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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

NEIL YOUNG ~ "RUST NEVER SLEEPS"

Original released on LP Reprise HS 2295 (US 1979, July 9)

Filmed at the Cow Palace, San Francisco, on October 22, 1978


segunda-feira, 26 de abril de 2021

A "Ópera do Malandro" de CHICO BUARQUE

Edição original em LP Duplo Philips 6349 400/401
(BRASIL, 1979)

Quando os diretores de teatro Cláudio Botelho e Charles Moeller revelaram o principal motivo que os levou a encenar em 2003 a primeira montagem de "Ópera do Malandro" no século 21, ambos foram taxativos: «Chegamos à "Ópera do Malandro" pela paixão. Quem ouviu aquele famoso LP duplo lançado em 1979 ficou fissurado naquilo, nunca esqueceu», afirmavam em coro, constatando estar ali «o Chico do teatro na sua absoluta madureza». O disco é considerado a melhor lembrança da recriação que o compositor e cantor carioca fez das peças "A Ópera dos Três Vinténs" (1928) dos alemães Bertolt Brecht e Kurt Weill, e da "Ópera dos Mendigos" (1728) do inglês John Gay, com música do alemão Johann Pepusch. Muitas das canções compostas para a peça brasileira acabaram entrando no rol das obras-primas de Chico Buarque de Hollanda, como "O Meu Amor", "Folhetim", "Geni e o Zepelim", "Homenagem ao Malandro" e "O Malandro". Ou ainda "Canção Desnaturada", de grande densidade trágica.

O nascimento da ideia

A possibilidade de Chico Buarque escrever sua adaptação para a peça de Brecht e Weill surgiu numa conversa com Ruy Guerra, cineasta moçambicano radicado no Brasil. No entanto, o plano só começaria a se tornar realidade anos depois, quando o diretor teatral Luiz Antônio Martinez Corrêa procurou Chico Buarque, sugerindo que os dois montassem a peça juntos. Corrêa já havia feito a tradução da ópera de John Gay, que serviu também de ponto de partida para Brecht e Weill escreverem "A Ópera dos Três Vinténs". A "Ópera do Malandro" estreou no Teatro Ginástico no Rio de Janeiro em agosto de 1978, e do elenco faziam parte atores de grande prestígio como Ary Fontoura, Marieta Severo, Maria Alice Vergueiro e Otávio Augusto, numa montagem que foi grande sucesso de bilheteria. Para levar o musical aos palcos, Chico Buarque e Corrêa precisaram enfrentar inúmeros desafios, que iam da pressão dos patrocinadores da peça, que apressaram o andamento dos preparativos para a estreia, até os problemas que Chico teria com a censura.

Canções inesquecíveis

A trilha sonora do musical só seria lançada um ano após a estreia por vontade do próprio Chico, que evitou que o disco saísse antes da montagem para que as músicas não ficassem banalizadas e esvaziassem o musical. O compositor chegou a pensar em gravar o disco duplo com alguns dos atores interpretando as canções, mas a Philips (hoje Universal), sua gravadora na época, preferiu optar por cantores profissionais já conhecidos do grande público. O resultado foi um álbum com gravações de João Nogueira, Gal Costa, Moreira da Silva, Marlene, Alcione e Francis Hime. Além deles, participaram também os grupos MPB-4, A Cor do Som, e Frenéticas, bem como as cantoras Nara Leão e Zizi Possi. Multicromática, a musicalidade de Chico estava à flor da pele, passando por diversos gêneros musicais brasileiros e latino-americanos como choro, xaxado, bolero, samba, marcha carnavalesca, mambo, tango, e chegando até o rock e o charleston norte-americanos. Ou seja, tudo aquilo que levou o crítico musical Tárik de Souza a perceber no autor de "Apesar de Você" um habilidoso criador, que não se deixa escravizar pela estética tradicionalista: «Musicalmente liberado para incursionar em todos os ritmos e gêneros, Chico tornou-se, paradoxalmente, um incendiário tropicalista». Arturo Gouveia, professor de Literatura Brasileira e doutor em Letras pela USP, endossa a visão de Tárik em seu ensaio "A Malandragem Estrutural", publicado no livro "Chico Buarque do Brasil", da Editora Garamond e Edições Biblioteca Nacional: «A "Ópera do Malandro" irmana-se com muitas das ambições vanguardísticas da primeira metade do século 20. Embora Chico Buarque não se declare vanguardista ou não demonstre, em suas concepções, qualquer afinidade eletiva com esses movimentos de ruptura, há vínculos inegáveis que podem até escapar da consciência imediata da autoria».

Chico e os alemães

Pouco antes de encarar a tarefa de adaptar as peças alemã e inglesa para a realidade carioca, Chico Buarque já havia se lançado numa bem-sucedida versão de "Os Saltimbancos", original dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, um trabalho realizado em parceria com o italiano Sérgio Bardotti e o argentino Luis Enríquez Bacalov. A história contada na "Ópera do Malandro" se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Getúlio Vargas era presidente do Brasil. O epicentro é o bairro boêmio da Lapa. Chico optou por inserir a "Ópera dos Três Vinténs" na década de 1940 como estratégia para fugir da censura. «Até Brecht tomou suas cautelas e localizou sua ópera no início do século. John Gay ainda colocou no palco o ministro da Justiça de sua época, 1728. Mas hoje isso não é possível. Fatalmente seriam identificados os policiais corruptos com os que todos conhecem. Os problemas que surgiriam não deixariam a peça ser encenada», afirmou Chico à imprensa na época do lançamento da peça.


Bertolt Brecht, o mito

Quando Chico Buarque escreveu a "Ópera do Malandro", ele já vinha de experiências muito intensas com o teatro. Primeiro ao compor em 1967 (um ano após o estouro com "A Banda") a trilha de "Morte e Vida Severina", sobre poema de João Cabral de Mello Neto. Depois viriam "Roda Viva", peça que provocou sua prisão e posterior autoexílio em Roma, "Calabar", que foi proibida pelos militares, e "Gota d'Água" (escrita com Paulo Pontes). Nos anos 1960, Bertolt Brecht era uma das maiores referências dos principais autores e grupos teatrais brasileiros. De Augusto Boal a Oduvaldo Vianna Filho, de José Celso Martinez Corrêa a Plínio Marcos, passando por Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros, as peças de Brecht eram sinônimo de engajamento político e de pesquisa por novas formas de dramaturgia. Sua teoria do distanciamento crítico, baseada na ideia de que uma peça teatral não deveria transportar o espectador para um mundo fictício, e sim despertá-lo para a realidade reflexiva, inspirou grupos como o Arena, o Oficina, o Opinião e posteriormente o Ornitorrinco a criar aquele que é para muitos o melhor momento da história do teatro brasileiro.
Felipe Tadeu

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

MINHA TERRA É LINDA

Original released in LP Orfeu FPAT 6004
(PORTUGAL, 1979)

N'gola, 1483...
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproximava veloz, cada vez mais, com o vento... Era o Homem Branco que chegava: numa mão uma cruz, na outra uma espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos Kissanges, marimbas e Txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com Terra Negra. Então N'gola viu a sua Terra esventrada gritar de dor e transformar-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua Terra. N'gola adormeceu num sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou... e a Voz dizia: « não durmas mais... não durmas mais...» Era Novembro e as acácias vestiam-se de garrido vermelho. O sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de tamarindo e jambo... uma Lindeza! (Raul Indipwo)


A segunda metade dos anos 70 foi atribulada para o Duo Ouro Negro. Depois de participarem em 1974 no Festival RTP da Canção, com a canção "Bailia dos trovadores", lançam o single "Poema para Allende / Tentando ir mais alto" em 1975, e fazem a última gravação da década para a EMI-Valentim de Carvalho com o album "Epopeia / Lamento do Rei". No ano seguinte é lançado um disco ao vivo. Em 1979, voltam a gravar um novo album de originais, desta vez para a Orfeu, por sinal um dos LPs de maior sucesso do duo. Um álbum magnífico, que teve a participação de Mike Sergeant na guitarra e do já conhecido Zé Nabo no baixo. "Lindeza!", foi o nome escolhido pelos cantores para homenagear a Terra-Mãe («minha terra é grande mas será maior se eu a fizer crescer»). Não existem pontos fracos neste album, que pessoalmente considero um dos melhores da música portuguesa: quase 4 décadas volvidas, continua a ouvir-se repetidamente, com o mesmo prazer de sempre. Tanto quanto julgo saber, esta preciosidade nunca foi editada em CD, por isso têm aqui a oportunidade de aceder a uma cópia de grande qualidade, que Rato Records vos disponibiliza. Um grande obrigado ao Carlos Santos, pela ajuda dada na remasterização do vinil original.  

Músicos:

Vocais - Duo Ouro Negro (Raúl Indipwo e Milo MacMahon)
Acordeão - José Cid
Guitarra Acústica [Violão] – Mário Silva, Raúl Indipwo
Baixo – Zé Nabo
Guitarra – Mike Sergeant
Kalimba [Kissangi] – Raúl Indipwo
Guitarra de 12 cordas – D'Jilá Jr.
Vozes de Apoio (femininas) – Formiga, Pom

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

DIRE STRAITS: "Communiqué"

 

Original released on LP Vertigo 9102.031
(UK 1979, June 15)


Rushed out less than nine months after the surprise success of Dire Straits' self-titled debut album, the group's sophomore effort, "Communiqué", seemed little more than a carbon copy of its predecessor with less compelling material. Mark Knopfler and co. had established a sound (derived largely from J.J. Cale) of laid-back shuffles and intricate, bluesy guitar playing, and "Communiqué" provided more examples of it. But there was no track as focused as "Sultans of Swing," even if "Lady Writer" (a lesser singles chart entry on both sides of the Atlantic) nearly duplicated its sound. As a result, "Communiqué" sold immediately to Dire Straits' established audience, but no more, and it did not fare as well critically as its predecessor or its follow-up. (William Ruhlmann in AllMusic)

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

The GO GRAAL BLUES BAND Debut Album


Edição original em LP Imavox IM 30.702
(PORTUGAL, 1979)

Os Go Graal Blues Band formam-se em 1976, a partir de um grupo de amigos vindos de África, motivados para criar um repertório original inspirado no rhythm & blues eléctrico de Chicago. Após várias atribulações a formação estabiliza com Paulo Gonzo (vocais e harmónica), João Cordeiro (vocais), João Allain (guitarra), Raul Barrigas dos Anjos (bateria), Augusto Mayer (harmónica), António Ferro (baixo) e João Esteves (guitarra). É com esta formação que assinam um contrato de gravação com a editora Imavox, editando este primeiro album em 1979. A par de Rui Morrison, foi o radialista-produtor Jaime Fernandes o responsável pela descoberta dos Go Graal, promovendo o grupo na rádio através de maquetes gravadas nos estúdios da RDP, e depois sendo ele próprio o produtor do disco. Este trabalho é digno tributo aos blues de Chicago, apresentando sómente temas assinados pelo colectivo, em inglês, e emocionantes solos instrumentais. Muito bem gravado por Moreno Pinto, o grupo assume totalmente, uma postura dedicada aos Blues eléctricos, em temas como "Baby, I Wanna...", "The Fault Is Her Own" e "The Last One". Também há lugar para as baladas, tais como "Leonor's" ou o acústico "For Ma Babe (Gonzo Pleasure)", este último interpretado com genuíno sentimento por Paulo Gonzo, que rouba todo o protagonismo. O interior da capa do disco contém um pequeno texto onde Jaime Fernandes se debruça sobre a carreira da banda e afirma que se trata do grupo mais "teimoso" que já conheceu. «... Merece-me este disco um respeito muito grande, porque nele reconheço um punhado de bons músicos, um investimento de trabalho indescritível e, principalmente, um sentimento profundo pela música que já não é só negra...» A Go Graal Blus Band é um dos grupos portugueses da época que dá mais concertos, sobretudo para estudantes. Apesar de cantar em inglês, conseguem bastante sucesso e passam, quase incólumes, o "boom" do Rock Português, sem necessitar de mudar de linguagem. (fonte principal: "Sobreviventes - O rock em Portugal na era do vinil", Pedro Freitas Branco, 2019)



sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SÉRGIO GODINHO: "Campolide"

Edição original em LP Orfeu STAT 094
(PORTUGAL 1979, Novembro 23)

Um disco, um estúdio, uma história

A imagem é um retrato quase banal: um homem e uma caixa de viola numa estação de comboios, um relógio onde ainda não são duas horas, um cartaz na parede com o mesmo homem e a mesma viola, gente normal em volta. O homem da viola é Sérgio Godinho, a estação, lê-se no painel de azulejo sobre a porta, é Campolide. Há 38 anos, o homem, a viola e a estação tornaram-se num disco com dez canções sem tempo. "Campolide" é o sexto álbum de originais de Sérgio Godinho, quarto gravado e publicado após o 25 de Abril e o regresso a Portugal do compositor. É, também, o segundo e último que grava para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. "Campolide", porém, não é sequer o título de qualquer das canções deste álbum. Chama-se assim, apenas, porque foi gravado nos estúdios localizados no 103-C da Rua de Campolide, ao tempo propriedade da empresa de Arnaldo Trindade e conhecidos como «estúdios de Campolide», onde gravaram algumas das mais importantes figuras da música portuguesa. Foi aqui, por exemplo, que em 1969 Adriano Correia de Oliveira registou o histórico "O Canto e As Armas", sobre poemas de Manuel Alegre. Adriano cumpria o serviço militar, tal como Rui Pato, que o acompanhou à viola: «O disco foi gravado durante duas noites de patrulha da polícia militar do alferes Adriano, com ele fardado e com a pistola, o capacete e a braçadeira poisados em cima do piano, e o jipe a passear por Lisboa, com a cumplicidade de certos militares amigos», contaria Rui Pato, muitos anos depois. Adriano foi apenas uma das vozes que se fizeram ouvir nos estúdios de Campolide, que durante anos estiveram para Lisboa um pouco como os estúdios de Abbey Road para a capital inglesa. De Zeca Afonso a Fausto Bordalo Dias, passando por Carlos Mendes, Maria da Fé ou Tony de Matos, praticamente não houve nome grande da música portuguesa que por ali não tenha passado. Não admira, pois, que acabasse por ser nome próprio de um disco. Este, de Sérgio Godinho.


"Campolide", publicado em 1979, tem uma ficha técnica de luxo: Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Pedro Osório, Guilherme Inês, Luís Caldeira ou José Eduardo são alguns dos participantes, a que se juntam as colaborações especiais de Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Afonso e Vitorino. Dos dez temas desse disco, destacam-se “Arranja-me um Emprego”, “Cuidado com as Imitações”, “Espectáculo” ou “Lá em Baixo”. Ou “Quatro Quadras Soltas”, o único registo que reúne de uma assentada Sérgio, Fausto, Adriano e Zeca. De resto, não é gratuito dizer que a vida musical de Sérgio Godinho está, desde o início ligada a Campolide: foi para a Sassetti, outra editora histórica, sedeada na Avenida Conselheiro Fernando de Sousa, que gravou dois discos a partir do exílio ("Os Sobreviventes", em 1971, e "Pré-Histórias", em 72) e os dois primeiros após a revolução ("À Queima-Roupa", em 74, e "De Pequenino se Torce o Destino", em 76) . Depois, já na Orfeu, é nos estúdios de Campolide que grava o aclamado "Pano-Cru", de que fazem parte algumas das suas canções mais emblemáticas, como “Balada da Rita”, “A Vida é Feita de Pequenos Nadas”, “Feiticeira” e, principalmente, “O Primeiro Dia”. E, finalmente, "Campolide". Criados nos anos 60, os estúdios de Campolide viriam mais tarde a mudar de mãos, mas não de rumo. Como Estúdios Rádio Triunfo, depois Namouche, e finalmente Xangrilá, o 103-C da Rua de Campolide continuou até há pouco tempo a acolher vozes e personagens importantes da música portuguesa. Agora, restam as memórias de algumas gravações que fizeram história. Como o disco de Sérgio Godinho. (Viriato Teles)

"Luta meu amor, meu dezreizinhos de gente..."


Edição original em LP Diapasão 16021
(PORTUGAL, 1979)

Canadiana de nascimento, foi nos anos 70 uma das actrizes de "Hair", em Paris, onde conheceu Sérgio Godinho e com quem se relacionou pessoal e artisticamente. Ambos passaram vicissitudes, designadamente no Brasil, onde foram presos e depois expulsos. Vaguearam pela Europa e até ao 25 de Abril viveram como hippies em Vancouver. Shila Charlesworth participa em diversos álbuns de Sérgio Godinho, nem que seja com "coros, sanduiches e amor" (e também nos de Vitorino e Júlio Pereira) e em 1977 edita o seu primeiro álbum a solo, "Doce de Shila". Dois anos mais tarde, edita o segundo e último álbum, "Lengalengas e Segredos". Nos anos 80 participa em peças infantis na Casa da Comédia. Ainda tentou um terceiro álbum, para o qual José Afonso lhe tinha escrito uma canção, mas a K7 desapareceu. Concluindo que nada mais tinha para dizer, Shila virou-se para outros mundos e nos anos 90 decidiu que o que queria ser era cozinheira e abriu uma empresa de catering a que deu o nome de "Doce de Shila" (Luís Pinheiro de Almeida)

Esta é a história de uma mulher invulgar, que foi casada com Sérgio Godinho, hoje unidos por netos. Shila é do mundo, mas vive em Portugal desde 1976. É de muitas artes e de nenhuma. Gosta que a deixem estar. Mesmo que seja a única habitante num prédio quase em ruínas, em pleno Chiado. Era uma vez uma menina, que nasceu no Canadá, sob um telhado protector, coberto de neve. Os pais, conservadores, chamaram-lhe Shila. E ela cresceu como as outras meninas de uma sociedade bem comportada. Não vem ao caso dizer o ano, pois isso seria denunciador de um detalhe que não lhe interessa. Digamos só que num país distante, chamado Portugal, já vigorava a ditadura. Estava tão distante daqui, como das estrelas atrás de uma lente telescópica, apontada da janela do seu quarto, quando era já menina e o centro das atenções, que era exactamente a posição que mais lhe agradava. Sempre foi assim. Nunca teve grande interesse no "business", mas adorava dar "show". Em casa dos pais, o natal era o seu palco predilecto, enquanto o esplendor dos "sixties" não se apresentou a Shila, que os recebeu de braços abertos na transição da adolescência. Quando completou os míticos 18 anos, disse aos pais qualquer coisa que no íntimo liberal eles já sabiam: Tinha que ir. Tantas coisas chamavam por ela, que na altura foi incapaz de enumerá-las. Chamou-lhe mundo. E para lá foi, com a benção hesitante dos pais e com o pretexto de se encontrar. O seu método de transporte era deixar-se transportar, ficando, partindo, sem plano e sem tempo, com a leveza "flower power". Algures nasceu uma mulher belíssima, cabelos louros, longos, os mesmos olhos azuis, que mantêm o brilho intacto, tantos meridianos depois.


Antes dessa longa viagem, quando ainda estudava no Canadá, foi também modelo e bailarina. Em trânsito, aprendeu as artes do mergulho em águas tropicais, experimentou a substância das viagens, foi parar a Londres, onde foi modelo, e transitou para Paris, onde fez teatro. E onde conheceu um rapaz chamado Sérgio Godinho, um português exilado, a transbordar de palavras, actor e poeta, sem arbitrariedade na ordem dos factores. E a suas vidas ficaram unidas para sempre, ainda que hoje sejam talvez os netos que mais as une. Estavam ambos no elenco do musical "Hair", produção francesa, pós-Maio de 68. Esta peça, um tributo à cultura hippie, era como a sua representação num espelho, desempenhando os papéis de si próprios. Quando a peça foi em digressão para a América do Sul, Shila e Sérgio Godinho partiram para a América do Norte, para viver numa comuna no Canadá, para onde Shila regressara uma mulher muito diferente, que seria mãe pouco mais tarde, sob os signos de "peace and love". Só voltariam a viajar no sentido pleno em 1976, quando Sérgio Godinho regressou a Portugal e Shila conheceu o país pela primeira vez, em ambiente pós-revolucionário e resquícios de cinzentismo.


E aqui ficou, muito mais do que em qualquer outro sítio. Shila sempre andou ao sabor das coisas. Em 1977, foi "Doce de Shila", nome artístico, que era o tema principal do seu primeiro disco, Long Play de 33 rotações, com letras de Sérgio Godinho, seu marido. Entre mil coisas, nas artes plásticas, no artesanato, em programas de televisão, na cozinha gourmet, a sua vida caminhou de mãe para avó, sempre hippie à sua maneira, estruturalmente livre e feliz proprietária de uma autocaravana. Há pessoas assim. São frágeis e fortes. E quase sempre inquebráveis. De outra maneira não seria explicável a sua actual situação, que já dura há anos a fio. Shila vive no Chiado, numa das zonas mais caras de Lisboa, mas vive só, num prédio de cinco andares, que está a rebentar pelas costuras. Mesmo. Tem sido uma longa e dura luta contra quem gostaria que ela já não ali estivesse, como aconteceu a todos os antigos inquilinos do prédio, os seus vizinhos. Nesse prédio, fica o seu mundo, lá em cima no quarto andar, onde há umas roldanas para facilitar o transporte de coisas. Há estruturas em equilíbrio instável de pré-ruína, há buracos por toda a parte, chove dentro de sua casa, mas nada a demove. Por alturas do Natal, que continua a ser a sua época predilecta, Shila encarna outra personagem. É a Mary, "Mary" Christmas, explica. Não é que hoje em dia seja propriamente "Merry", mas também não é por isso que deixa de ser Christmas. Shila decora o prédio como se fosse o seu presépio privado, vivendo numa espécie de caos com artefactos natalícios. Tem um olhar muito próprio, adocicado, que lhe permite enfrentar as maiores batalhas, nem que estas sejam legais para defender o território onde vivem as suas memórias e os seus sonhos. Ali. Mesmo em frente ao Grémio Literário. (Luís Pedro Cabral in Expresso, 24/12/2010)

terça-feira, 18 de agosto de 2020

FAUSTO: "Histórias De Viageiros"

Edição original em LP Orfeu STAT 093
(PORTUGAL 1979, Novembro 6)


Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitam sortes à ventura,
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão-general.
– «Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal!»
– «Não vejo terras de Espanha
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar.»
– «Acima, acima, gajeiro,
Acima, ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»
– «Alvíssaras, capitão, 
Meu capitão-general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar.»
– «Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.»
– «A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.»
– «Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.»
– «Não quero o vosso dinheiro,
Pois vos custou a ganhar.»
– «Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.»
– «Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar.»
– «Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de eu dar?»
– «Eu quero a nau Catrineta,
Para nela navegar.»
– «A nau Catrineta, amigo,
É de el-rei de Portugal.
Pede-a tu a el-rei, gajeiro,  | bis
Que ta não pode negar.»

"A Nau Catrineta", de Almada Negreiros
«"A Nau Catrineta" foi provavelmente o nome popular de algum navio favorito: diminutivo de afeição posto na Ribeira das Naus a algum galeão "Santa Catarina", ou coisa que o valha. Dar-lhe-iam esse apelido coquete por sua airosa mastreação, pelo talhe elegante de seu casco, por algumas dessas qualidades graciosas que tanto aprecia o olho exercitado e fino da gente do mar. Ou talvez é o nome suposto de um navio bem conhecido por outro, que o discreto menestrel quis ocultar considerações pessoais e respeitos humanos. Entre as narrativas em prosa que já citei, há uma por título – "Naufrágio Que Passou Jorge de Albuquerque Coelho, Vindo do Brasil no ano de 1565" – que não está muito longe de se parecer com a do romance presente. Larga e difícil viagem, temporais assombrosos, fome extrema, tentativas de devorarem os mortos, resistência do comandante a esta bruteza, milagroso surgir à barra de Lisboa quando menos o esperavam, e quando menos sabiam em que paragens se achassem – tudo isto há na prosa da narração; e até o poético episódio de estarem a ver os monumentos e bosques de Sintra sem os reconhecer – como na xácara se viam, pela falsa miragem do demónio, as três meninas debaixo do laranjal.» (Almeida Garrett, in "Romanceiro", Lisboa, 1843)

terça-feira, 28 de julho de 2020

PETER GREEN: "SAME OLD BLUES"


Peter Green (born Peter Allen Greenbaum, 29 October 1946, in Bethnal Green, London) is a British blues-rock guitarist and founder of the band Fleetwood Mac. A figurehead in the British blues movement, Green inspired B. B. King to say, «He has the sweetest tone I ever heard; he was the only one who gave me the cold sweats.» Eric Clapton and Jimmy Page have both lauded his guitar playing as well. Green's playing was marked with a distinctive vibrato and economy of style. Though he played other guitars, he is best known for deriving a unique tone from his 1959 Gibson Les Paul - a result of the magnet of his guitar's neck pickup being accidentally reversed to produce an 'out of phase' sound. The Les Paul would come to be referred to as Green's "magic guitar" but Green told Guitar Player in 2000 that «I never had a magic one. Mine wasn't magic...It just barely worked.» Green was ranked 38th in Rolling Stone magazine list of the "100 Greatest Guitarists of All Time" (in Wikipedia)


This double CD set reunites the essential songs Peter Green recorded in his first comeback after being diagnosed with schizophrenia in the early seventies (he spent all the mid seventies in treatments and inside a psychiatric institution in London). After 6 albums ("In the Skies", 1979; "Little Dreamer, 1980; "Whatcha Gonna Do?, 1981; "Portrait", 1981; "White Sky", 1982 and "Kolors", 1983), he suffered a relapse and went down again, until 1990.

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