Nos anos 60, Portugal vivia uma feroz ditadura de direita. O país encontrava-se fechado sobre si mesmo, no que Salazar apelidava de “orgulhosamente sós”. Não havia eleições, nem liberdades. A censura amordaçava a expressão das ideias, a juventude não tinha outro futuro que não fosse a guerra colonial em três frente de combate: Angola, Moçambique e Guiné. A guitarra era substituída pela metralhadora. Por razões históricas e de proximidade, cabia então à França o papel de “colonizador cultural” de Portugal. No cinema, com nomes como Godard, Truffaut, Vadim, Lelouch e outros. Na literatura, com Camus, Sartre. Na música popular Johnny Hallyday, Sylvie Vartan, Françoise Hardy. Mesmo quando na Grã-Bretanha, os Beatles encabeçam a Revolução Cultural e Social, Portugal – por maioria de razão – resiste à investida, mantendo-se maioritariamente fiel às ondas gaulesas. Apesar da língua comum e das origens históricas uníssonas, também o Brasil e a sua "Jovem Guarda" mantiveram a distância de Lisboa, só comparável à imensidão do oceano que separa os dois países. Como seria de esperar, Roberto Carlos foi a grande excepção e, talvez, Celly Campello, únicos nomes brasileiros verdadeiramente ilustres no cinzentismo da música popular portuguesa dos anos 60. Zeca do Rock, um dos proeminentes músicos portugueses da altura, autor do primeiro “yé-yé” cantado em Portugal, e entretanto já falecido, contava há meia dúzia de anos atrás como foi em Portugal: «Primeiro foi a Celly Campello e seu irmão Tony. A Celly era a Brenda Lee brasileira. Mas nenhum dos dois foi alguma vez aceite por aqueles que depois se vieram a considerar a Jovem Guarda. Deles todos (e são muitos) só o Roberto Carlos conquistou o Atlântico. Muito pouca coisa da Wanderlea apareceu entre nós, porque acho que nada foi publicado oficialmente. Dos restantes, nem sombra. E é fácil compreender porquê. Nós tínhamos todas as versões originais anglo-americanas, mais as versões francesas, mais as versões italianas. Quem se iria interessar por versões brasileiras que, geralmente, tinham letras de pôr os cabelos em pé a um careca? O Roberto cantou desde o início muito material original dele com o Erasmo, por isso o público português perdoou-lhe barbaridades como o “Splish-Splash”, entre outras. A Jovem Guarda brasileira não teve qualquer influência em Portugal em época nenhuma», conclui, com algum azedume, Zeca do Rock.
Visão diferente tem Daniel Bacelar, considerado o “Ricky Nelson português”, autor de êxitos como "Marcianita", “Olhando Para O Céu”, “Fui Louco Por Ti” e “Miudita”. Também em declarações com já alguns anos, Daniel Bacelar admitia uma maior influência da Jovem Guarda: «Na realidade, Celly Campello (“Lenda da Conchinha”) e o irmão, Tony, fizeram imenso sucesso, especialmente ela, mas houve muitos outros como Sérgio Murillo (“Marcianita”), Osmar Navarro (“Quem É?”), Roberto Carlos, claro, e o fantástico Erasmo Carlos que, para mim, continua a ser superior ao Robertinho, Demétrius (“Ritmo da Chuva”), Ronnie Cord (“Biquini Amarelo”), Carlos Gonzaga (“Diana”). Os brasileiros – diz ainda Daniel Bacelar – sempre foram muito bons a copiar e as versões em português (do Brasil, claro está) de grandes sucessos norte-americanos ficavam sempre muito semelhantes ao original, o que nos fazia na altura uma certa inveja, pois os conjuntos que havia, apesar de terem muito bons músicos, estavam mais inclinados para a música de baile e italiana, faltando-lhes aquele “feeling” que os “malandros” dos brasileiros copiavam tão bem. Na realidade, houve uma grande influência da Jovem Guarda na jovem música portuguesa, bem como da música brasileira em geral», finalizou.
O autor do blogue RATO RECORDS possui uma visão peculiar sobre a influência da Jovem Guarda na música portuguesa, já que, à altura, vivia em Moçambique: «Só posso referir o que vivi na altura em Moçambique, onde penso que havia mais abertura do que em Portugal (ou Metrópole, como então se dizia) no que diz respeito ás coisas da Cultura (e não só). Nós tínhamos uma grande influência da vizinha África do Sul, onde nos deslocávamos muitas vezes para nos abastecermos com as últimas novidades musicais. Até 67/68 a música que consumíamos era “servida” quase sempre em formato reduzido (singles e EPs), com uma predominância muito grande de intérpretes anglo-americanos (e também muitos grupos sul-africanos). Não devo andar muito longe da verdade se disser que apenas 25% englobava outras nacionalidades, nomeadamente a francesa, a italiana e, claro, a brasileira. No princípio dos anos 60 era essencialmente a Celly Campello e, mais tarde, sobretudo entre 1964 e 1966, mais alguns (poucos) nomes, onde se destacava Roberto Carlos (com a parte de leão), e também Erasmo e Ronnie Von. Depois, com o terminar da década e a morte do single, cada vez mais preterido em relação ao álbum (muito por culpa de “Sgt. Pepper’s”, editado em Junho de 1967), a grande influência brasileira deixou de ser a Jovem Guarda (que estava agonizante) para passar a ser a onda tropicalista (com Gal e Caetano á cabeça). Uma referência ainda a Chico Buarque que, não sendo nem uma coisa nem outra, sempre foi uma referência fundamental desde que “A Banda” apareceu em 1966», conclui o Rato.
Carlos Santos, também ele singular apreciador da música dos anos 60, opina que, «realmente, a Jovem Guarda teve o expoente máximo, em Portugal, em Roberto Carlos, adiantando que ainda hoje o cantor brasileiro é muito ouvido. Mas não podemos esquecer outros grupos e artistas que na altura tiveram êxito e também foram muito queridos no nosso país e fizeram as delícias de muita “malta”, apesar de não terem tido tanta influência. Estou a lembrar-me, por exemplo, de Erasmo Carlos, Golden Boys, Celly Campello e seu irmão, Tony, Incríveis, Fevers, Renato e Blue Caps. Mas ainda outros tiveram alguns êxitos por cá: Silvinha, Martinha, Wanderlea, Trio Esperança, Jet Blacks, Jordans, Leno e Lilian, Ronnie Von, Jerry Adriani, Brazilian Bitles. Menos conhecidos, mas de que eu também gostava apareceram os Brazões, Galaxies, Luizinho e seus Dinamites, VIPs...»
Luís Pinheiro de Almeida




9 comentários:
Se voce morasse no Brasil eu convidaria para participar do Encontro Nacional de Música Cafona e Jovem Guarda que as comunidades do Orkut vão promover agora em Junho em Fortaleza. Vai pegar fogo !
A Comunidade do R Stone (o proprietário) tem adeptos da música brega e jovem guarda.
Eles fazem sempre o encontro em diversas cidades do País, em Junho Fortaleza Ceará foi convocada.
Rato você é tão brasileiro como qualquer um daqui.
Um abraço
Oi gente!
Por causa do Dia Mundial do Rock, a T-Brasil selecionou todas as camisetas do universo do Rock, inclusive das estrelas mais antigas, como Roberto Carlos, Elvis, John Lennon..
Todas elas estão com 40%! Basta me deixar um scrap no Orkut (Gabi T-Brasil), com a frase: "rock na veia"!
Tenho certeza que após você usar a camiseta, mil garotas vão querer passear com você ;)
rato parabens pelo exelente trabalho, esta coletanea de volta a jovem guarda é simplismente a melhor que ja vi, gostaria que, se possivel liberase os links para que eu possa baixar toda esta coletanea.
certo do atendimento desde ja os meus agradecimentos maravilhos
Agnaldo
Como tudo na vida tem o seu fim, neste caso foi exactamente ao contrário um feliz regresso do Ratinho :) "deixe-me usar a expressão".
Gostaria de acrescentar ao Rato que tenho acompanhado e pesquisado em blogues do Brasil, e tenho muita coisa deste período fantástico que foi a Jovem Guarda, como diz bem no texto principal foi a descoberta de muitos valores da MPB, e extremamente bem comentado por Luís Pinheiro de Almeida.
Não direi uma surpresa de ver um trabalho extremamente bem feito, mas a prova de que nada é deixado ao acaso pelo Rato Records.
Mais uma vez agradeço por este trabalho notável.
Que prazer, que delicia realmente fazer parte de um blogue que assim não morrerá!!!.
Um abraço.
Bedankt Rato
Faz meses que perdi seu blog de vista. Aqui encontrei de novo.
Obrigado por tudo o que você nos oferece.
Depois de ler este interessante artigo do meu amigo Rato,continuo com a opinião de que a Jovem Guarda brasileira teve uma enorme influência nos primeiros tempos do Rock em Portugal.
Além de versões muito bem feitas com óptimos músicos letras com muita piada e muito bem encaixadas nas músicas.
Bastava ouvir os programas de discos pedidos "Quando o telefone toca" do famoso Joaquim Pedro ou o "Programa dos Doente" da Alda Maria totalmente dedicado aos doentes acamados nos Hospitais para ter a noção da enorme aceitação destas versões brasileiras.
No segundo disco que gravei para a a Valentim de Carvalho,teria os meus 19 anos,e por sugestão de Pozal Domingues encarregado do departamento de artistas, gravei uma versão de um enorme sucesso brasileiro de Erasmo Carlos "Marcianita"
FICOU UM HORROR!!!!!!
Na sua versão original.é uma canção deliciosa e num ritmo certo, mas para a gravação do meu disco, o conjunto, resolveu ser original fazer um arrnjo estilo tarantela acelerada e quando fui ao estúdio para meter a voz, o playback já estava feito, e como não passava de um miúdo e sem qualquer voto na matéria lá tive de gravar aquela coisa absolutamenre a "mata cavalos"!!!!!
É A VEGONHA DA MINHA CARA,e como sempre disse isso, julgo que as pessoas para "entrarem comigo" dizem sempre que foi um dos meus maiores sucessos!!!!Enfim, que lhes faça muito bom proveito e que se divirtam, mas.......ouçam a versão original de Erasmo Carlos e perceberão ao que me refiro!!!!!
Os brasileiros sempre foram muito bons e grandes profissionais e na realidade a rapaziada brasileira marcou uma época!!!
excelente compilación, amigo, mucha gracias
Puxa, Rato, você é um cara muito especial mesmo. Comentei sobre uma coleção da Jovem Guarda com a capa igual aos Anthologie Du YeYe Français, que são muito legais e você já postou. Só posso agradecer muito. Obrigado.
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