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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

"Luta meu amor, meu dezreizinhos de gente..."


Edição original em LP Diapasão 16021
(PORTUGAL, 1979)

Canadiana de nascimento, foi nos anos 70 uma das actrizes de "Hair", em Paris, onde conheceu Sérgio Godinho e com quem se relacionou pessoal e artisticamente. Ambos passaram vicissitudes, designadamente no Brasil, onde foram presos e depois expulsos. Vaguearam pela Europa e até ao 25 de Abril viveram como hippies em Vancouver. Shila Charlesworth participa em diversos álbuns de Sérgio Godinho, nem que seja com "coros, sanduiches e amor" (e também nos de Vitorino e Júlio Pereira) e em 1977 edita o seu primeiro álbum a solo, "Doce de Shila". Dois anos mais tarde, edita o segundo e último álbum, "Lengalengas e Segredos". Nos anos 80 participa em peças infantis na Casa da Comédia. Ainda tentou um terceiro álbum, para o qual José Afonso lhe tinha escrito uma canção, mas a K7 desapareceu. Concluindo que nada mais tinha para dizer, Shila virou-se para outros mundos e nos anos 90 decidiu que o que queria ser era cozinheira e abriu uma empresa de catering a que deu o nome de "Doce de Shila" (Luís Pinheiro de Almeida)

Esta é a história de uma mulher invulgar, que foi casada com Sérgio Godinho, hoje unidos por netos. Shila é do mundo, mas vive em Portugal desde 1976. É de muitas artes e de nenhuma. Gosta que a deixem estar. Mesmo que seja a única habitante num prédio quase em ruínas, em pleno Chiado. Era uma vez uma menina, que nasceu no Canadá, sob um telhado protector, coberto de neve. Os pais, conservadores, chamaram-lhe Shila. E ela cresceu como as outras meninas de uma sociedade bem comportada. Não vem ao caso dizer o ano, pois isso seria denunciador de um detalhe que não lhe interessa. Digamos só que num país distante, chamado Portugal, já vigorava a ditadura. Estava tão distante daqui, como das estrelas atrás de uma lente telescópica, apontada da janela do seu quarto, quando era já menina e o centro das atenções, que era exactamente a posição que mais lhe agradava. Sempre foi assim. Nunca teve grande interesse no "business", mas adorava dar "show". Em casa dos pais, o natal era o seu palco predilecto, enquanto o esplendor dos "sixties" não se apresentou a Shila, que os recebeu de braços abertos na transição da adolescência. Quando completou os míticos 18 anos, disse aos pais qualquer coisa que no íntimo liberal eles já sabiam: Tinha que ir. Tantas coisas chamavam por ela, que na altura foi incapaz de enumerá-las. Chamou-lhe mundo. E para lá foi, com a benção hesitante dos pais e com o pretexto de se encontrar. O seu método de transporte era deixar-se transportar, ficando, partindo, sem plano e sem tempo, com a leveza "flower power". Algures nasceu uma mulher belíssima, cabelos louros, longos, os mesmos olhos azuis, que mantêm o brilho intacto, tantos meridianos depois.


Antes dessa longa viagem, quando ainda estudava no Canadá, foi também modelo e bailarina. Em trânsito, aprendeu as artes do mergulho em águas tropicais, experimentou a substância das viagens, foi parar a Londres, onde foi modelo, e transitou para Paris, onde fez teatro. E onde conheceu um rapaz chamado Sérgio Godinho, um português exilado, a transbordar de palavras, actor e poeta, sem arbitrariedade na ordem dos factores. E a suas vidas ficaram unidas para sempre, ainda que hoje sejam talvez os netos que mais as une. Estavam ambos no elenco do musical "Hair", produção francesa, pós-Maio de 68. Esta peça, um tributo à cultura hippie, era como a sua representação num espelho, desempenhando os papéis de si próprios. Quando a peça foi em digressão para a América do Sul, Shila e Sérgio Godinho partiram para a América do Norte, para viver numa comuna no Canadá, para onde Shila regressara uma mulher muito diferente, que seria mãe pouco mais tarde, sob os signos de "peace and love". Só voltariam a viajar no sentido pleno em 1976, quando Sérgio Godinho regressou a Portugal e Shila conheceu o país pela primeira vez, em ambiente pós-revolucionário e resquícios de cinzentismo.


E aqui ficou, muito mais do que em qualquer outro sítio. Shila sempre andou ao sabor das coisas. Em 1977, foi "Doce de Shila", nome artístico, que era o tema principal do seu primeiro disco, Long Play de 33 rotações, com letras de Sérgio Godinho, seu marido. Entre mil coisas, nas artes plásticas, no artesanato, em programas de televisão, na cozinha gourmet, a sua vida caminhou de mãe para avó, sempre hippie à sua maneira, estruturalmente livre e feliz proprietária de uma autocaravana. Há pessoas assim. São frágeis e fortes. E quase sempre inquebráveis. De outra maneira não seria explicável a sua actual situação, que já dura há anos a fio. Shila vive no Chiado, numa das zonas mais caras de Lisboa, mas vive só, num prédio de cinco andares, que está a rebentar pelas costuras. Mesmo. Tem sido uma longa e dura luta contra quem gostaria que ela já não ali estivesse, como aconteceu a todos os antigos inquilinos do prédio, os seus vizinhos. Nesse prédio, fica o seu mundo, lá em cima no quarto andar, onde há umas roldanas para facilitar o transporte de coisas. Há estruturas em equilíbrio instável de pré-ruína, há buracos por toda a parte, chove dentro de sua casa, mas nada a demove. Por alturas do Natal, que continua a ser a sua época predilecta, Shila encarna outra personagem. É a Mary, "Mary" Christmas, explica. Não é que hoje em dia seja propriamente "Merry", mas também não é por isso que deixa de ser Christmas. Shila decora o prédio como se fosse o seu presépio privado, vivendo numa espécie de caos com artefactos natalícios. Tem um olhar muito próprio, adocicado, que lhe permite enfrentar as maiores batalhas, nem que estas sejam legais para defender o território onde vivem as suas memórias e os seus sonhos. Ali. Mesmo em frente ao Grémio Literário. (Luís Pedro Cabral in Expresso, 24/12/2010)

Doce de Shila

Edição original no LP Diapasão 16006/R
(PORTUGAL, 1977)


«Para cantar um dia connosco,
a Shila veio dos quatro cantos do mundo.
Dos cantos do Canadá,
onde os cantos que se cantam
se perdem nos cantos que não se encontram,
tanto é grande a terra
que lhes serviu de terra-mãe.
E através de outros cantos desencantos viagens e desviagens
a Shila foi parar a estas paragens.
E por aqui tem ficado a cantar com a gente.
A chula que ela canta neste disco não é só uma homenagem:
é um assunto de família
é uma chula para bailar e girar
é que ela gosta do ritmo, catrapum
pum
pum
é que ela gosta e faz parte desta gente
que "quer se queira quer não queira é bela".
E como ela já cantou com muitos de nós
pusemo-nos nós a cantar com o muito que é dela.
E foi assim que este disco foi feito.»

(Sérgio Godinho)


Album de estreia desta canadiana nascida Sheila Charlesworth em Toronto, a 14 de Julho de 1949, que nos primeiros anos da Revolução de Abril participou em diversos trabalhos de intérpretes portugueses, sobretudo de Sérgio Godinho, com quem era casada na altura. Conheceram-se em Paris, quando ambos faziam parte do elenco francês do “Hair” e integraram pouco depois o Living Theatre de Julian Beck numa tournée ao Brasil. Neste disco de estreia a parte de leão das composições vai naturalmente para Sérgio Godinho que assina (a solo ou em parceria) oito das dez faixas que compõem o album. Com arranjos do próprio Sérgio, de Fausto e Júlio Pereira, o disco é riquissimo musicalmente, contando com as colaborações de Carlos Zíngaro (violino), Manuel Guerreiro (sax e flauta), Guilherme Searpa e Rui Monteiro (bateria e percussões), Paulo Godinho (baixo), Júlio Pereira (viola-baixo), Sérgio Godinho (violas), entre outros. E ainda as vozes de Francisco Fanhais, Carlos Vaz e Eugénia Melo e Castro nos coros. É um disco muito agradável de se ouvir, mesmo a mais de 40 (!) anos de distância. As qualidades vocais de Shila emprestam a todo o album uma doçura cativante, sobretudo por causa do sotaque estrangeirado da cantora. Dois anos depois um segundo e último album confirmaria todas as promessas desta estreia. Chamar-se-ia “Lenga-Lengas e Segredos”, e também será aqui divulgado. Escusado será dizer que estes dois discos nunca foram re-editados em CD, pelo que esta será uma oportunidade única a aproveitar. Até porque a qualidade de transcrição se encontra em excelente estado.

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