«Calhou ter ganho o Festival da Canção em 1968 e me ter enamorado por uma inglesa, que se chamava Linda. Por isso, fazia algumas incursões a Londres e, numa delas, passei por Paris quando havia manifestações. Achei a coisa apetecível até porque tinha por lá amigos e conhecidos, alguns de 1966, quando os Sheiks lá tocaram. Mas não participei nelas com o espírito activista que mais tarde me levaria a aderir a greves e manifestações em Portugal. Na altura, não fiquei para assistir ao desfecho. O amor falou mais alto. Havia uma diferença substancial entre Lisboa e Paris. É como comparar, hoje, uma aldeia do Portugal mais profundo com Lisboa. Portugal era um país repressivo.
Tinha acabado de entrar no curso de Arquitectura, na Faculdade de Belas Artes, e levava pouca experiência do liceu, apesar de o meu irmão mais velho, o Abílio, ter estado nas manifestações de 61/62 e o meu irmão do meio, Jaime, ter fugido para a Suiça, porque era militante do PCP na clandestinidade e a PIDE não perdoava. As consequências do Maio de 68 chegam tarde a Portugal. Na Universidade desenhávamos umas possibilidades e dizíamos "bora lá fazer uma coisa destas contra a guerra e por um ensino diferente".
Começámos a usar cabelos compridos. O meu, como era encaracolado, crescia para cima, tipo black power. A imagem de Che Guevara seduzia-nos. Deixo crescer o bigode, a barba, andava de boina, com sapatos tipo alpercatas, calças sujas e pintadas. Éramos olhados de lado e até ofendidos. "Lá vai o bicho", diziam. Há coisas de que me lembro que nem acredito. Alguns amigos, à noite, escondiam os cabelos nas camisolas para não serem molestados. No mínimo éramos enxovalhados por dar um beijo à namorada em público. Ou vinha o polícia dizer que para a próxima era multado e que aquilo era uma coisa que se fazia em pensões ou em quartos privados. E a guerra dos cafés, em Lisboa... No Vává, a malta de esquerda, na Mexicana os de direita. Ia muito ao Hot Club, para ouvir música diferente. Às vezes comia-se o bife na Portugália e acabava-se de madrugada, na Ribeira, a beber cacau quente. (Carlos Mendes in "Sexta", 18 de Abril de 2008)




3 comentários:
Possivelmente por lapso, Carlos Mandes não menciona que o pai, Abilio Mendes, médico pediatra com consultório na Travessa do Calado em Lisboa, também foi um militante anti-fascista. O meu pai contava que muitas vezes não havia consultas porque o "Sr. Dr. estava ausente de Lisboa". Como muito pouca gente tinha telefone, só se sabia que não havia consulta, no próprio dia. Foi o Dr. Abilio Mendes que assitiu a todas as minhas doenças próprias de infância. E com muita competência.
Hello,
I don't speak portuguese so I don't understand if there's a chance to download this Ep. Can you help me?
Best regards
Muito obrigado Rato Records pelo re-up!
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