Ao folhear o nº 13 da revista “Mundo da Canção” de 15 de Dezembro de 1970, deparou-se-me um curioso texto sobre a separação dos Beatles e a sua importância relativamente a outros grupos da época. Por ter a assinatura de uma figura de destaque da música portuguesa não resisti a relembrar aqui esse texto. Que comentário lhe mereceria o seu autor, quase quarenta anos depois?
«O desaparecimento dos Beatles é uma lacuna que fica para sempre na Pop Music. No entanto não é irremediável para a continuação dessa Pop Music. Os Beatles há mais de quatro anos que eram um conjunto de estúdio e aí muitas deficiências podem ser disfarçadas. Os Beatles também há algum tempo brincavam com o mau gosto como por exemplo em “Ballad of John and Yoko” e “Ob-la-di, Ob-la-da” embora o seu último LP “Let It Be” seja das suas melhores obras. No entanto os tempos de “Yesterday”, “Here, There and Everywhere” e “Sgt. Pepper’s” iam longe e alguns conjuntos como Led Zeppelin, Cream, Blood Sweat and Tears, Chicago, Creedence Clearwater Revival e Crosby, Stills, Nash & Young, menos artificiais, e actuando ao vivo vinham a ganhar terreno na consciência dos que se interessam por «estas coisas» da Pop Music. Os Beatles desapareceram, talvez nunca mais produzam nada em conjunto mas actualmente, a sua perda não é tão terrível como teria sido há cinco anos atrás. Os Beatles já não eram os melhores, eram simplesmente um dos melhores o que é diferente.

Os Cream constituíram o melhor trio até hoje conseguido na Pop Music. Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker dois anos depois de se desligarem musicalmente foram cotados em Melody Maker como o melhor solista, o melhor viola-baixo e o melhor baterista do ano. Mais do que isso eles fizeram escola e constituíram um movimento de toda a música progressiva de hoje com a dos Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, Mothers Of Invention, etc... Por isso os Cream não acabaram, eles estão bem vivos em toda a música actual, mais do que os próprios Beatles cujas obras continuam a ser «embaladas luxuosamente» por todas as orquestras afinadinhas do mundo.
Os Beatles ou os Stones? Já não se pode fazer a pergunta porque os primeiros abandonaram mas a subida ao trono pelos Stones não é uma vitória por desistência, é simplesmente uma vitória.
Os dois grupos formaram-se ao mesmo tempo mas os Beatles deram-se mais depressa a conhecer através de uma publicidade mais bem feita, primeiro: não desagradar totalmente aos «menos novos», segundo: cabeleiras sim, mas penteadinhas e lacadas, terceiro: ar inofensivo, quarto: fatos de corte irrepreensível com gravata e assim os papás ficavam enternecidos a ouvir os seus filhos cantar “Eu quero agarrar a tua mão”, “Gosto de dançar contigo”, etc... enquanto os Rolling Stones cantavam blues e country sound, como se tivessem nascido em Harlem ou Louisiana ou Nova York, deixando crescer desordenamente o cabelo, aparecendo em palco sem concessões ou «sorrizinhos» para capas de revista. O facto de terem sido perseguidos pela imprensa, censura e entidades oficiais inglesas e americanas fez com que toda a juventude se alinhasse atrás deles e a perseguição teve efeito contrário. Mick Jagger torna-se o símbolo da Juventude actual naqueles dois países e o mesmo começa a acontecer na Europa.
Numa época em que a publicidade pode ter importância decisiva no lançamento de um grupo os Stones nunca se serviram dela mas, muitos sectores da imprensa internacional se utilizaram deles tentando colocá-los em xeque. De nada valeu. Ei-los no seu trono, o de personalidade, de bom gosto, de intransigência.»
Este texto é da autoria de José Cid, que no Quarteto 1111 e logo no ano seguinte, em 1971, comporia uma canção – homenagem intitulada “Ode to The Beatles”. Ele há coisas...