Este disquinho pertence por direito próprio ao meu imaginário infantil. Foi comprado pela minha mãe logo que chegou às lojas da baixa de Lourenço Marques e foi dos primeiros EPs portugueses a morar lá por casa. Lembro-me que estava continuamente a rodar no meu gira-discos, um daqueles portáteis que pareciam umas maletas quando se fechavam. Corria o ano de 1960, eu tinha feito os 7 anos em Abril e estas 4 canções fizeram as delícias de toda a minha meninice. Ainda não havia Beatles, apenas o Elvis (de que nessa altura não era grande apreciador), o Cliff e os Seus Shadows (destes sim, fui fanzerrimo logo desde o início), o Bobby Darin também. Mas no campo nacional Os Conchas e o Daniel Bacelar eram sem qualquer dúvida os meus eleitos, alguns anos antes do Conjunto Académico João Paulo renovar as minhas preferências pela música pop feita em Portugal. Entretanto o mundo girou, vim acabar os estudos em Lisboa e circunstâncias várias tiveram como consequência que a maior parte dos meus discos de juventude ficassem perdidos para sempre em Moçambique, entre eles esta preciosidade. Tentei reavê-lo ao longo dos tempos mas sem qualquer êxito.
Há alguns anos atrás tive a sorte de vir a conhecer pessoalmente o Daniel Bacelar, que hoje em dia me orgulho de incluir num círculo restrito de amigos do peito, por ser alguém com quem se pode contar sempre, quer chova quer faça sol. Temos passado bons momentos juntos e descoberto afinidades em gostos pessoais, desde as músicas aos filmes de terror e ficção científica. Hoje, sábado, encontrámo-nos uma vez mais no lançamento do livro do Luís Mira, na Buchholz, em Lisboa. Estamos de novo em Abril, mas 50 anos depois. E o Daniel, sem disso se aperceber, fez-me recuar no tempo e descobrir de novo aquele menino de 7 anos ao oferecer-me um exemplar do disco, novinho em folha, e autografado em fotografia da época - «olha, toma lá, um passarinho disse-me que andavas à procura disto». Senti-me emocionado como há muito não me acontecia e só a custo consegui reter as lágrimas. Realmente é por momentos destes que vale a pena viver e na verdade existem coisas que felizmente o dinheiro não pode comprar. Um grande e sentido obrigado, Daniel, acredita que me fizeste muito, muito feliz.
(postagem original em 17 de Abril de 2010)









