quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"Não Me Obriguem Vir Para a Rua Gritar..."


Edição Original no LP ORFEU STAT 017 
(PORTUGAL, Dezembro 1973)


Do mesmo modo que sempre preferi o “Abbey Road” ao “Sgt. Pepper’s” dos Beatles, também aqui, na obra do Zeca, vou contra a grande maioria. “Cantigas do Maio” poderá ser a referência básica para (quase) toda a gente mas para mim sempre perdeu terreno face a este “Venham Mais Cinco”, que foi o album que mais vezes coloquei a girar no prato do gira-discos. Encontrava-me nos meus vinte anos quando esta maravilha me foi parar às mãos pela primeira vez. Era o tempo em que todas as semanas saíam albuns magníficos, quer nos Estados Unidos quer sobretudo em Inglaterra, e essa grande e magnífica orgia de sons anglo-americanos não nos deixava tempo para mais nada. Ou quase nada. Este album, portuguesíssimo, foi uma das raras excepções. A sua original e espantosa modernidade cativou-nos por completo e todos aqueles novos sons ombrearam sem qualquer dificuldade com o que melhor se fazia na altura fora do país. Os sons, e, claro, as palavras também, impregnadas de um surrealismo que nos desconcertava e fascinava: A Nefretite que não tinha papeira e o Tuthankamon sem apetite, ou a tinta que caía no móvel vazio, convocando farpas, chamando o telefone e matando baratas. Ou a formiga no carreiro que vinha em sentido contrário e que caíu no Tejo ao pé dum septuagenário. E que dizer da Paz, atacada de psicose maníaco-depressiva, que saíu aos saltos para a rua, comeu mostarda e bebeu sangria?


Gravado em Paris, no estúdio “Aquarium”, de 10 a 20 de Outubro de 1973, produzido por José Niza e com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, "Venham Mais Cinco" reúne as últimas canções de José Afonso antes da sua "Grândola Vila Morena" nos vir a enrouquecer as gargantas alguns meses depois. Inclui diversos temas escritos por Zeca durante o seu último período de “férias” em Caxias, em Maio desse ano: 22 dias sem culpa formada e interdição de recorrência a um advogado por “inconveniências para a investigação”. É o disco em que o cantor conta com a participação de maior número de músicos (18 no total) e onde a sua poesia atinge a expressão mais ampla, livre de significados imediatistas e de interpretações lineares. O tema que dá nome ao album, "Venham Mais Cinco" ("Não me obriguem a vir para a rua gritar!...") é uma autêntica premonição do que está para vir, e é também o último dos grandes hinos de Zeca Afonso antes da Revolução de Abril.


Volto ao início destas notas: hoje, que se completam 30 anos da morte de José Afonso, continuo a considerar este album, 4 décadas depois, o expoente máximo da sua obra. Porque para além de toda a sua grande qualidade lírico-musical constitui uma charneira, um ponto de viragem. Chegava ao fim o tempo da resistência e a liberdade estava já ali, à esquina. O período clássico dos albuns de José Afonso conclui-se aqui, e da maneira mais sublime. Haveria espaço ainda no futuro para coisas muito boas mas espaçadas e não com a frequência criativa destes anos. O que até é compreensível – passaram a existir outras prioridades na vida do Zeca e o tempo para as músicas e as gravações deixou de ter a importância que tivera até então.

3 comentários:

julioxo disse...

Aún escucho con agrado Grándola vila morena
Este disco de Zeca Afonso no lo conocía.
Gracias Rato
Adios

di(aphanous disse...

I hold the beautiful silvery jacket of my own LP now, and... I become intensly nostalgic!
We still had great hopes then, didn't we?

Thank you Rato for this digitised version.

nomdan disse...

Merci pour ce qui ressemble à une intégrale José Afonso. C'est le seul disque que je connaissais avec Grandola Vila Morena, mais c'est une vraie découverte..... Encore merci

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