sábado, 7 de dezembro de 2019

DUO OURO NEGRO: "Raul e Milo"


A 4 de Junho de 2006, desaparecia a segunda metade do Duo Ouro Negro, um dos três nomes (os outros dois são Eusébio e Amália Rodrigues) que nos idos de sessenta lograram dar a conhecer Portugal aos quatro cantos do mundo. Apenas porque tinham qualidade, demasiada qualidade para ficarem restringidos a este pequeno rectângulo à beira-mar plantado, onde, já nesse tempo, a inveja e a mesquinhez reinantes eram incompatíveis com uma carreira nacional de grande sucesso. Por isso Raul e Milo se fizeram à estrada, levando a sua música a ouvidos mais limpos e a mentes mais arejadas. Fizeram bem, até por usarem Portugal unicamente como trampolim. Afinal aquela música nada tinha a ver com o fado ou o folclore lusitano, e só por circunstâncias políticas da época se poderiam confundir.


Em Fevereiro de 1974, entrevistado por Regina Louro para a revista «Flama», Milo apontava, com algum sarcasmo, algumas razões para há muito tempo não actuarem em Portugal: «Quais são os artistas portugueses que têm actuado aqui? A verdade é que não há um sítio, uma casa de music-hall para cantarmos. Os teatros têm os seus elencos, os cinemas o que querem é vender filmes, a televisão contrata como vedetas cançonetistas que lá fora ficam num plano inferior a nós. Ao artista português mais não resta do que esperar pelo Verão para ir a feiras, festas na província, ou a um ou outro casino nas estâncias balneares. Fora desse período está condenado a uma carreira internacional».


UMA MIRAGEM

Houve um tempo, um tempo breve, em que pareceu que a música popular portuguesa podia ser assim: uma coisa intercontinental, afro-europeia e euro-africana, que pregava um estilo de vida dominado pela elegância e a alegria; atenta às mudanças do mundo e a cada uma das novas tendências internacionais; ecuménica, capaz de acolher no seu seio a memória do antigo reino dos Kwaniamas enquanto gerava luminosas versões de canções dos Beatles cantadas em português e acotovelava as grandes estrelas da época, como Eartha Kitt, Peter Ustinov, Maria Callas, Charles Aznavour ou Gina Lolobrigida. Houve um tempo em que o Duo Ouro Negro, que nasceu no sul de Angola na segunda metade da década de 50, de lá saíu como uma estrela cadente, para fazer escala em Lisboa antes de partir em direcção a outras e mais vibrantes constelações. Houve um tempo em que pareceu que Angola ia ser assim. Sendo originalmente um trio, foi já como duo que Raul Indipwo e Milo MacMahon - então conhecidos ainda com os seus nomes lusitanos, Raul Aires Peres e Emílio Pereira – se tornaram conhecidos graças às suas espantosas harmonias vocais e a um domínio exímio da guitarra. A princípio projectavam apresentar um elenco do folclore angolano e das suas várias etnias e línguas. Mas a canção que foram estrear ao Cine-Teatro Restauração, em Luanda, e que se tornou o seu primeiro grande êxito, já havia excedido esses limites. No seu registo impressionista e misterioso, "Kurikutela", cujo nome significa «comboio» e celebra o veículo de ferro onde «Toda a gente leva pressa/ de chegar à sua terra/ Estão os parentes à espera» ainda hoje se dá a ouvir como um caso à parte.

Na esplanada do Hotel Panorama (ilha de Luanda), refrescando-se com uma Coca-Cola e uma laranjada (1964)

Após o êxito conseguido na capital angolana chegam a Lisboa em 1959 pela mão do empresário cinematográfico Ribeiro Belga e, apesar da concorrência em voga no mundo da canção, conquistam em absoluto o público com actuações no Cinema Roma e no Casino Estoril, gravam três discos (inicialmente acompanhados pelo conjunto de Sivuca, depois pela orquestra de Joaquim Luís Gomes), passam pelos écrãs da RTP (onde nessa época se actuava sempre em directo) e regressam a Angola pouco antes do eclodir da guerra, em 1961. Até 1985, ano do falecimento de Milo (a 20 de Fevereiro), decorrerá então o período efervescente do Duo Ouro Negro, marcado por diversas fases e pela polarização do reportório (como todos, submetido à vigilância da censura prévia) entre os registos pop mais inanes e lustrosos de romantismo radiofónico, e outras canções que, não sendo de intervenção política, serão no mínimo de intervenção ideológica. O próprio ano de 1961, em que publicam "Garota" («...se eu beijar sua boca/ Deixará de ser garota/ Passará a ser mulher») e "Mãe Preta" (uma canção espantosa que fala da escravatura glosando a melodia do "Barco Negro" cantado por Amália) é um bom exemplo deste estado de coisas algo esquizóide: celebrados como verdadeiros ídolos em Angola – e ali impedidos pelos censores de interpretarem em palco parte do seu reportório – a presença mediática que conquistaram na metrópole fez com que aqui fossem olhados como um novo trunfo do regime, a garantia de que, apesar da guerra, a existência de um Portugal pluricontinental, como «muitas raças, um só povo» era um dado indesmentível.



O que não pode ser desmentido, porém, é que o verdadeiro trunfo do Duo Ouro Negro sempre foi a perspicácia e a actualidade da sua visão africanista, que também poderemos interpretar como uma fidelidade às origens. E isto apesar dos triunfos internacionais que lhes surgem pela frente logo na primeira metade dos anos 60, quando percorrem o norte da Europa e de lá regressam com versões em português dos Beatles ("Agora Vou Ser Feliz", em 1964, com nova letra sobre a melodia de "I Wanna Hold Your Hand") e de Charles Aznavour ("La Mamma") - antes ainda das actuações no Olympia parisiense (1965), das galas para os Príncipes do Mónaco (1966), do convite para o primeiro grande espectáculo televisivo da UNICEF e das primeiras actuações no Rio de Janeiro (1967). Estas últimas motivaram aliás nova explosão criativa, de início patente em temas como "Quando Cheguei ao Brasil": «Minha terra era Cabinda/ No Maiombe eu nasci/ Meu cantar era marimba/ Antes de vir para aqui// Quando cheguei ao Brasil/ Sem a minha liberdade/ Quando cheguei ao Brasil/ Tudo em mim era saudade». Era a celebração da diáspora africana, mas também o início do período afro-latino, que ao longo dos anos daria origem a temas como o espantoso "Moamba, Banana e Cola" (1969, com a orquestra de Jorge Leone), "Iemanjá" (1971), ou o encíclico "África Latina" (1979).


Comparativamente, a longa digressão pelo Extremo Oriente – a que o Duo se remete na primeira metade dos anos 70, após a sua exibição na Expo de Tóquio – não parece ter deixado grandes marcas no reportório que praticavam. Mais do que a miragem do que o nosso passado comum poderia ter sido, é a história de uma miragem de futuro, também ela invulgar, e que pode sintetizar-se, afinal, em breves linhas: «Sou da África Latina/ Sou do século 21/ Nossa gente está por cima/ Todos juntos somos um». É a grande vantagem das canções.

NOTA: Esta dupla coletânea, que uma vez mais aqui se disponibiliza, resultou do alargamento de um primeiro apanhado de trinta canções do Duo Ouro Negro intitulado "30 Pedaços de Saudades". Esse CD ocupa aqui a primeira parte desta coletânea (Disco 1)

23 comentários:

di(aphanous disse...

! ! ! (no other words needed except...)
Obrigado, senhor Rato.

Anonymous disse...

Grande compilação esta, muitos furos acima das que de vez em quando aparecem por aí. Mas não admira, pois tem o toque de alquimista do Rato que tudo o que toca transforma em ouro. Belissimo alinhamento, som magnífico, um título deveras original, uma capa bem aliciante. Que mais se pode exigir a uma coletânea com todos estes predicados? Acho que apenas uma coisa: que tenha o devido seguimento…

Fausto Morgado

Anonymous disse...

… e que pedaços! Obrigado Rato, por todas as memórias revividas neste blog. Estas do Duo Ouro Negro são apenas mais umas de entre tantas. Ainda me lembro de os ver ao vivo, julgo que no Teatro Monumental, não tenho a certeza. Mas onde não havia qualquer dúvida era na classe pura dos dois em palco. E uma coisa que associo quase de imediato às actuações deles eram aquelas entradas e saídas, um à frente do outro, ao ritmo da canção. Magníficos!
Acho que está para aí à venda um DVD editado pela RTP com bocados de actuações antigas. Quero ver se o encontro rapidamente pois a escuta de todos estes temas deixou-me com água na boca.
Parabéns por este blog que rapidamente se tornou numa referência básica para todos aqueles que apreciam o que realmente tem valor na música popular, nacional ou não. Então nos tempos que correm, este lugar é um autêntico oásis…

João Miguel Pereira

Anonymous disse...

Belissimo trabalho de divulgação. A fotografia inserida em cima na contracapa é histórica: quer pelas bebidas em cima da mesa quer pelo Hotel Estoril-Sol ao fundo: já não existem!
Daniela

Rato disse...

Olá Fausto, João Miguel e Daniela
Obrigado pelos vossos comentários. Realço o poder de observação da Daniela: realmente a baía de Cascais ficou mais pobre com o desaparecimento daquela “silhueta”. Infelizmente não é caso único, pois as cidades são organismos vivos, sempre em mudança constante. O problema é que essas mudanças raramente são para melhor.
Quanto ao DVD referido pelo João Miguel, é verdade, sim, eu também já o tenho. De certo modo foi uma desilusão – nestas coisas espera-se sempre o melhor e por isso raramente as nossas expectativas são preenchidas – sobretudo ao nível da qualidade do som e imagem. Acho que poderia ter sido feito um trabalho mais rigoroso. De qualquer modo dá para recordar alguns momentos da longa carreira do Duo. Espero é que se começem a editar os albuns originais, esses sim, de relevante importância.
Quanto a uma nova coletânea sugerida pelo Fausto, é provável que sim, mas mais lá para diante – assim eu consiga recuperar mais algumas pérolas antigas.

furyanimal disse...

obrigado pelo exelente disco

Ó disse...

Fiquei bastante contente pela iniciativa de relembrarem o Duo Ouro Negro. Há anos que tento que não se esqueçam do Raul e do Milo, pois deixaram um reportório magnífico, e é muito pouco reconhecido actualmente.
Tiveram uma carreira internacional que muito poucos terão tido oportunidade de igualar, passaram pelas melhores salas de espectáculo de todo o Mundo (fizeram o Olympia 16 vezes)... No tempo em que não era qualquer um que sentava naquele palco.

Já conhecia este artigo do expresso, li-o na altura que foi editado o cd duplo que comprei em 99. Aliás a última colectânea realmente boa até então!
Ainda não comprei o DVD, mas assim que o comprar farei uma referência e darei a minha opinião no meu blog.

Já agora, a fotografia que se estão a referir como o Hotel Estoril Sol, é na verdade a baía de Luanda com o banco do BCA ao fundo.
Esta foto foi tirada da Ilha de Luanda.

Excelente blog, os meus parabéns.

Rato disse...

Tens toda a razão Ó! Trata-se da baia de Luanda e não Cascais. Obrigado pela correção.

oldiesongs disse...

Hi Roto , how can I manage this to download as cannot find a thing to get it. Thanks Thijs

gin-tonic disse...

Caro Rato:
O que este trabalho sobre o "Duo Ouro Negro" - e não só! - permite concluir é que, mais dia menos dia, há que promover o blogue a SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA. Porque é isso que ele é!
O que deveria ser o trabalho das editoras dsicográfiacs, está a ser feito por ti. E pelas editoras têm passado as mais diversas pessoas ligadas à música desde cantores a compositores e que NADA fizeram! Lembra-me uma frase de François Rabelais lida, há dias, no "Público: "Conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam."
Kanimambo!

Rato disse...

Obrigado pelo comentário, Hugo, mas também é verdade que às vezes querer só não chega: há sempre a malfadada burocracia que faz emperrar muita coisa. Repara, por exemplo, no caso recente do "Tempo do Vinil": gente com interesse e interessada, que tenta remar contra a estagnação reinante, e que só gota a gota e a muito custo é que lá vai chegando a bom porto.

Unknown disse...

Olá Rato
Grande trabalho de divulgação...especialmente porque se trata de raridades. Só lamento não encontrar os links para descarregar. Se puder dar uma dica fico-lhe muito grato. Sou fã incondicional do Duo Ouro Negro e vi aqui t´tulos que creio nunca ter escutado.
Agradeço antecipadamente.
Um abraço e continuação do excelente trabalho.

Reinaldo Amarante disse...

Belo texto, agradável compilação a que faltaria um ou dois temas que eu gostaria de ver incluídos ("Nocturno" de Casimiro Ramos e "Cavaleiro Solitário"). Obrigado pela partilha.

Ó disse...

Caro amigo,
Há uns anos comentei por aqui esta iniciativa, mas não poderia mais uma vez deixar de o felicitar pelo excelente trabalho de pesquisa e promoção do que "é nosso". O Duo Ouro Negro deu, como poucos, muito pelo nosso país e merecem ser sempre recordados.
Mas há algo que não posso perdoar à VC, a desejada reedição integral do Blackground de 1971, um marco incontornável na carreira do Raul e do Milo. A Movieplay fê-lo com o de 1981, por duas vezes...

Um abraço,
Décio do Ó

Anónimo disse...

Sr. Rato
Felicitações pela música que nos proporciona, a qual enche nossos corações de amor, alegria, saudades e nos faz conhecer um novo mundo. A música e a poesia possibitam que isto seja possível.
Permita-me mencionar que o segundo link (Megaupload) do Duo Ouro Negro, leva a:
ratorecords_fapamovieland_2011.rar
que é de Fausto Pappetti e não o CD2 do Duo Ouro Negro.
Oxala que continue por muito tempo brindando-nos com suas perolas.
Saudações.
Chuncho

Anónimo disse...

Caro Rato
Muito obrigado pela disponibilização dos links. Pode crer que sou um apreciador incondicional do seu valioso trabalho que classifico de utilidade pública, não só pelas edições inovadoras de que esta casa é a fiel depositária como também pelas reposições raras com que nos tem brindado e que de outra forma nunca mais seriam ouvidas pelos frequentadores do seu blog. Bem-haja e continuação do excelente trabalho.

kalikas disse...

Foi uma sorte tem chegado a esta relíquia. Inseri no meu blog um excerto da carreira do Duo OuroNegro, com a canção GAROTA, e hoje, quiz renovar a imagem e no google encontrei um monte de capas fotos e escolho aquela onde eles estão sentados na esplanada do hotel Panorama, da Ilha de Luanda, vendo-se a baía e a marginal de Luanda. Cliquei e apanhei o RATO... QUE ALEGRIA encontrar algo tão responsável numa coletânia onde se nota muito de bom...
Sou quem lançou e gravou o primeiro disco do Ouro Negro em Luanda, e quem os levou ao palco do Restauração, em Luanda, numa apresentação do locutor Santos e Sousa. Não tenho tempo para mais. É madrugada e tenho de actualizar o meu blog ( www.meusescapes2.blogspot.com); Rato . Se quiser enriquecer o seu excelente trabalho com muito do que aqui não disse... contacte-me. Vc sabe como o fazer: Abraço, parabéns e sempre juntos. Obrigado. Carlos Pereira

Anónimo disse...

Excelente compilação, muito obrigado. Seria possível repor os links? Continuação de excelente trabalho.

rui rosalis disse...

Bom fim de semana amigo Rato...Não consigo baixar esta seleção de músicas do Ouro Negro que deve ser excelente.Há possibilidade de repôr os links.Aproveito para desejar Bom fim de semana e muita saúde.Abraço

rui rosalis disse...

Muito obrigado por esta seleção deliciosa do Ouro Negro...Tudo de Bom para si e para o blog...Abraço

Willians disse...

Obrigado pelo post. Aqui no Brasil temos pouca coisa do Duo. Descobri essa dupla nesse blog e achei massa. Esse blog é um dos melhores, as coletâneas que você faz são incríveis. Valeu.

Rochacrimson disse...

Grande compilação amigo Rato.
A melhor compilação que vi até agora. Melhor que muitas compilações que andam por aí.
Será possível uma nova reposição com novos links?
Obrigado!

Rochacrimson disse...

Muito obrigado pelo re-up!!!

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