Zeca Afonso tem 40 anos quando grava este album nos estúdios da Pye em Londres, no alvorecer da década de 70. A sua voz nunca esteve tão cristalina e o seu canto tem o condão de nos tocar bem fundo, num misto de emoções que o tempo não consegue apagar. No texto de apresentação, Bernardo Santareno realçava a 'pureza' como 'a nota maior' da arte de Zeca. Pureza é, de facto, a palavra exacta para definir este disco, um imenso poema de fraternidade a que não falta a raiva de quem se sabe cercado. Uma raiva que tem a sua expressão mais evidente nas interpretações de "Os Eunucos" (cuidadosamente subintitulada "No reino da Etiópia", numa tentativa de dar a volta às malhas apertadas da censura) e do soberbo e angustiante poema de Jorge de Sena, "Epígrafe para A Arte de Furtar". “Traz Outro Amigo Também” não pôde contar com a participação de Rui Pato, entretanto mobilizado para a tropa e com o passaporte apreendido pela P.I.D.E.. Em seu lugar estão Carlos Correia (Bóris) e Filipe Colaço. As referências a África surgem, pela primeira vez, no trabalho de Zeca (em "Avenida de Angola" e "Carta a Miguel Djéje"), a par de temas como a emigração e o exílio ("Canção do Desterro"), de canções populares ("Maria Faia" e "Moda do Entrudo") e de uma nova viagem pelos domínios camonianos ("Verdes São os Campos"). Incómodo e belíssimo, “Traz Outro Amigo Também” assume-se como um disco de grande maturidade, através do qual, se dúvidas ainda restassem, se tornava claro que já tudo era diferente na música portuguesa. A prova, de resto, fora dada no ano anterior a este disco, durante um programa de televisão igualmente histórico, o 'Zip Zip'. Onde Zeca, curiosamente, nunca participou... É durante a estadia em Londres que José Afonso conhece Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos exilados nessa altura na capital londrina. Rezam as crónicas que Gil foi testemunha assídua no estúdio e que aí aprendeu e reconheceu o grande mérito das canções do Zeca. E também que este teria improvisado a música para “London London” durante um jantar num restaurante português. Caetano agradeceu pois andava atrapalhado para compor uma música que ilustrasse a sua estadia em Londres.segunda-feira, 26 de agosto de 2019
"Somos Filhos da Madrugada..."
Zeca Afonso tem 40 anos quando grava este album nos estúdios da Pye em Londres, no alvorecer da década de 70. A sua voz nunca esteve tão cristalina e o seu canto tem o condão de nos tocar bem fundo, num misto de emoções que o tempo não consegue apagar. No texto de apresentação, Bernardo Santareno realçava a 'pureza' como 'a nota maior' da arte de Zeca. Pureza é, de facto, a palavra exacta para definir este disco, um imenso poema de fraternidade a que não falta a raiva de quem se sabe cercado. Uma raiva que tem a sua expressão mais evidente nas interpretações de "Os Eunucos" (cuidadosamente subintitulada "No reino da Etiópia", numa tentativa de dar a volta às malhas apertadas da censura) e do soberbo e angustiante poema de Jorge de Sena, "Epígrafe para A Arte de Furtar". “Traz Outro Amigo Também” não pôde contar com a participação de Rui Pato, entretanto mobilizado para a tropa e com o passaporte apreendido pela P.I.D.E.. Em seu lugar estão Carlos Correia (Bóris) e Filipe Colaço. As referências a África surgem, pela primeira vez, no trabalho de Zeca (em "Avenida de Angola" e "Carta a Miguel Djéje"), a par de temas como a emigração e o exílio ("Canção do Desterro"), de canções populares ("Maria Faia" e "Moda do Entrudo") e de uma nova viagem pelos domínios camonianos ("Verdes São os Campos"). Incómodo e belíssimo, “Traz Outro Amigo Também” assume-se como um disco de grande maturidade, através do qual, se dúvidas ainda restassem, se tornava claro que já tudo era diferente na música portuguesa. A prova, de resto, fora dada no ano anterior a este disco, durante um programa de televisão igualmente histórico, o 'Zip Zip'. Onde Zeca, curiosamente, nunca participou... É durante a estadia em Londres que José Afonso conhece Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos exilados nessa altura na capital londrina. Rezam as crónicas que Gil foi testemunha assídua no estúdio e que aí aprendeu e reconheceu o grande mérito das canções do Zeca. E também que este teria improvisado a música para “London London” durante um jantar num restaurante português. Caetano agradeceu pois andava atrapalhado para compor uma música que ilustrasse a sua estadia em Londres.
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4 comentários:
This posting of José Afonso is a major blast.
You did so many fantastic things and now you come up with these J.A. stuff.
I think I know where Madredeus got some of their inspiration from...
O by the way I am so lucky that I was invite to come to Lisbon and Coimbra on Saturday. Looking forward to it.
O sweet Lusitania, once more I may be in you some sweet days.
Obrigado meu Amigo Rato por mais esta partilha. Um Abraço.
Hola buen día, excelentes como siempre todos los aportes, cumpliendo con el cometido enunciado en el blog. Muchas gracias!
Haverá a possibilidade de novo link para download?
Obrigado!
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