quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Os Discos do GAC ("Grupo de Acção Cultural")

Tudo mudou na música portuguesa depois de Abril de 74. A mais evidente das transformações assinalou o fim do exílio, da vida escondida e dos discos passados por debaixo do balcão para os muitos cantores de intervenção que desde os idos de 60 lutavam contra o regime. Passaram a ser as vozes dos discos mais procurados, que enchiam cantos livres, que se escutavam nas emissões de rádio e televisão, num ciclo de protagonismo da canção popular politizada (e na esmagadora maioria dos casos essencialmente panfletária) que conheceria fim a 25 de Novembro de 1975. Inversamente proporcional, a criação e divulgação de géneros antes "eleitos", como o fado ou a canção ligeira (apelidada de “nacional cançonetismo”) acabou quase silenciada.

Em 1975, concretização da euforia musical que inundou as ruas e salas de espectáculo da cidade e província desde 74, os nomes do canto de intervenção chegaram, em massa, aos discos (num ano onde raras foram as fugas editoriais a este tronco politizado... e de esquerda). Salvo pontuais e raras excepções, a canção política do Portugal pós-revolucionário transformou-se num programa de princípios com evidente carga pedagógica e, sobretudo, ideológica. Defendia-se o poder popular, a reforma agrária, o combate ao capitalismo, a celebração do operário e do camponês. Tractores e enxadas viravam protagonistas em canções feitas sob certas regras implícitas que promoviam frequentemente a eficaz descodificação da mensagem, a repetição do slogan, a fácil memorização da melodia, a transmissão da ideia.


O GAC – VOZES NA LUTA foi fundado em casa de José Jorge Letria, no dia 30 de Abril de 1974, então ainda sob a designação de CAC-Colectivo de Acção Cultural. Essa foi precisamente a data em que o cantor e compositor José Mário Branco, um dos mentores do movimento, regressou do seu exílio em França. Pelos vistos, já tinha a ideia amadurecida e por isso tratou logo de a pôr em práctica. Para além dessa incontornável figura da música popular portuguesa estiveram ligados à fundação daquele movimento personalidades como Afonso Dias, Eduardo Paes Mamede, João Loio, Luís Pedro Faro (cuja formação etno-musicológica foi de especial importância), Nuno Ribeiro da Silva (que veio a ser mais tarde secretário de Estado num dos governos de Cavaco Silva), Toinas (Maria Antónia Vasconcelos), o poeta Manuel Alegre e a violoncelista Luísa Vasconcelos, entre outros (muitos deles oriundos da Juventude Musical Portuguesa).


No início o que se pretendia com este grupo era tão sómente apoiar as greves e outras manifestações que despontavam como cogumelos, chegando a haver um manifesto de intenções lido no 1º Encontro Livre da Canção Popular, a 6 de Maio de 1974. O tempo viria no entanto a abrir cisões e a criar dissidências. Afastaram-se os músicos ligados ao PCP, depois os próximos da LUAR, mantendo-se firme o grupo associado à UDP. Em 1975, o GAC – VOZES NA LUTA nascia dos sobreviventes ideológicos do CAC, abdicando os envolvidos de qualquer manifestação individualista, destacando antes o trabalho colectivo e depurado do que então se criticava como "vícios burgueses". O grupo concorre ao Festival RTP da canção com o tema "Alerta" e editará muitos outros singles , tais como "A Cantiga É Uma Arma" ou " A Ronda do Soldadinho". Estes singles serão , posteriormente, reunidos num LP intitulado "A Cantiga É Uma Arma". Com o 25 de Novembro, os ânimos políticos arrefecem e o grupo começa a iniciar uma nova fase que passa pela recolha de temas tradicionais , recriados com novas letras da autoria do grupo ou com originais muito próximos da música tradicional.




Tal é o caso do LP "Pois Canté!!", editado em Abril de 1976. Este é um disco fundamental para a compreensão de todo o fenómeno posterior de recriação da música tradicional, feita por grupos como Raízes, Brigada Victor Jara, Vai de Roda, etc., fazendo inclusivé parte dos trabalhos discográficos que o jornal "Público", numa votação dos seus críticos musicais , considerou como dos melhores de sempre da música portuguesa. Ouvido agora, a mais de 40 anos de distância, é evidente que as letras são profundamente datadas, demagógicas, e em que qualquer réstia de poesia se encontra ausente, sendo, nesse campo, um espelho fiel da realidade daqueles anos. Aliás, e como já tive ocasião de dizer em posts anteriores, apenas Sérgio Godinho conseguiu “dar a volta” ao panfletismo reinante, muito por mérito dos trocadilhos linguísticos, sempre tão presentes na sua obra. Nem mesmo o Grande José Afonso conseguiu distanciar-se de todo aquele imediatismo. E no entanto, musicalmente, “Pois Canté!!” é ainda hoje de uma rara beleza auditiva, o mesmo se podendo dizer das magníficas interpretações que o atravessam do princípio ao fim. Sugiro portanto que se tentem abstrair das palavras, que se façam de estrangeiros sem perceber népia da língua de Camões e conseguirão ouvir “Pois Canté!!” em toda a sua riqueza instrumental e vocal.




Voltando à curta história do GAC, José Mário abandona o grupo ( que mantém a mesma designação) para se dedicar à militância política e ao teatro. Serão editados mais 2 LP's (" Vira Bom", em 77 e "Ronda da Alegria" em 78), na mesma linha do primeiro e antes do grupo se dissolver. Embora por vezes não se dê conta disso (talvez muito por culpa das tais letras panfletárias) esta trilogia do GAC – VOZES NA LUTA contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de uma estética musical baseada na criatividade e na inovação, criando uma espécie de fusão dialética entre a linha musical de José Afonso (marcadamente urbana), as pesquisas de Michel Giacometti (notáveis percursos pelo Portugal musical rural) e o enquadramento clássico de Fernando Lopes-Graça.


14 comentários:

atomo! disse...

post espectacular!!! tenho andado a tentar encontrar estas referencias a anos... obrigado

abracos
atomo!

Anonymous disse...

caro rato

há sempre uma dúvida existencial acerca da discografia dos GAC. será que algum dia foi mesmo editado o single VL 1009 classe contra classe / no sistema capitalista ?
nunca o encontrei à venda apesar de vir referido num postal daqueles que antigamente se usava para encomendar discos pelo correio (eu tenho um postal desses - original). já agora o preço era de 40$00. e continha uma frase inesquecível:

camarada: os nossos discos (e outras edições) não circulam no sistema comercial, encomenda-os directamente e divulga-os através das associações, sindicatos, etc.

longe vão os tempos

um abraço

joebarbosa@sapo.pt

Anonymous disse...

ALBUM FABULOSO

dos melhores de sempre da música portuguesa

assustador... por vezes parece-me duvidar... estórias, lugares, pessoas, País... aconteceu mesmo(?) estamos aqui(?)...

Lembra-se Sr. Rato (?) Praça de Espanha... Teatro da Comuna... José Máro Branco... FMI...

e... sem exageros apesar de tudo...

este (que) País existe mesmo(?)ainda...

bom... só por coerência, método, e rigor para um Blog cada vez melhor (subtiteza à parte) faltam agora os outros dois que também ainda gaurdo...
Vira Bom" e "Ronda da Alegria" ,

Um abraço,

Ganza

alf disse...

Há muita coisa perdida do G. A C.! Não só «classe contra classe / no sistema capitalista»...
Lembro-me duma composição/interpretação do grupo num disco (LP) alusivo aos tempos de luta na Rádio Renascença, composição que nunca terá sido editada em mais nenhum outro disco...
Pista: quem, eventualmente poderá ter info e material, arquivos diversos, etc. é o Luís Pedro Faro, talvez também o Eduardo Paes (ou Pais, não me recordo) Mamede, e pessoas que pertenceram ao grupo ou que por lá passaram... esta é uma sugestão para o caríssimo Rato!
Outra sugestão diz respeito ao LP, de 1976, «A Cantiga é uma Arma» (conceito, frase que ficou célebre... ainda hoje é evocada...) que, como referes, reunia os singles editados nos meses anteriores.

Anonymous disse...

Rato,
grande post.
Fizeste bem abordar este tema, já que actualmente a info sobre o GAC é escassa.
Faltavam-me essas duas capas, do VL 1005 e do VL 1007... isto é material que não se vê em lado nenhum.
Aproveito para pedir ajuda, aqui à comunidade e agradeço a quem puder esclarecer:
1º o VL 1002 é o que tem "Aos Soldados e Marinheiros / Ronda do Soldaddinho"? (falta-me a capa)
2º Quais as músicas do VL 1007?
3º Quais as músicas do VL 1008? Serão "O Poder ao Lado do Povo / Zé Diogo"?

Aproveito também para deixar um link para quem lhe faltar alguma coisa destas...

http://www.taringa.net/posts/musica/1170516/Grupo-De-Acção-Cultural-_Equot;Vozes-na-Luta_Equot;---Disc.html

Abraço do Porto,
Alfredo Duarte

Anonymous disse...

singles do gac:

VL 1001 alerta / em vermelho, em multidão

VL 1002 aos soldados e marinheiros / ronda do soldadinho

VL 1003 a cantiga é uma arma / viva a guiné bissau livre e independente

VL 1004 a luta dos bairros operários / a luta do jornal do comércio

VL 1005 a internacional / classe contra classe

VL 1006 até à vitória final / o exército do povo

VL 1007 o poder aos operários e camponeses / povo em armas

VL 1009 hino da reconstrução do partido / no sistema capitalista (é o tal que não se sabe se foi editado)

AL-101 contra a repressão no brasil (sangue em flor / brasil 77)

GEP 101 marchas populares (o povo canta na rua/o desfile/a festa é nossa/o circo de fachos)

são estes os que conheço, com a dúvida assinalada.

joebarbosa@sapo.pt

Anonymous disse...

caro alfredo duarte

tenho as capas do gac digitalizadas. se quiser posso enviar-lhe as mesmas por email.

joebarbosa@sapo.pt

Anonymous disse...

Amigo Barbosa,
o meu obrigado pela discografia dos singles postada. É de grande ajuda para mim e para todos, já que essa listagem nunca a vi na net.
O VL 1008 sempre será o das músicas "O Poder ao Lado do Povo / Zé Diogo"? Foi esquecimento ou não existe o VL 1008?
Segue mail sobre as capas.
Abraço,
Alfredo Duarte

Anonymous disse...

Já agora a discografia dos albuns:

VLP 10001 A cantiga é uma arma (compilação dos 4 primeiros singles)
VLP 10003 Pois Canté!!
VLP 10004 ...e vira bom
VLP 10005 ...ronda de alegria!!

e mais uma pergunta:
o VLP 10002 existe? Se sim qual é?

Abraço,
Alfredo Duarte

atomo! disse...

Alguma ideia quando sera possivel fazer um 're-post' destes downloads? acreditem estou a procura distas faixas a pelo menos 10 anos. Abracos do Reino Unido

A!

Nuno disse...

Será possível fazer novamente o "post" destes downloads? Jão não estão activos.
Obrigado

Anónimo disse...

Os 4 álbuns deste grupo irão ser repostos aqui no blog?
Obrigado.
Cumprimentos.

Rochacrimson disse...

Um novo link se for possível!
Obrigado

Rochacrimson disse...

Muito muito obrigado Rato Records!!!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...