e decide atribuí-lo a um eventual grupo que viesse a formar, o que acaba por acontecer em 1971, quando conhece Fred e Pitoco. Começam por tocar em alguns bares do bairro do Bixiga em São Paulo, mas pouco tempo depois Pitoco decide iniciar uma carreira a solo. Entretanto, a cantora e compositora Luli sugere-lhe um novo vocalista que morava no Rio de Janeiro: Ney de Sousa Pereira, futuro Matogrosso, nascido a 1 de Agosto de 1941, em Bela Vista. Gerson Conrad, vizinho de João Ricardo, é também incorporado no grupo, bem como o baterista Marcelo Frias.


É esta formação (descoberta por Moracy do Val, director do jornal “Curtison” da Continental e um dos responsáveis pelo movimento da bossa-nova em São Paulo) que, depois de um ano de apresentações no Teatro do Meio, em São Paulo, começa a ensaiar para a gravação de um primeiro album. Treze canções compõem esta estreia dos Secos & Molhados, sendo as mais populares “Sangue Latino”, “O Vira” e “Rosa de Hiroshima”. A crítica política à ditadura militar encontra-se também presente em temas como “Primavera nos Dentes” ou “Assim Assado”. A capa do disco foi eleita há alguns anos pela Folha de São Paulo como a melhor de todos os tempos de discos brasileiros. «Ficamos lá a madrugada inteira, sentados em cima de tijolos», lembra João Ricardo, «fazia um frio horroroso debaixo da mesa. Em cima queimava, por causa das luzes», continua Ney Matogrosso....«comprei os mantimentos no supermercado, a toalha foi improvisada com plástico qualquer, a mesa era um compensado fino que nós mesmos serramos para entrarem as cabeças. No final da madrugada, o trabalho terminou. Tinhamos fome e estávamos duríssimos, fomos tomar café com leite. Não sei por quê, mas não me lembro de termos comido os alimentos da mesa» (Folha Ilustrada, SP, 30/03/2001).


O grande sucesso deste primeiro trabalho faz o grupo participar em diversos programas de televisão, destacando-se o “Fantástico” da Rede Globo. Em Fevereiro de 1974 batem todos os recordes de público no Maracanãzinho realizando um concerto inesquecível. Segue-se uma digressão internacional e em Agosto desse mesmo ano é lançado o segundo disco, que tinha em “Flores Astrais” o único tema de sucesso. Pouco depois, e devido a brigas internas, os Secos & Molhados chegam ao fim, seguindo cada um dos membros carreiras a solo. João Ricardo ficou com os direitos de autor do nome do grupo e lança, sempre com formações diferentes, mais três albuns até ao fim da década de oitenta (1978, 1980 e 1988). Em 2003 é editado o disco “Assim Assado: Tributo aos Secos & Molhados”, com versões dos temas deste primeiro album na voz de diversos artistas (Nando Reis, Arnaldo Antunes, Pitty, Tony Garrido, Ritchie, entre outros).

Edição Original em LP Continental SLP 10152
(Brasil, Agosto de 1974)

Está gravado na história da música pop: O segundo álbum é, na maioria das vezes, estilhaços do primeiro, ou seja, quando o trabalho debutante surpreende público e mercado, seja por inovações técnicas, um novo rítmo, vocais não-convencionais, ou um marco na mudança de comportamento pessoal ou político. O segundo álbum prossegue a proposta do primeiro, expondo material deixado de fora por muitas razões, além de acrescentar algo novo. Exemplos não faltam: The Beatles, The Rolling Stones, Jimi Hendrix, The Doors... Vale lembrar que o segundo álbum pode chamar a atenção para um primeiro que passou despercebido, ou quase: Nirvana, por exemplo. Agora estamos no Brasil dos anos 70. O Regime Militar está mais firme do que quando começou, enquanto a esquerda tenta vencer uma luta que já nasceu fadada ao fracasso. Em 1974 a Tropicália já tinha dado seu recado, mas a música pop continuava à base de água com açúcar, e o rock dividia-se entre a ousadia de Raul Seixas e as viagens mutantes, só para ficarmos nesses marcos. E, dentro de toda essa confusão política, artística, social e cultural, Os Secos & Molhados lançaram seu segundo álbum, a exemplo do primeiro, também sem título, o que já serve de base para reforçar a tese registrada no início desta resenha. Afora a semelhança das canções, das performances, do visual glam rock, este 2º álbum é mais avançado tecnicamente, desta vez gravado em oito (!) canais. O petardo disparado por Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo, em 1973, causou mais estragos do que se poderia imaginar à imagem do macho brasileiro, das instituições conservadoras hipócritas e de, até certo ponto, de uma mesmice cultural, ancorada na música jovem de então.

O Sub-explorado 2º álbum dos S&M tem o mesmo número de canções do primeiro: Treze; e só um hit: "Flores Astrais", tema que sustentou o fenômeno andrógino durante todo aquele ano, que ainda causava furor Brasil afora e no exterior. Um só hit! Reside aí o maior pecado em torno desse disco. Executada à exaustão, "Flores Astrais", embora bela, obscureceu as demais belas canções, como "Tercer Mundo", a soturna "Medo Mulato" (No meio da noite/no meio do medo/dos olhos insones/os fantasmas passeiam/no canto do galo/no uivo do cão/nas vozes do vento/no galope, no relincho/no meio da solidão), "Vôo", "Delírio" e, "O Doce e o Amargo". Ao contrário de seu primeiro álbum, não obstante o evidente avanço técnico deste segundo disco, notamos a ótima qualidade da banda que dá apoio ao trio, além da perfeita sincronia entre os poemas de João Ricardo, a voz contratenor de Ney e o violão de Conrad. Essa sincronia pode ser verificado em "Toada & Rock & Mambo & Tango & Etc." e "O Hierofante", principalmente no ótimo baixo de Willie. Os Secos & Molhados como conhecemos pararam neste segundo e último disco. Lutas internas determinaram o fim da banda e do sonho de vôos mais altos. Mas a semente plantada pelo trio feito de glamour, deboche, ousadia e criatividade floresceu sob outros nomes. Mas aí a história já é outra. (in Rate Your Music)

5 comentários:

Anonymous disse...

Um album histórico que passados todos estes anos ainda dá um grande prazer em ouvir. A redescobrir. Sempre!

Anonymous disse...

Belo trabalho, o do vídeo.
O album, esse, é eterno!

Anonymous disse...

Olá Sr. Rato,

Grande lembrança! Secos & Molhados era a denominação genérica dos armazéns que vendiam produtos alimentícios e bebidas por atacado e a retalho, geralmente de propriedade de portugueses e que se espalhavam por todo o Brasil. Quando do lançamento do primeiro album eponônimo, a fase mais dura da ditadura militar já estava começando a ficar para trás. Estava saindo Medici e entrando Geisel. Depois veio a Revolução dos Cravos, que muito inspirou e influenciou as cabeças não esquerdistas daqui no sentido de perceberem que o totalitarismo poderia ser substituído pela democracia, sem maiores traumas. Embora ela só tenha definitivamente chegado, digamos, após um longo processo de revisão das instituições, pode-se dizer que aquela foi um época marcante para nós brasileiros.

As músicas dos Secos & Molhados eram tocadas a exaustão nas rádios, nas casas de discos e nas festas e nos bailes que se promoviam e onde havia gente jovem.

O enorme sucesso de um grupo paulista num show no carioca Maracanazinho foi o que chamou a atenção da Rede Globo que pegou carona na fama inusitada.

Pena que tenha durado tão pouco.
Dos membros originais do grupo, apenas Ney Matogrosso continou obtendo sólido sucesso, graças a sua voz única, sua competência em expressar-se, além de uma grande simpatia da mídia.

Grande abraço,

Carlos Alberto

Nelwizard disse...

Oi Sr. Rato, saudações de São Paulo/BR.;

Muito obrigado por essa obra maravilhosa do folk/rock psicodélico brasileiro; sem dúvidas esse é um dos melhores albuns da história do rock brasileiro. Grande disco e excelente áudio.

Deus o abençoe!

juan manuel muñoz disse...

mil gracias, apreciado amigo

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