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segunda-feira, 26 de abril de 2021

A "Ópera do Malandro" de CHICO BUARQUE

Edição original em LP Duplo Philips 6349 400/401
(BRASIL, 1979)

Quando os diretores de teatro Cláudio Botelho e Charles Moeller revelaram o principal motivo que os levou a encenar em 2003 a primeira montagem de "Ópera do Malandro" no século 21, ambos foram taxativos: «Chegamos à "Ópera do Malandro" pela paixão. Quem ouviu aquele famoso LP duplo lançado em 1979 ficou fissurado naquilo, nunca esqueceu», afirmavam em coro, constatando estar ali «o Chico do teatro na sua absoluta madureza». O disco é considerado a melhor lembrança da recriação que o compositor e cantor carioca fez das peças "A Ópera dos Três Vinténs" (1928) dos alemães Bertolt Brecht e Kurt Weill, e da "Ópera dos Mendigos" (1728) do inglês John Gay, com música do alemão Johann Pepusch. Muitas das canções compostas para a peça brasileira acabaram entrando no rol das obras-primas de Chico Buarque de Hollanda, como "O Meu Amor", "Folhetim", "Geni e o Zepelim", "Homenagem ao Malandro" e "O Malandro". Ou ainda "Canção Desnaturada", de grande densidade trágica.

O nascimento da ideia

A possibilidade de Chico Buarque escrever sua adaptação para a peça de Brecht e Weill surgiu numa conversa com Ruy Guerra, cineasta moçambicano radicado no Brasil. No entanto, o plano só começaria a se tornar realidade anos depois, quando o diretor teatral Luiz Antônio Martinez Corrêa procurou Chico Buarque, sugerindo que os dois montassem a peça juntos. Corrêa já havia feito a tradução da ópera de John Gay, que serviu também de ponto de partida para Brecht e Weill escreverem "A Ópera dos Três Vinténs". A "Ópera do Malandro" estreou no Teatro Ginástico no Rio de Janeiro em agosto de 1978, e do elenco faziam parte atores de grande prestígio como Ary Fontoura, Marieta Severo, Maria Alice Vergueiro e Otávio Augusto, numa montagem que foi grande sucesso de bilheteria. Para levar o musical aos palcos, Chico Buarque e Corrêa precisaram enfrentar inúmeros desafios, que iam da pressão dos patrocinadores da peça, que apressaram o andamento dos preparativos para a estreia, até os problemas que Chico teria com a censura.

Canções inesquecíveis

A trilha sonora do musical só seria lançada um ano após a estreia por vontade do próprio Chico, que evitou que o disco saísse antes da montagem para que as músicas não ficassem banalizadas e esvaziassem o musical. O compositor chegou a pensar em gravar o disco duplo com alguns dos atores interpretando as canções, mas a Philips (hoje Universal), sua gravadora na época, preferiu optar por cantores profissionais já conhecidos do grande público. O resultado foi um álbum com gravações de João Nogueira, Gal Costa, Moreira da Silva, Marlene, Alcione e Francis Hime. Além deles, participaram também os grupos MPB-4, A Cor do Som, e Frenéticas, bem como as cantoras Nara Leão e Zizi Possi. Multicromática, a musicalidade de Chico estava à flor da pele, passando por diversos gêneros musicais brasileiros e latino-americanos como choro, xaxado, bolero, samba, marcha carnavalesca, mambo, tango, e chegando até o rock e o charleston norte-americanos. Ou seja, tudo aquilo que levou o crítico musical Tárik de Souza a perceber no autor de "Apesar de Você" um habilidoso criador, que não se deixa escravizar pela estética tradicionalista: «Musicalmente liberado para incursionar em todos os ritmos e gêneros, Chico tornou-se, paradoxalmente, um incendiário tropicalista». Arturo Gouveia, professor de Literatura Brasileira e doutor em Letras pela USP, endossa a visão de Tárik em seu ensaio "A Malandragem Estrutural", publicado no livro "Chico Buarque do Brasil", da Editora Garamond e Edições Biblioteca Nacional: «A "Ópera do Malandro" irmana-se com muitas das ambições vanguardísticas da primeira metade do século 20. Embora Chico Buarque não se declare vanguardista ou não demonstre, em suas concepções, qualquer afinidade eletiva com esses movimentos de ruptura, há vínculos inegáveis que podem até escapar da consciência imediata da autoria».

Chico e os alemães

Pouco antes de encarar a tarefa de adaptar as peças alemã e inglesa para a realidade carioca, Chico Buarque já havia se lançado numa bem-sucedida versão de "Os Saltimbancos", original dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, um trabalho realizado em parceria com o italiano Sérgio Bardotti e o argentino Luis Enríquez Bacalov. A história contada na "Ópera do Malandro" se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Getúlio Vargas era presidente do Brasil. O epicentro é o bairro boêmio da Lapa. Chico optou por inserir a "Ópera dos Três Vinténs" na década de 1940 como estratégia para fugir da censura. «Até Brecht tomou suas cautelas e localizou sua ópera no início do século. John Gay ainda colocou no palco o ministro da Justiça de sua época, 1728. Mas hoje isso não é possível. Fatalmente seriam identificados os policiais corruptos com os que todos conhecem. Os problemas que surgiriam não deixariam a peça ser encenada», afirmou Chico à imprensa na época do lançamento da peça.


Bertolt Brecht, o mito

Quando Chico Buarque escreveu a "Ópera do Malandro", ele já vinha de experiências muito intensas com o teatro. Primeiro ao compor em 1967 (um ano após o estouro com "A Banda") a trilha de "Morte e Vida Severina", sobre poema de João Cabral de Mello Neto. Depois viriam "Roda Viva", peça que provocou sua prisão e posterior autoexílio em Roma, "Calabar", que foi proibida pelos militares, e "Gota d'Água" (escrita com Paulo Pontes). Nos anos 1960, Bertolt Brecht era uma das maiores referências dos principais autores e grupos teatrais brasileiros. De Augusto Boal a Oduvaldo Vianna Filho, de José Celso Martinez Corrêa a Plínio Marcos, passando por Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros, as peças de Brecht eram sinônimo de engajamento político e de pesquisa por novas formas de dramaturgia. Sua teoria do distanciamento crítico, baseada na ideia de que uma peça teatral não deveria transportar o espectador para um mundo fictício, e sim despertá-lo para a realidade reflexiva, inspirou grupos como o Arena, o Oficina, o Opinião e posteriormente o Ornitorrinco a criar aquele que é para muitos o melhor momento da história do teatro brasileiro.
Felipe Tadeu

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Querido PABLO MILANÉS

Original released on Double LP Ariola ES-XD 302485
(ESPAÑA, 1985)


Along with Silvio Rodriguez, Pablo Milanés was one of the crucial figures in Cuba's nueva trova popular-song movement of the late '60s; sponsored by Fidel Castro's government, the collective of nueva trova musicians were essentially supposed to reconfigure and update traditional Cuban folk musics for the nation's new, modern, post-revolutionary society. Milanés gained renown for his highly poetic lyrics and smooth yet emotional singing, becoming one of the most popular and respected Cuban musicians and songwriters of the late 20th century, and releasing a hefty number of records. He is a controversial figure to some - exiles despise his staunch support of Castro, while others criticize his musical forays into sentimental, orchestrated jazz-pop - but his status as one of the most important links between traditional and contemporary Cuban music has remained virtually unassailable into the new millennium. (Steve Huey in AllMusic)

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

CHICO BUARQUE: "Chico"

Edição original em CD Digipak Biscoito Fino BF 380
(BRASIL 2011, Julho 20)

A towering figure in the history of Brazilian culture, Chico Buarque has been progressively distancing himself from music, choosing instead to concentrate on his many other projects, such as his internationally acclaimed novels. Contrary to his restless peer Caetano Veloso, Buarque has always been a classicist, either working inside traditional genres such as the samba and the choro (rather than blowing them apart) or coming up with new ones. Looking back at his 45-year career (and almost as many albums), it is easy to understand Buarque when he says he is not writing songs anymore because he feels he has exhausted himself; after all, the man has written literally hundreds of undisputed masterpieces. His most recent offerings have been few and far between, and in the greater scheme of things will probably add little to his monumental legacy. Still, considering that in all of his life Buarque has been unable to write a single tune that is not at the very least utterly beautiful - not unlike his mentor Tom Jobim - the ten new songs on "Chico" are customarily unimpeachable. The same verdict applies to all of the elements that make Buarque's music so maddeningly, monolithically perfect: from his immaculate arrangements to his unerring choice of musical partners, his deeply tender voice, and his brilliant songwriting, everything is in place in this succinct, melancholic, almost non-assuming collection - only not at quite the same impossible heights. Finally, even if these (or any other!) songs may find it too hard to break into the Buarque pantheon at this point, the duet with rising star Thaís Gulin in "Se Eu Soubesse" demonstrates once again that no one writes for female singers like Chico Buarque, and the one with João Bosco in "Sinhá" offers further proof of his supreme literary skills. (Mariano Prunes in AllMusic)


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

CHICO BUARQUE 78



Edição original em LP PHILIPS 6349398
(BRASIL 1978)

Para testar a tal da “abertura lenta e gradual” prometida pelo governo da altura, Chico Buarque empacotou no disco homônimo de 1978 canções geniais e quase míticas que foram tesouradas pelos milicos, como "Cálice", "Apesar de Você" e "Tanto Mar" (versão 2). Os críticos (e comentaristas da internet de hoje) podiam bem dizer que a inclusão dessas músicas foi nada mais que um gesto preguiçoso para encher o buraco de um disco meio colcha de retalhos, mais até que o anterior. O problema, para os críticos, é que com a qualidade desses retalhos qualquer colcha vira uma obra de arte. Mas o que mais chamou a atenção na época, segundo contam, não foi nenhum detalhe artístico, e sim a mudança de visual de Chico. A capa do disco o estampava sem o bigode que ostentou por boa parte dos anos setenta. "O que aquele gesto representava?", perguntavam-se intelectuais, filósofos, políticos e generais? Um protesto silencioso contra a ditadura? Uma propaganda disfarçada da Gilette? O prenúncio de uma revolução estética? Ou só um jeito de pegar (ainda mais) mulher? Com a palavra, os comentaristas de internet…

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

CHICO BUARQUE: "Meus Caros Amigos"

Edição original em LP Philips 6349 189
(BRASIL, 1976)

"Meus Caros Amigos" lacks the diversity, emotional range, and formal grace of "Construção". It's too consistent for its own good. Every song here is at least pretty, some are gorgeous, and a few are even emotionally complex enough to register that restless baroque anxiety on "Construção"'s best songs, but I get the sense that, while he's at his peak on "Meus Caros Amigos", he's coasting. On "Construção", he never seems satisfied: there are already plenty of pretty bossa nova and samba songs in the world, and so his exploration of their tropes is ruthlessly interrogative. In a similar fashion to Brian Wilson's "Smile" sessions, "Construção" evolves by refraining previously established melodies over new ones. The basic ingredients of each song on his masterpiece are introduced in the first track, and in an unfolding narrative of sound, each song evolves out of the last. Buarque's feats of re-contextualization can sound shockingly clever. On "Meus Caros Amigos", however, you get a collection of b plus/a minus songs without any conceptual glue to hold them together. They flow smoothly enough. "Meus Caros Amigos" is a minor classic, for sure, but it can seem slight in "Construção"'s shadow. If you're off the heels of that album and desperate for more Buarque, though, you're in luck. There is plenty here that echoes "Construção"'s aesthetic - it's just rarely sublime. After that tragic feeling singular masterpieces can leave you with - that they're not reproducible, that their vision is limited to a 40 minute excursion, this album is a richer way forward than many other second best albums by other artists. (in RateYourMusic)

A década de 1970 viu um Chico Buarque produtivo e intenso, provavelmente o período em que o artista lançou seus álbuns mais importantes. Chico se mostrava naquele Brasil mergulhado numa ditadura militar que já duravam 12 anos, um artista engajado e relevante, não só nos discos que lançava, mas também escrevendo roteiros para peças teatrais e compondo trilhas sonoras para o cinema e teatro. O álbum "Meus Caros Amigos" representa uma espécie de comunhão das ações do cantor nas áreas da música, do cinema e do teatro naquele momento. Lançado em 1976, em pleno governo do presidente militar Ernesto Geisel, "Meus Caros Amigos" traz canções compostas por Chico para o cinema como “O Que Será (A Flor Da Terra)” para o filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos", “Vai trabalhar Vagabundo” (para o filme homônimo), “Passaredo” e “A Noiva da cidade” para o filme "A Noiva Da Cidade"; e para o teatro “Mulheres de Atenas” para a peça "Lisa, a Mulher Libertadora", e “Basta Um dia” para a peça "Gota D’Água".

O álbum começa com “O Que Será? (À Flor Da Terra)”, em que Chico Buarque faz um dueto com Milton Nascimento. A música foi tema principal do filme "Dona Flor E Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, baseado no livro homônimo de Jorge Amado, e que estreou nos cinemas em 1976. A faixa seguinte, “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque e do dramaturgo Augusto Boal, foi composta para a peça teatral "Lisa, a Mulher Libertadora", do próprio Boal. O espetáculo era baseado na comédia grega Lisístrata, escrita pelo dramaturgo grego Aristófanes, em 411 a.C. Por muito tempo, erroneamente os autores da canção foram acusados de fazerem apologia à submissão feminina ao machismo. Na verdade, a proposta da canção era justamente o contrário: era alertar as mulheres do nosso tempo a não repetirem a condição de subserviência à que eram condenadas as mulheres da Antiga Grécia, daí o verso 'Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas'. Inspirada nos poemas épicos “Ilíada” e “Odisseia”, ambas de Homero, “Mulheres de Atenas” carrega toda uma atmosfera melancólica na melodia e nos seus versos que demonstram a submissão feminina na Antiga Grécia: 'Elas não têm gosto ou vontade / Nem defeito, nem qualidade / Têm medo apenas / Não têm sonhos, só presságios / O seu homem, mares naufrágios / Lindas sirenas, morenas'.

“Olhos Nos Olhos” foi composta por Chico especialmente para Maria Bethânia gravar, o que acabou acontecendo quando ela gravou para o seu álbum "Pássaro Proibido", lançado em 1976, mesmo ano de "Meus Caros Amigos". Na versão gravada por Chico, o cantor manteve os versos no feminino, da mesma maneira que Bethânia gravou. No bolero “Você Vai Me Seguir”, Chico canta acompanhado do grupo MPB 4 sobre um amante dominador que exerce poder sobre a amada: 'Você vai me seguir / aonde quer que eu vá / Você vai me servir, você vai se curvar...'. Mas no decorrer da canção, ele acaba sendo subjugado pela amada antes submissa: 'Você vai me trair, você vai me beijar / Você vai me cegar e eu vou consentir / Você vai conseguir enfim me apunhalar...'. Fechando o lado B do álbum, “Vai Trabalhar, Vagabundo”, música do filme homônimo, de 1973. Esse samba é sobre um malandro que se julga esperto e quer levar a vida sem fazer o menor esforço.

Abrindo o lado B de "Meus Caros Amigos", o samba “Corrente” apresenta um curioso jogo de inversão de versos. Há quem afirme que seria uma estratégia empregada por Chico Buarque para fazer uma crítica velada à ditadura militar e driblar a censura. A música começa com os versos 'Eu hoje fiz um samba bem pra frente / Dizendo realmente o que é que eu acho / Eu acho que o meu samba é uma corrente / E coerentemente assino embaixo...'. Do meio pro fim, os versos se invertem: 'Isso me deixa triste e cabisbaixo / Por isso eu fiz um samba bem pra frente / Dizendo realmente o que é que eu acho / Eu acho que o meu samba é uma corrente...'. Na sequência, duas canções compostas para o filme "A Noiva da Cidade", de Alex Vianny, e que estreou nos cinemas em 1978: “A Noiva da Cidade” e “Passaredo”. “A Noiva da Cidade” possui versos que fazem alusão às cantigas de ninar do folclore brasileiro ('Que papai tá na roça / E mamãe foi passear...') e ao mesmo tempo, traz versos com um certo tom de erotismo ('Ai, como essa moça é distraída / Sabe lá se está vestida / Ou se dorme transparente...'). Com temática ecológica, “Passaredo” faz um alerta sobre a ameaça predatória do homem sobre as aves. A canção possui uma flauta que parece simular o canto de uma ave, bem condizente com o tema central da música. É talvez a faixa com os arranjos mais bonitos do álbum. Isso se deve ao trabalho de Francis Hime, parceiro de Chico e responsável pela direção artística e pelos arranjos de boa parte das faixas do álbum.

A faixa seguinte é “Basta Um Dia”, música composta por Chico Buarque para a peça teatral "Gota D’Água", em 1975. Com roteiro escrito pelo próprio Chico e por Paulo Pontes, a peça ganhou o Prêmio Molière. No ano seguinte, Chico gravou a canção para "Meus Caros Amigos". O álbum fecha com chave de ouro com “Meu Caro Amigo”, uma canção que Chico e Francis Hime compuseram dedicada a Augusto Boal. Exilado em Portugal e longe do Brasil, Boal buscava notícias da terra natal. A letra da canção foi escrita como se fosse uma carta dirigida a um amigo contando as novidades. Entre um trecho e outro falando de novidades do cotidiano, destaca-se o verso 'Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta', uma referência sutil ao momento político do Brasil na época, sob o domínio de um regime ditatorial. “Meu Caro Amigo” tem um arranjo de choro, o que dá um tom nostálgico à canção. Um grupo de músicos consagrados do choro acompanharam Chico Buarque como o flautista Altamiro Carrilho, o violonista Dino 7 Cordas, o clarinetista Abel Ferreira, o bandolinista Joel Nascimento entre outros.

"Meus Caros Amigos" emplacou quase todas as faixas. “O Que Será (À Flor da Terra)” fez um enorme sucesso, foi uma das músicas mais executadas no rádio em 1976. Enquanto isso, o filme do qual a canção foi tema principal, "Dona Flor E Seus Dois Maridos", levou mais de 10 milhões de espectadores às salas de cinema em todo o Brasil. “Vai trabalhar, Vagabundo”, que já era conhecida do grande público por causa do filme homônimo três anos antes, voltou a fazer sucesso quando foi incluída no album. É impossível ouvir esse samba sem lembrar-se do personagem malandro interpretado por Hugo Carvana, que além de ator protagonista, foi o diretor do filme. “Mulheres de Atenas”, “Olhos Nos Olhos” e “Meu Caro Amigo” também tiveram boa execução radiofônica e estão entre os grandes sucessos da carreira de Chico Buarque.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

CHICO BUARQUE: "Sinal Fechado"

Edição original em LP Philips 6349 122
(BRASIL, 1974)

Em Março de 1974, assumia a presidência do Brasil o general Ernesto Geisel, que fora escolhido pelo Colégio Eleitoral, em Janeiro deste mesmo ano. O clima era de muita tensão, afinal, o antecessor, general Emílio Garrastazu Médici, permitira a expansão da ala repressiva dos militares e, como a pior das consequências, vários assassinatos foram cometidos. Além da violência física, o controle sobre órgãos da imprensa acirrou. Na economia, o plano de governo buscou um modelo de crescimento baseado no Estado e nas multinacionais que, mais tarde, embalado pelo consumismo e pelo futebol tricampeão do Brasil, em 1970, seria chamado de “milagre econômico”. Diante deste panorama, Geisel assume e meses depois promete uma distensão gradual e segura. Mas no ínterim, cassa e prende o deputado baiano Chico Pinto, porque condenara em uma declaração à imprensa a presença do ditador chileno Augusto Pinochet no Brasil. Havia, no entanto, um esforço no sentido da atenuação da repressão: representantes da Igreja eram ouvidos pelo governo, a fim de tratar das questões de tortura e de desaparecidos, ao mesmo tempo em que sinalizava com possibilidades de eliminar a censura – que continuava, para todos os efeitos. Foi neste período que censores proibiram o cenário do show “Tempo e Contratempo”, com o MPB-4. Posteriormente, a própria gravação do disco do grupo recebeu veto, não escapando da proibição.

Para Chico Buarque, que acabara de ver censurada "Calabar", peça de teatro musicada, escrita em 1973 em parceria com Ruy Guerra, a situação ficou insustentável. Neste período, havia uma proporção de duas músicas vetadas para uma liberada, com cortes. Deste modo não haviam canções suficientes para um novo disco. Foi quando entrou em cena o jogo de cintura: o LP "Sinal Fechado", com interpretações de outros compositores, dentre os quais, Julinho de Adelaide – cuja canção, “Acorda, Amor”, tornou-se um dos grandes sucessos do disco. A grande sacada de "Sinal Fechado" estava baseada na seguinte teoria de Chico: compositores que já tivessem uma letra proibida ficavam marcados numa lista maldita, da censura. Algumas canções eram vetadas simplesmente por terem o nome no índex. E foi assim, ao apostar na suposta lista – e na falibilidade dos censores – que nasceu “Acorda, Amor”, tendo como autores Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, contra os quais não pesava nenhuma suspeita. Chico acertou na mosca e a canção foi aprovada sem restrições. A imprensa, apesar de censurada, sobre este assunto estava bem informada e ironizava os censores, noticiando a descoberta de um “novo compositor” oriundo da favela da Rocinha. A letra de “Acorda, Amor” descreve as circunstâncias da prisão de um indivíduo que, atemorizado pelos ruídos dos homens dentro da residência, pede à mulher que desça as escadas para checar o que acontece. Episódio muito parecido com a prisão de Chico Buarque, em dezembro de 1968, que na ocasião fora surpreendido dentro de casa por agentes da ditadura que o levariam para depor.

Em Setembro de 1974, Julinho de Adelaide cedeu uma entrevista ao dramaturgo Mario Prata, publicada no jornal Última Hora, de São Paulo. Nela, não se poupou elogios à censura e a “revelação da MPB” até demonstrava um pouco de ciúme de Chico Buarque. A estratégia de usar um alter ego já havia dado certo em 1973, na canção “Jorge Maravilha”, cantada pela primeira vez no concerto "O Banquete dos Mendigos", idealizado e dirigido por Jards Macalé. Neste episódio, para conseguir a liberação, Chico inseriu a letra que lhe interessava misturada a outros textos, como uma espécie de despiste. A canção foi enviada à Polícia Federal, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Não havia obrigação de gravar todo o conteúdo aprovado, assim, as partes iniciais e finais das estrofes foram excluídas. Logo os mais atentos perceberam uma referência ao general Geisel, cuja filha, Amália Lucy, era admiradora assumida de Chico. O Jornal do Brasil publicou uma matéria sobre censura em 1975 e nela revelou que Julinho de Adelaide e Chico Buarque se tratavam da mesma pessoa. A Polícia Federal passou a exigir cópias de RG e do CPF dos autores, a partir de então, a fim de evitar a manobra de contorno à censura. Sob o pseudônimo de Julinho de Adelaide, Chico ainda deixou a canção “Milagre brasileiro”. (Angelo Stroparo)

sábado, 25 de maio de 2019

Chico Buarque Canta

Edição Original em LP Philips 6349 093
(BRASIL, 1973)

O disco conta com arranjos do músico Edu Lobo e é a trilha sonora da peça Calabar: O Elogio da Traição, de Chico Buarque e do poeta moçambicano Ruy Guerra. O conceito da peça e do disco baseia-se na história de Domingos Calabar, personagem histórico que se aliara aos holandeses contra os portugueses na época do Brasil Holandês. O nome do disco, a princípio, seria "Chico Buarque Canta Calabar", nome que logo foi vetado devido à sigla CCC e sua relação com a organização Comando de Caça aos Comunistas. Sua primeira tiragem – que seria retirada das lojas por ordem do Regime Militar poucos dias após o lançamento – tinha o título de "Calabar" e apresentava como capa o nome da peça na parede de um muro. O trabalho ainda seria lançado pouco tempo depois com uma capa branca, apenas com o nome do cantor, sem qualquer publicidade, obtendo vendagens tímidas. Em virtude de tal fato, a gravadora Philips lançou no ano posterior uma nova e definitiva capa com o rosto do cantor e um novo título, "Chico Canta"O álbum, assim como a peça teatral, teve diversos trechos censurados. Na visão da Censura, Chico (que possui ascendência holandesa) e Ruy apresentaram um trabalho provocativo, simpático à colonização batava contra o domínio colonial português, e que, metaforicamente, poderia incitar os brasileiros a se revoltarem contra a ditadura militar dominante no país à época. Para Chico, "Calabar" poderia remeter de certa forma a Carlos Lamarca, capitão que em 1969 desertara do Exército Brasileiro e engessara as trincheiras guerrilheiras contra a Ditadura Militar. Duas canções tiveram as letras integralmente proibidas, “Ana de Amsterdam” e “Vence na Vida Quem Diz Sim”, de modo que acabaram sendo lançadas apenas em seus arranjos instrumentais. “Barbára” teve cortada a frase “no poço escuro de nós duas”, por abordar uma relação de lesbianismo. “Não Existe Pecado...” teve a frase "Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor" substituída por "Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor". Na canção “Fado Tropical”, que possui um trecho declamado por Ruy Guerra, a frase “além da sífilis é claro” foi excluída, ao aludir ao “sangue português” de um dos personagens da peça. Musicalmente, o disco apresenta um vigoroso trabalho de arranjos por Edu Lobo, com a inclusão de novidades como sintetizadores, guitarra elétrica e cordas, e o lançamento de algumas das melhores canções do repertório de Chico Buarque como “Ana de Amsterdam”, “Cala a Boca, Bárbara” e “Não Existe Pecado ao Sul do Equador” (esta última regravada em 1978 pelo cantor Ney Matogrosso para o tema de abertura da telenovela “Pecado Rasgado” da TV Globo).

FICHA TÉCNICA:
Coordenação Geral: Ruy Guerra
Direção de Produção: Roberto Menescal
Direção de Estúdio: Sérgio M. de Carvalho
Arranjos: Edu Lobo
Regência: Mário Tavares
Capa: Regina Vater

A Construção do Chico


Edição original em LP Philips 6349 017
(BRASIL, 1971)


“Construção” foi o álbum que Chico Buarque lançou em 1971, e compôs entre o exílio em Itália e o seu regresso ao Brasil. Liricamente, o álbum é carregado de críticas ao regime militar vigente nessa altura, principalmente no que concerne à censura imposta pelo governo e pelo estado indigno ao qual tinham chegado as condições sociais no país. O disco marca o aguçamento da vertente crítica da poética do autor. Se antes ele harmonizava Bossa Nova com composições veladamente críticas à ditadura brasileira, em "Construção" o compositor mostrou-se mais ousado - como indica os versos iniciais de "Deus lhe Pague", faixa que abre o LP («Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir»). Em "Samba de Orly", parceria com Toquinho e Vinicius de Moraes, Chico canta abertamente sobre o exílio - o que fez com que a canção fosse parcialmente censurada. A faixa-título é uma crítica sobre um homem que trabalhou arduamente até à sua morte. Não faltaram também o lirismo característico do artista, como demostrado em "Olha Maria" e "Valsinha". O álbum conta com arranjos de Magro, então integrante do grupo MPB-4, e do maestro Rogério Duprat. “Construção” teve grande sucesso comercial. Nas primeiras semanas após seu lançamento, o LP chegou a ter pedidos de 10.000 discos por dia, o que levou a Philips a contratar duas gravadoras concorrentes para prensá-los, além de obrigar o trabalho em turnos de 24 horas por dia durante quase dois meses. Até então, a gravadora nunca havia vendido tantos discos em tão pouco tempo - 140 mil cópias nas primeiras quatro semanas. “Construção” foi considerado um marco na música brasileira e na carreira do cantor. Em 1972, uma reportagem da revista revista Realidade elogiava o álbum, considerado «o melhor disco feito nos últimos vinte anos no Brasil».


terça-feira, 10 de julho de 2018

CAETANO e CHICO Juntos e Ao Vivo

Edição original em LP Philips 6349 059
(BRASIL, Dezembro 1972)

This album is absolutely essential. To star with, this is not a fake live, the concert took place at Teatro Castro Alves, Salvador da Bahia (Brasil), on the November 10th and 11th of 1972. Some of the crowd noise were inserted in the tracks because of the censorship on some passages as if they were boos. Even there were parts of "Bárbara" that could not be pronounced. The lyrics of Ana de Amsterdam also did not enter Chico's next album "Calabar" because of the censorship. The repertoire includes the best of what both songwriters had produced so far. Caetano's peculiar rage in the rendition of "Partido Alto" and "Tropicália" makes it unique. (in RateYourMusic)

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