O “White Album”, ou mais correctamente, o duplo “The Beatles”, foi durante 10 meses o meu album preferido. Tinha apenas 15 anos quando ele viu pela primeira vez a luz do dia. Esse dia foi o 22 de Novembro de 1968. Depois veio o “Abbey Road” e destronou-o. Até hoje. Mas a verdade é que os dois sempre ocuparam os dois lugares cimeiros das minhas preferências pessoais. Há já meio século! Depois de no ano passado se ter comemorado condignamente os 50 anos do "Sgt. Pepper's", chegou agora a vez do filho de George Martin (de seu nome Giles) empreender, uma vez mais de forma exemplar, a remasterização do album duplo mais célebre da música Pop (e em Setembro de 2019 teremos certamente o privilégio de nos voltarmos a maravilhar com o inigualável "Abbey Road"). Não satisfeito com o brilhante som conseguido (um espanto, sobretudo se escutado numa digna aparelhagem sonora), juntou-lhe mais uma série de novidades, o que, tudo somado, resultou num soberbo livro branco, recheado de 6 Cds e de 1 blu-ray (para os mais entusiastas das coisas sonoras). Tínhamos o "Album Branco", agora passámos a ter também o "Livro Branco" dos Beatles. E também numerado, como não poderia deixar de ser (o meu exemplar, que veio expressamente da Amazon francesa - mais em conta que nas outras - e que levou apenas dois dias a chegar-me às mãos, ostenta o nº 0074392).

Mas recuemos até ao Verão de 1967: a morte de Brian Epstein, em 27 de Agosto desse ano, veio abanar o mundo dos Fab 4. Habituados, desde o início, a que toda a burocracia fosse gerida pelo seu empresário, os Beatles viram-se assim, de um momento para o outro, obrigados a desempenharem outras tarefas para além de comporem e interpretarem as suas canções. De imediato as coisas começaram a dar para o torto, até porque eles próprios se aperceberam logo de que não tinham jeito nem feitio para gerirem o que quer que fosse.

O passo seguinte foi uma fuga em debandada, bem para longe de Inglaterra e das suas novas responsabilidades. E em Fevereiro de 68 encontravam-se já todos na Índia, em Rishikesh, retiro espiritual do Maharishi Mahesh Yogi, o guru que em 1967 os tinha iniciado na meditação transcendental. Evidentemente que os quatro Beatles não se encontravam sózinhos, à volta deles gravitava sempre uma troupe de amigos e namoradas. Mia Farrow e a irmã, Prudence, encontravam-se lá; Donovan e Mike Love (dos Beach Boys) também; Pattie Boyd (na altura ainda mrs. Harrison), e ainda Jane Asher e Cynthia Lennon, apesar das suas relações com Paul e John estarem já muito perto do fim.



Lennon e McCartney rapidamente reencontraram o prazer de escrever e em poucas semanas perto de 40 novas canções viram a luz do dia. John Lennon reconheceria mais tarde ter sido este um dos seus períodos mais criativos. No entanto, a convivência diária com o Maharishi depressa trouxe a realidade ao de cima e os Beatles sofreram mais um rude golpe nas suas convicções: afinal o guru revelara-se uma autêntica fraude. O regresso a Inglaterra foi pois inevitável: primeiro Ringo, depois Paul, e finalmente George e John.

No início de Maio reuniram-se os quatro na residência de George em Esher, onde começaram a ensaiar as novas canções (passámos agora, finalmente, a ter direito de ouvir essas versões acústicas), após uma selecção de um total de 26. Paul contribuiu com sete, Harrison com cinco e Lennon com catorze! As gravações do novo album iniciaram-se a 30 de Maio de 68 e prolongar-se-iam até 14 de Outubro. Maioritariamente os estúdios usados foram como habitualmente os de Abbey Road, mas houve sessões que decorreram nos Trident Studios. Como habitualmente ocorria nessa altura, foram feitas de imediato as mixagens mono e só depois as stereo. O título inicialmente pensado foi o de “A Doll’s House”, mas o lançamento do album “Music in a Doll’s House” pelo grupo Family fez gorar tal intenção.

Entretanto o stress começou a fazer parte integrante do dia-a-dia, originando cada vez mais tensões entre os elementos do grupo. Para tal muito contribuiu na altura o lançamento da Apple Records (como se disse acima os Beatles revelaram-se péssimos homens de negócios), bem como a entrada em cena de Yoko Ono, a nova paixão de Lennon, cuja presença constante nos estúdios de gravação começou a irritar os outros três Beatles, chegando Ringo a abandonar as gravações por um período de 15 dias. Felizmente que Lennon lhe enalteceu o ego, ao enviar um telegrama (também assinado por Paul e George) apelidando-o do “melhor baterista do mundo”, e o bom do Ringo lá regressou ao trabalho. Não a tempo de tocar no “Back in the U.S.S.R.” (tema entretanto já gravado, em que Paul fez de Ringo na bateria) mas ainda para ter a oportunidade de ver os estúdios repletos de flores a darem-lhe as boas vindas pelo regresso a casa. Depois desse episódio, as relações entre os 4 homens entraram numa espiral de boa disposição, facto que aliás é agora testemunhado pela audição dos ensaios em estúdio.

De qualquer modo, poucas foram as canções que contaram com o contributo conjunto dos 4 Beatles. A maior parte dos temas iam sendo gravados ao sabor das circunstâncias e quase sempre por partes. Tudo isto resultou num complexo trabalho de montagem final, a ponto de George Martin ter decidido não produzir mais nenhum album dos Fab 4.

Além disso, o pai de Giles tentou ainda que a edição final fosse um album simples e não duplo, para o que propôs o corte de muitos dos temas já gravados. Felizmente que tal sugestão não foi aceite – contra todas as expectativas o primeiro e único album duplo dos Beatles não se revelou a “manta de retalhos” por todos temida, mas sim um “objecto” único que conseguiu retirar todo o seu potencial da grande variedade reinante. Como mais tarde afirmou McCartney, em resposta aos que sempre tentaram extrair o album “perfeito” do conjunto dos trinta temas finais, «Shut up! It’s the bloody Beatles White Album!»

“The Beatles” foi o primeiro album da nova editora Apple (a estreia tinha acontecido em 30 de Agosto com o single “Hey Jude / Revolution”, Apple R5722) e o último do grupo a ser editado em versões mono (Apple PMC 7067-8) e stereo (PCS 7067-8). Exceptuou-se a faixa “Revolution 9” que apenas foi gravada em stereo. As duas versões apresentam diferenças de pormenor em muitos dos temas presentes, tendo sido editadas simultâneamente em Inglaterra a 22 de Novembro de 1968, uma sexta-feira. Nos EUA sómente apareceu a versão stereo (Apple SWBO 101), na segunda-feira seguinte, já que por essa altura os americanos estavam a abandonar em definitivo as gravações em mono.

Em contraste com a complexa capa do album anterior (“Sgt. Pepper’s"), da autoria de Peter Blake, “The Beatles” apresentar-se-ia ao mundo quase “sem mácula”, virginal. O autor de tal ousadia foi o artista pop Richard Hamilton, que na primeira vez que se encontrou com Paul McCartney em Savile Row, esteve quase para abandonar o projecto. Com efeito, a primeira reacção de Paul à ideia de uma capa totalmente branca foi a de que “isso não podia ser feito”. Hamilton replicou que ele, Paul McCartney, pertencia aos Beatles e que os Beatles podiam fazer tudo o que lhes desse na gana.

Logo a seguir sugeriu-lhe a ideia do nº de série, de modo a que o album parecesse uma edição limitada. Mas esse nº teria de ter 7 dígitos, de modo a abranger os 8 milhões de cópias que se previam vender (os quatro primeiros números ficaram, claro, para cada um dos Beatles, e só depois é que as cópias começaram a ser vendidas ao público. Apesar de gostar da ideia Paul queria ainda que algo mais fosse acrescentado na capa, ou o nome do grupo ou o nome do album.


Hamilton ainda sugeriu a marca de uma chávena de café, mas Paul acabou por levar a sua avante com a inclusão de “The Beatles” se bem que apenas com os caracteres em relevo. O insert interior, do tamanho de 6 albuns, e com as letras das canções no verso, foi ainda uma colagem de fotografias da autoria de Hamilton com a colaboração periódica de Paul. Finalmente adicionaram-se as 4 fotografias dos Beatles a cores (da autoria do fotógrafo John Kelley) e o invólucro ficou pronto a receber os dois discos de vinil. No interior da capa gatefold apenas a lista dos temas do lado esquerdo e as mesmas 4 fotografias (agora a preto e branco) do lado direito. Para variar os discos seriam introduzidos (em capas pretas) “por cima” e não “de lado”, como até então era usual.

Lembro-me de ler num número da já desaparecida revista Blitz, que em Portugal o duplo-album passou mais ou menos despercebido. Não foi felizmente o caso em Moçambique, onde, por influência directa da vizinha África do Sul, as novidades anglo-americanas apareciam normalmente em cima da hora e sempre muito bem publicitadas. Sobretudo tratando-se de um album dos Beatles. Assim sendo, o meu primeiro exemplar chegou-me ainda a tempo do Natal desse ano de 1968, em pleno Verão moçambicano.
Lembro-me ainda da autêntica festa que foi descobrir pela primeira vez todas aquelas canções – durante semanas a fio não se ouviu outra coisa lá por casa. As 4 fotografias saltaram de imediato para as paredes do meu sótão (que nessa altura constituía o meu domínio exclusivo, reservado apenas aos amigos do peito) e por lá ficaram, enquadradas por molduras em esferovite. O poster manteve-se fechado, devido à existência das letras no verso (naquela altura as palavras dos Beatles, quer em entrevistas quer através das letras das suas canções constituíam uma autêntica bíblia de sabedoria para nós, miúdos).

As vicissitudes da vida levaram-me mais tarde a ter de deixar a minha terra-mãe e nesse rápido abandono por lá ficou a grande parte dos meus tesouros de menino. O album branco dos Beatles foi um deles. Mais tarde, já em Portugal, adquiri logo que pude uma re-edição, que no entanto nunca me satisfez. Depois, no 30º aniversário, comprei a edição especial em CD (réplica perfeita), mas só muito recentemente, via Ebay, é que consegui ter de novo nas mãos uma primeira edição original. Obrigado, Bill Gates, pela tua internet! Entretanto, e como não podia deixar de ser, as duas maravilhosas caixas (mono + stereo), editadas em 09.09.09 também já fazem parte do meu espólio beatleano. E agora, mais uma etapa (que muito provavelmente será a última): a magnífica edição do 50º aniversário, com tudo de novo remasterizado pelo Giles Martin. É esta novissima edição que agora se disponibiliza, com o bónus da versão mono editada em 2009, e ainda um tributo da Rato Records, elaborado aquando do 40º aniversário, em Novembro de 2008. No total são 10 CDs para escutar e guardar com carinho.
ALGUMAS NOTAS SOBRE AS FAIXAS DO ALBUM:
1.A.1 – BACK IN THE U.S.S.R. (Lennon/McCartney) 2:45
Uma das mais avassaladoras aberturas de sempre de um album de rock, feita ao som da aterragem de um avião a jacto (som obtido num aeroporto londrino). O tema esteve para se chamar “I’m Backing the U.S.S.R.” e é uma homenagem de Paul ao tema “Back in the U.S.A.” de Chuck Berry, que lhe foi sugerida por Mike Love durante a estadia em Rishikesh.
1.A.2 – DEAR PRUDENCE (Lennon/McCartney) 4:00
Canção escrita por John Lennon para Prudence Farrow (a irmã mais nova de Mia Farrow) que no retiro espiritual em Rishikesh teria sido uma das pessoas a levar mais a sério a experiência, a ponto de se trancar dias a fio nos seus aposentos. A sua relutância em conviver com as outras pessoas originou portanto este “convite” de Lennon: «Dear Prudence, won’t you come out to play?». Na verdade parece que a Prudence acedeu finalmente a mostrar-se, acabando por se dar muito bem com os quatro Beatles.
1.A.3 – GLASS ONION (Lennon/McCartney) 2:10
Numa época caracterizada por importantes movimentos sócio-culturais, os Beatles eram considerados quase como profetas desses tempos. E era rara a canção que não era passada a pente fino pelos fans, sempre à procura de simbologias ou mensagens escondidas. Um pouco cansado já de todas essas interpretações, Lennon compôs “Glass Onion” como que uma resposta humorística a todos esses Sherlock Holmes das músicas dos Beatles. Além de citar alguns dos temas mais estranhos já gravados pelo grupo, John introduziu ainda outras frases dúbias para alimentar propositadamente todos esses jogos mentais: «looking through the bent backed tulips», «another clue for you all, the walrus was Paul» ou «trying to make a dove-tail joint» são exemplos dessas pequenas provocações. Originariamente a canção acabava com uma série de efeitos sonoros (que podem ser ouvidos na "Antologia 3") mas depois George Martin preferiu acabá-la apenas com um som de cordas.
1.A.4 – OB-LA-DI, OB-LA DA (Lennon/McCartney) 3:10
Paul ouviu pela primeira vez esta expressão a um amigo nigeriano chamado Jimmy Scott que lhe explicou o respectivo significado: “Life goes on”. Da expressão à composição de uma canção foi um pequeno passo. Considerada por vezes como um dos primeiros exemplos de “reggae branco”, “Ob-La-Di, Ob-La-Da” esteve para ser lançada em single, como Paul queria. Mas tanto George como John se opuseram, sobretudo este último, que sempre detestou a composição. Diz-se até que a melodia era para soar um pouco mais lenta; mas que, no dia da gravação John, para a “despachar” rapidamente, resolveu acelerar um pouco logo à entrada, quando começou a tocar as teclas do piano. O efeito mais rápido agradou aos outros que acordaram em a gravar dessa maneira. Jimmy Scott chegou a participar nas gravações tocando congas e mais tarde Paul deu-lhe parte dos direitos de autor, só por causa da apropriação da expressão. Como que a comprovar que a razão estava do lado de Paul, a canção foi na altura um enorme sucesso pelo grupo Marmalade que a gravou em single (1º lugar em Inglaterra, a 11 e 18 de Janeiro de 1969).
1.A.5 – WILD HONEY PIE (Lennon/McCartney) 1:02
Faixa gravada unicamente por Paul, que toca uma série de guitarras e bateria. Nenhum dos outros Beatles esteve sequer presente. O tema, semi-instrumental, é o texto mais curto e mais repetitivo de toda a obra do quarteto. E só foi incluído no disco porque Pattie Boyd Harrison gostava daquilo e Paul lhe fez a vontade. Onde se prova que até um Beatle não é imune ao sexo fraco (forte)...
1.A.6 – THE CONTINUING STORY OF BUNGALOW BILL
(Lennon/ McCartney) 3:05
Canção escrita por Lennon que se inspirou num personagem real, Richard Cooke III, um jovem estudante americano que se encontrava também em Rishikesh. Um dia participou numa caçada ao tigre, acompanhado pela mãe, Nancy, que foi atacada pelo felino. Richard não teve outro remédio senão matar o animal para salvar a vida à progenitora. De regresso ao retiro, o episódio enfureceu o Maharishi que não aceitava que um discípulo seu tivesse cometido tal atrocidade. O sermão foi presenciado por John e Paul e a ideia da canção nasceu. O nome do personagem foi inspirado por Buffalo Bill e pelos bungalows onde os convidados do Maharishi se encontravam alojados. Richard Cooke III foi depois fotógrafo da National Geographic (e pensa-se que nunca mais matou nenhum tigre na vida). Este tema foi o primeiro dos dois únicos temas dos Beatles (o outro foi o “Birthday”) a ter coros femininos (Yoko Ono e Maureen Starkey).
1.A.7 – WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS (Harrison) 4:46
Primeira grande contribuição de George Harrison para o “White Album”. A génese da canção é no mínimo curiosa. O livro preferido de George na altura era o “I Ching” (um livro chinês sobre transformações) e, influenciado por ele, resolveu fazer uma pequena experiência: escrever uma composição a partir das primeiras palavras que lesse num livro escolhido ao acaso. Foi à biblioteca da casa dos pais, em Lencashire, pegou num livro, abriu-o e leu – “gently weeps”. E pôs-se a escrever. Depois de várias tentativas para gravar a canção (mais de 40 takes, entre Julho e Setembro), George continuava a não gostar de se ouvir no solo de guitarra, Um dia Eric Clapton deu-lhe boleia de Surrey para Londres e George lembrou-se de pedir ajuda ao amigo. Relutante ao princípio, por achar que ninguém deveria tocar com os Beatles, Clapton acabou por se deixar convencer. Calmamente, acompanhou George ao estúdio, executou o solo sem grandes alaridos numa guitarra Gibson Les Paul e foi-se embora. E assim nasceu uma obra-prima.
1.A.8 – HAPPINESS IS A WARM GUN (Lennon/McCartney) 2:47
Uma canção em três tempos, resultante da junção de outros tantos temas que Lennon tinha composto na altura e inspirada na capa de uma revista que ele viu nas mãos de George Martin e onde se podia ler: “Happiness is a warm gun in your hand”. Parte dos versos (estranhos mas surpreendentemente apelativos) surgiram depois de uma noitada de LSD que Lennon partilhou com Derek Taylor, Neill Aspinall e Pete Shoton. Anos mais tarde McCartney considerou-a a sua canção preferida de todo o album e Lennon chegou a descrevê-la como a “história do Rock ‘n’ Roll”. Hoje, 50 anos depois, continua actual e a encantar sucessivas gerações de fans dos Beatles.
1.B.1 – MARTHA MY DEAR (Lennon/McCartney) 2:28
Apesar de Martha ser o nome da cadela de dois anos que Paul tinha na altura a canção não lhe é dedicada, mas sim a alguém que parece ter sido sempre a musa inspiradora de McCartney. Não era Jane Asher, cuja relação estava a chegar ao fim nem Linda Eastman, com quem Paul já namorava quando o tema foi gravado em Outubro de 68. A composição tem certas reminiscências dos anos 30, de cujos musicais Paul era grande apreciador.
1.B.2 – I’M SO TIRED (Lennon/McCartney) 2:01
O título desta canção corresponde efectivamente ao cansaço que John começava a sentir depois de três semanas passadas em Rishikesh, onde diariamente assistia a sessões de grupo com cerca de hora e meia de duração. Esse cansaço era físico mas sobretudo mental. A Academia de meditação proibia o alcool e as drogas e John sentia-lhes cada vez mais a falta, a ponto de começar a ter insónias todas as noites. Depois era Yoko que não lhe saía do pensamento (Cynthia veio a descobrir que o marido se levantava sempre muito cedo para ir ver se tinha alguma mensagem da japonesa). Ou seja, John encontrava-se numa encruzilhada crucial e sentia que tinha de dar um novo sentido à sua vida (o que na verdade veio mesmo a acontecer).
1.B.3 – BLACKBIRD (Lennon/McCartney) 2:20
Paul sempre disse que as suas melhores canções eram aquelas que lhe surgiam espontâneamente. “Blackbird” é sem dúvida uma dessas canções: simples, melódica, é uma espécie de “Yesterday” sem secção de cordas. Paul gravou-a sózinho, apenas com uma guitarra acústica, a que posteriormente adicionou uns bongos. Onde se prova, uma vez mais, que a simplicidade é a marca principal do génio.
1.B.4 – PIGGIES (Harrison) 2:04
Segunda contribuição de Harrison, este tema é “dedicado” a todos os gananciosos que sempre procuraram ganhar dinheiro à custa dos Beatles (por uma vez a palavra ‘piggies’ não é aqui usada, como usualmente, para designar a polícia). Foi uma das canções invocadas mais tarde por Charles Manson que o teriam inspirado para as carnificinas de Agosto de 69, levadas a cabo em várias residências de Los Angeles, a mais célebre das quais pertencente a Roman Polanski, e onde a sua mulher, Sharon Tate, foi uma das vítimas (encontrava-se grávida na altura). A frase “Death To Pigs” apareceu escrita a sangue nas paredes da divisão onde os crimes foram cometidos.
1.B.5 – ROCKY RACOON (Lennon/McCartney) 3:33
Uma história do Oeste selvagem inventada por Paul: «Quando escrevi esta canção estava sentado, juntamente com John e Donovan, no telhado de um dos bungalows de Rishikesh. Pusémo-nos os três a improvisar e tudo saíu muito facilmente. O título original era para ser "Rocky Sassoon", mas depois alterámo-lo para "Rocky Racoon" que soava melhor, tratando-se de um cowboy a viver em Dakota.»
1.B.6 – DON’T PASS ME BY (Starkey) 3:52
Única canção de Ringo em todo o album, escrita cinco anos antes, em 1963. Nessa altura, num programa da BBC, Ringo mencionou-a, tendo inclusivé solicitado publicamente a sua inclusão num album dos Beatles. A “revelação” de que Ringo tinha uma canção só sua foi na altura motivo de risota dos outros Beatles que não levaram aquilo muito a sério. No entanto a canção existia mesmo e foi a estreia de Ringo como autor principal em toda a discografia dos Beatles. Até ali tinha-se limitado a colaborações pontuais, em temas como “A Hard Day’s Night”, “Eight Days A Week” ou “Tomorrow Never Knows”. Tirando o caso à parte do “Revolution 9”, pessoalmente acho este tema o mais fraco de todo o album.
1.B.7 – WHY DON’T YOU DO IT IN THE ROAD?
(Lennon/McCartney) 1:42
Mais um tema exclusivo de Paul, gravado a solo. Na discografia beatleana Paul sempre teve o epíteto do “melodioso”, em oposição a John que era considerado o “rocker”. Neste album existem algumas canções que parecem “trocadas”: esta e “Helter Skelter” são muito mais Lennon, enquanto que “Julia” ou “Good Night” soam mais a McCartney. Mas existia grande rivalidade entre os dois que adoravam surpreender-se mutuamente. “Why Don’t We Do It In The Road” teve mesmo o condão de irritar John que a apelidou de “very short, very rude, very rocking”. No íntimo estaria no entanto um pouco surpreendido que Paul tivesse composto algo no seu próprio estilo, como que lhe roubasse algo que por direito lhe pertenceria.
1.B.8 – I WILL (Lennon/McCartney) 1:46
Não chega a dois minutos mas é mais um dos grandes momentos de inspiração de Paul. Foi a primeira canção dedicada a Linda Eastman, que na altura já substituíra de vez Jane Asher no coração de Paul. No dia 16 de Setembro, quando o tema foi gravado (apenas com o acompanhamento de Ringo) foram precisos 67 takes para que Paul se desse por satisfeito com o resultado obtido.
1.B.9 – JULIA (Lennon/McCartney) 2:57
O fecho da primeira metade do “White Album” não poderia ter sido mais pungente: uma simples e maravilhosa canção que John dedicou à memória da mãe, falecida dez anos antes na sequência de um atropelamento mortal. No entanto o seu amor por Yoko também se encontra presente, nas palavras “ocean child” (a tradução inglesa para yoko é “child of the ocean”), como que a confessar-lhe que, para além de amante, também desejava que ela ocupasse aquele lugar especial, vazio há tanto tempo. Yoko chegou a colaborar na letra da canção, a qual foi gravada por John sózinho em estúdio, apenas com uma guitarra acústica - os acordes foram muito influenciados pela maneira de tocar de Donovan (que em Rishikesh ensinou algumas dessas técnicas ao Beatle).
2.A.1 – BIRTHDAY (Lennon/McCartney) 2:40
Trata-se do único tema do album que foi composto efectivamente a duo por Lennon e McCartney. O pretexto é que difere, conforme as fontes: umas dizem que foi um “presente” para Pattie, cujo aniversário ocorrera durante a estadia na India; mas outras, mais credíveis, afirmam que a canção foi já composta em Londres, nos próprios estúdios de Abbey Road, no dia 18 de Setembro, antecipando assim o 26º aniversário de Linda Eastman seis dias mais tarde (Paul sabia de antemão que ela estaria em Londres a tempo de festejar os anos com ele). Macca chegou esse dia mais cedo do que o costume aos estúdios e quando os outros apareceram, algumas horas depois, a música estava practicamente concluída. Nessa mesma tarde os Beatles foram a casa de Paul assistir pela televisão ao filme “The Girl can’t Help It” (1956) com Jayne Mansfield, e onde participavam diversos rockers: Fats Domino, Gene Vincent, Little Richard, Eddie Cochran e também os Platters. Inspirados por todos aqueles clássicos do Rock and Roll, os Beatles regressaram aos estúdios por volta das 11 da noite, escreveram o texto final e gravaram o tema. Yoko e Pattie participaram nos coros. Doze anos mais tarde, John Lennon diria sobre “Birthday”: «a good song to put in the trash».
2.A.2 – YER BLUES (Lennon/McCartney) 4:01
Uma das canções “desesperadas” de John, que tentava a todo o custo mudar de vida e partir noutra direção com Yoko. Musicalmente o tema inspira-se nos blues ingleses, tão em voga nesse final dos anos 60 (John Mayall diria ser uma paródia aos verdadeiros blues). John faz ainda uma referência a “Ballad of a Thin Man” de Dylan através de “Mr. Jones”, o personagem um tanto ou quanto estúpido dessa canção. A gravação do tema reuniu de novo e apenas os instrumentos “clássicos” dos 4 Beatles: John na guitarra e vocais, Paul no baixo, George na guitarra e Ringo na bateria.
2.A.3 – MOTHER NATURE’S SON (Lennon/McCartney) 2:46
Durante a estadia em Rishikesh, e na sequência de uma palestra dada pelo Maharishi sobre a relação do homem com a natureza, tanto Paul como John escreveram canções alusivas a esse tema. A de Paul foi esta, a escolhida para figurar no "album branco". Uma vez mais gravou-a sózinho, sem a presença dos outros três. John chegou a gravar uma maqueta da sua canção (“A Child of Nature”) em Maio de 68, mas os Beatles não a chegaram a gravar. Em 1971 viria a ser incluída no album “Imagine” com o nome de “Jealous Guy” (e agora podemos ouvir o demo gravado por John neste 50º aniversário do album).
2.A.4 – EVERYBODY’S GOT SOMETHING TO HIDE EXCEPT
ME AND MY MONKEY (Lennon/McCartney) 2:25
John escreveu este tema em resposta a um desenho que teria aparecido numa revista qualquer em que Yoko era visualizada como um macaco empoleirado nos ombros de Lennon a cravar-lhe as unhas nas costas, como que a retira-lhe o talento. A réplica de Lennon foi incisiva, como de costume: «Não temos nada a esconder. Yoko inspira-me, não me destrói a habilidade de escrever boas canções». Grande pedaço de puro rock and roll, o tema começa com as palavras com que inicialmente se deveria ter chamado: “Come On, Come On”. Foi gravada num ritmo mais lento e depois ligeiramente “acelerada” para dar ainda mais ênfase ao som extraordinário das guitarras e da própria voz de Lennon.
2.A.5 – SEXY SADIE (Lennon/McCartney) 3:15
Os Beatles deixaram Rishikesh profundamente desiludidos com o Maharishi. Afinal o homem não passava de um vulgar oportunista que apenas desejava retirar benesses (monetárias e mesmo sexuais) do convívio com o grupo e restantes convidados. John compôs então esta “Sexy Sadie” como pseudónimo para o guru, já que não podia usar directamente o seu nome devido a eventuais sanções legais: “Sexy Sadie, what have you done? You made a fool of everyone...”
2.A.6 – HELTER SKELTER (Lennon/McCartney) 4:30
O single “I Can See For Miles”, dos Who, saído em Outubro de 1967, teve uma crítica na revista Melody Maker onde se dizia, entre outras coisas, ser o tema de rock mais selvagem alguma vez feito. Paul leu essa crítica e nunca mais a esqueceu. Como os Beatles estavam sempre na vanguarda musical desses anos, Paul decidiu mostrar aos críticos o que a palavra “selvagem” significava realmente. E assim nasceu “Helter Skelter”, que rapidamente adquiriu o estatuto da música mais barulhenta de toda a discografia dos Beatles, quer a nível vocal (as vozes de Paul e de John explodem literalmente dos altifalantes) quer a nível instrumental (com as guitarras a percorrerem freneticamente toda a escala musical até o som se dissolver em feedbacks distorcidos). A gravação original durava, imagine-se, 25 minutos! Depois, claro, teve de ser encurtada para os 4 minutos e meio, finalizando com a exclamação do Ringo: «I’ve Got Blisters On My Fingers!” Este foi mais um dos temas do album invocados por Charles Manson como incentivo à matança de Los Angeles. Inclusivé, o procurador geral encarregue dos homicídios, Vincent Bugliosi, publicou mais tarde um livro onde relatava todo o inquérito. Deu-lhe o nome de “Helter Skelter”.
2.A.7 – LONG, LONG, LONG (Harrison) 3:08
Depois da tempestade só poderia vir a bonança. O lado 3 do "album branco" termina com esta calma canção de Harrison. Inspirada em “Sad Eyed Lady Of The Lowlands” de Dylan (album “Blonde On Blonde”, de 1966), “Long, Long, Long” é uma simples canção de amor de alguém que recuperou o seu ente amado. George revelou no entanto não ter tido qualquer inspiração terrena mas apenas espiritual. O que não admira, tendo sido ele o Beatle que primeiro se interessou pela religião oriental.

2.B.1 – REVOLUTION 1 (Lennon/McCartney) 4:13
E ao “Verão do Amor” de 67 seguiu-se a “Primavera da Revolução”. Em Março de 68 uma enorme manifestação teve lugar em Londres, frente à embaixada dos Estados Unidos, em Grosvenor Square, que terminou em violentos confrontos entre a polícia e os manifestantes. Dois meses depois foi o “Maio de 68” que eclodiu em Paris. John Lennon assistiu a todos esses acontecimentos pela televisão e resolveu também “participar”. Escreveu “Revolution” em casa, em Weybridge. Não era, longe disso, uma canção escrita por um revolucionário, apesar de Lennon ser o mais politizado dos Beatles e com ideias marcadamente de esquerda. Tratou-se antes de uma resposta de alguém a quem os grupos de jovens marxistas, leninistas ou trotskystas exigiam, constantemente, uma tomada de posição inequívoca. Para John a verdadeira revolução não passava pelos actos de violência de rua mas sim pela alteração das mentalidades. A 1ª versão que foi gravada foi esta, mais lenta, e onde aparece o verso “Don’t you know you can count me out...in”, como que existisse ainda uma hesitação no espírito de Lennon sobre o caminho a seguir. Já na 2ª versão, mais rápida, e editada no lado B de “Hey Jude”, o verso é expurgado das reticências finais. Foi o suficiente para que a revista Time, triunfantemente, consagrasse um artigo inteiro à canção, dizendo que ela “criticava todos os extremismos do mundo”. Seguiu-se uma série de correspondência entre Lennon e os autores do artigo sobre o tema “violência e revolução” que, evidentemente, originaram vendas astronómicas da revista. John gravou a canção deitado no chão, com o microfone pendurado sobre a boca. Mais uma vez a duração total da canção (cerca de 10 minutos) teve de ser encurtada para a sua inclusão no album.
2.B.2 – HONEY PIE (Lennon/McCartney) 2:42
“... and now she’s hit the big time...”: Simples homenagem de Paul ao seu pai, Jim McCartney, e por extensão às músicas dos anos 20. A orquestração de George Martin é uma pequena maravilha, levando-nos a recuar no tempo, às grandes orquestras de salão. Incompreensivelmente foi mais um dos temas do "album branco" que Charles Manson pensou ser-lhe dedicada. Mas quem é que consegue compreender as razões de um louco?
2.B.3 – SAVOY TRUFFLE (Harrison) 2:55
Quarta e última contribuição de George para o album, este tema não é mais do que uma alusão brincalhona à atração irresistível que Eric Clapton sentia por chocolates, a ponto disso lhe ter dado cabo dos dentes. Na letra aparecem referências a diferentes tipos de chocolate Good News, da Mackintosh: Creme Tangerine, Montelimart, Ginger Sling, e Coffee Dessert, além do próprio Savoy Truffle. Mas por exemplo Cherry Cream e Coconut Fudge foram inventados por George por necessidades de construção da canção.
2.B.4 – CRY BABY CRY (Lennon/McCartney) 2:34
John inspirou-se num anúncio publicitário que viu na televisão (“Cry baby cry, make your mother buy”) para compor esta canção, mas a música denota grande influência das canções que Donovan costumava escrever para crianças. A canção termina com uma pequena intervenção de Paul (“Can You Tack Me Back Where I Came From”), que serve de ligação ao tema seguinte.
2.B.5 – REVOLUTION 9 (Lennon/McCartney) 8:15
Há quem considere este tema o pior de toda a discografia dos Beatles. Não concordo. Primeiro porque não é um tema propriamente dito, depois porque nem sequer pode ser considerado pertencente aos Beatles. Trata-se, isso sim, de uma colagem de sons feita por John e Yoko que, já completamente inseparáveis, tentavam mostrar ao mundo todo o seu vanguardismo artístico. Recorreram aos arquivos da EMI, donde extrairam grande parte dos sons que aparecem na faixa, e cujas proveniências eram quase impossível de identificar, como por exemplo a voz de “number nine..., number nine...number nine…”. Mesmo assim ainda se conseguem ouvir algumas palavras ditas por John, Yoko, George ou Ringo. McCartney encontrava-se nos Estados Unidos quando o tema foi gravado e ficou furioso quando o mesmo foi incluido no album por decisão dos outros três Beatles.
2.B.6 – GOOD NIGHT (Lennon/McCartney) 3:14
“Good Night” é certamente o tema mais sentimental escrito por Lennon. Fê-lo como que uma canção de embalar para Julian, tal como doze anos depois escreveu “Beautiful Boy” para Sean. Pouco depois acontecia o divórcio de Cynthia é só muitos anos depois é que Julian soube que a canção lhe era dedicada. Tratando-se de um album duplo, e como a voz de Ringo tinha de aparecer também neste segundo disco, Lennon trauteou-lhe a canção para lhe mostrar como queria que ela soasse. Ringo cantou-a admiravelmente, acompanhado por uma orquestra de trinta elementos, incluindo harpa e coros. Cerca de 94 minutos depois de um avião a jacto ter aterrado no prato do nosso gira-discos, “Good Night” mandava-nos a todos para a caminha ter belos sonhos…
Referem-se de seguida os 10 CDs que Rato Records disponibiliza a partir de agora a todos os seus amigos e visitantes deste blogue:
CD 1 - The Beatles (lados A e B) em stereo (edição de 2018)
CD 2 - The Beatles (lados C e D) em stereo (edição de 2018)
CD 3 - The Esher Sessions (edição de 2018)
CD 4 - Sessions (edição de 2018)
CD 5 - Sessions (edição de 2018)
CD 6 - Sessions (edição de 2018)
CD 7 - The Beatles (lados A e B) em mono (edição de 2009)
CD 8 - The Beatles (lados C e D) em mono (edição de 2009)
CD 9 - The Beatles (lados A e B) Tributo RR (edição de 2008)
CD 10 - The Beatles (lados C e D) Tributo RR (edição de 2008)











27 comentários:
Uffaaa! Isto é o que eu chamo um trabalho de grande fôlego. A "contínua" história do album branco contada por quem realmente entende destas coisas - fiquei a saber muitas coisas que desconhecia. Obrigado!
Mais um trabalho de "tese" do meu amigo roedor. As muitas horas que certamente perdeste em coligir tudo isto valeu a pena! Já para não falar no CD duplo do tributo, cujo alinhamento das versões está fantástico, bem como o curioso grafismo. A propósito, aquele ñº de série tem um significado, não tem? Pois, a mim não me foi difícil adivinhar, mas está descansado que não digo nada a ninguém. Um grande abraço!
Uma vez mais um grande texto, intercalado de belas fotografias. E o CD-Tributo está um espanto!
O leilão do nº 0000005 (em mono!) já está quase a chegar às 9.000 libras. Por este andar é muito provável que até domingo chegue perto das 20.000 libras!
The History of No.0000005
Some years ago, this album was taken into the collectors shop named 'Vinyl Revival Records' in Newbury, Berkshire, England by a musician (they did not disclose who) who had visited John in the flat that he shared with Yoko in late 1968 (that was owned by Ringo) at 34 Montague Square, Marylebone, London W.1. The musician saw a pile of White Albums on a table and asked for one. John readily agreed, but said 'Don't take No.1 - I want that'. Instead he took No. 5'.
The album then passed into the hands of Beatles specialist dealer 'Good Humour' who then sold it to its current owner who has now commissioned me to sell it on his behalf.
rato:
Qual é a bibliografia para as notas sobre as canções?
Tenho por aqui algumas coisas, que contam histórias quase idênticas e que denotam leituras na mesma fonte.
Vou escrever sobre o disco, de um outro ponto de vista.
Olá José
Basicamente socorri-me de dois livros: "L'Intégrale Beatles: Les Secrets de Toutes Leurs Chansons" (Steve Turner, 1994) e "The Beatles Album File and Complete Discography" (Jeff Russell, 1982). Mas também dei uma vista de olhos por outros livros, revistas e pela internet.
O nº 0000005 já atingiu as 10.000 libras!
Desafio aqui o Ganza (um daqueles gandes amigos do peito de que falo neste post) a falar das memórias que o album branco lhe traz também, inevitavelmente. Muitas delas são memórias cruzadas com as do Rato, pois nesse tempo frequentavamos a mesma cidade, a mesma praia, o mesmo liceu, a mesma sala de aula. E víamos os mesmos filmes, e ouvíamos as mesmas músicas.
Obrigado.
Por causa deste postal, já ouvi o Branco e duas vezes o 3º da Antologia que contém versões das canções, de outras sessões da gravação.
As sessões Esher. Pelos vistos ( lido na Mojo) há por aí mais 19 versões á solta em bootlegs.
Grande Rato,
Mais um belo texto que nos leva de volta, numa viagem de 40 anos! E nós que falamos o maravilhoso português temos uma palavra que expressa com precisão os sentimentos de situações como essa: saudade - quanta saudade! Naquele ano também tinha 15 anos. Faria 16 em dezembro. Junto com outros amigos, não tão do peito, era (e continuo)doido pelos Beatles. Era Deus no céu e eles na Terra.
Talvez um dos primeiros exemplares do White Album que chegou aqui nas terras tupiniquins teria sido trazido pelo pai da Rita Lee, numa viagem de retorno da Inglatera, que coincidiu com o lançamento. Ocorreu então um encontro entre Os Mutantes e Caetano Veloso na casa da Rita para conhecerem as músicas. Caetano ficou tão empolgado que pos-se a traduzir as letras. O resultado saiu publicado, como parte do artigo noticiando o lançamento do disco, na revista Veja, que estava em seus primeiros números.
O lançamento foi muito comentado e analisado na imprensa escrita e no rádio. Havia uma estação de rádio, a Excelsior, que só tocava música, sendo que algumas denominavam exclusivas, pois importavam os discos ou cartuchos. Ela produziu um programa, com o seu melhor DJ, o Antonio Celso, e no qual tocou todas as músicas do LP. Fiquei muito frustrado por não ter tido a chance de ouvir a 'primeira' audição do disco. Naquela época já trabalhava no meu primeiro emprego, como office-boy de uma grande empresa e, claro não pude ouvir o programa.
Fiquei fisicamente longe do White Album por um bom tempo. Mas me contentava em ouvir os temas que tocavam nas rádios. Embora os grandes hits dos Beatles naquele período eram Hey Jude e Revolution, que haviam sido lançados num compacto simples lá por agosto, os temas Ob-La-di Ob-la-da e I Will logo começaram a ser repetidos nas rádios.
Se não estou enganado a versão brasileira do White Album só foi lançada em fevereiro ou março de 1969. E mesmo assim continuei longe daquela jóia. Era muito caro. Assim dependi de alguns conhecidos para algum tempo mais tarde vir a conhecer todo o seu conteúdo. Um amigo tomou emprestado de um outro, mas só veio um dos discos - que tinha Sexy Sadie, Savoy Truffle, Mother's Nature Son, etc. Tocamos aquela única peça milhares e vezes por semanas.
Meses depois veio Abbey Road. Esse eu pude comprar logo no lançamento! E o White Album ficou um pouco para trás. Consegui comprar um exemplar dez anos depois, quando já era casado e havia decidido ter todos os LPs oficiais do grupo.
Com toda essa história, quis mostrar que o Whie Album é até hoje um dos mais valiosos para mim.
Portanto, muito obrigado por lembrar do aniversário dos 40 anos e pelas interessantes informações que passou.
Um grande abraço,
Carlos Alberto
PS.: I guess the musician who took the number 0000005 was Eric Clapton.
Obrigado, Carlos, por este magnífico comentário. Dá para perceber como este album foi tão importante para tanta gente em todo o mundo.
Imagina que amanhã até vou participar num almoço comemorativo, com t-shirts a condizer e tudo!
Um texto fabuloso, obrigado.
-Zigoto-
p.s.: os links dão-me erro: "Error: Bad Referrer!"
Desculpe a maçada, afinal os links estão correctos. O problema que tive resultou de os links só funcionarem correctamente clicando sobre eles; copiando-os para abrir noutra página resulta em erro.
Obrigado mais uma vez.
-Zigoto-
Excelente crônica sobre o Álbum Branco, nem as revistas especializadas em músicas aqui no Brasil publicaram uma matéria tão completa como esta.
Saiu recentemente pela Rolling Stones brasileira uma revista dos The Beatles - Suas canções.Mais a crônica sobre o Album Branco obviamente é resumida
Que pena !
A Rolling Stone brasileira acaba de lançar um livro de 120 páginas, com introdução de Elvis Costello, falando sobre as 100 músicas mais importantes dos Beatles.
A escolha foi feita baseada num ranking dos editores da Rolling Stone. São inúmeras fotos, os bastidores de cada música e depoimentos que Paul McCarntey, George Harrisson, John Lennon e Ringo (fazer o quê, né?) deram para a revista nos últimos 40 anos.
Um trecho da introdução de Elvis Costello:
“John Lennon, Paul McCartney e George Harrison tinham padrões incrivelmente altos na composição. Eles fizeram parte da primeira banda a brincar com a perspectiva aural das gravações, sem usar isso apenas como um truque.”
Meu blog voltou as atividades por favor o amigo poderia postar meu link no seu blog
http://orlandivicastro.blogspot.com/
Obrigado
Eu vi lá meu blog
"Som de Primeira"
O Google taxou como se tivesse pornografias.
Que pena !
Eu ainda tenho meu vinyl (com muitos arranhões) da época que foi lançado aqui no Brasil, não lembro se foi no fim de 1969 ou início de 1970, meu pai me deu de presente. O interessante é que veio com um defeito de fabricação na posição do furo do segundo disco, alterando a rotação que fica bem lenta e disforme. Meu pai percebeu a posição errada e usou uma ferramenta pequena de ferro chamada "lima", tipo uma lixa, ele limou aos poucos o furo até chegar na rotação correta. Com isso o furo ficou um pouco oval mas só assim para se ouvir as músicas corretamente. Nunca soube de mais alguém que tivesse o álbum com o mesmo defeito.
Gostaria, se for possível, que você fizesse novamente um re-upload.
Agradeço desde já.
Angela (Brasil)
Muito curioso, Angela, realmente nunca tinha ouvido tal-
O album só ficará disponível outra vez para o ano, quando se celebrar o 50º aniversário, em Novembro de 2018.
Ok, muito obrigada.
Angela
O artigo está muito bem escrito e nada tenho a dizer.
Apenas que não gosto deste disco que nem tenho; cheguei a comprar mas a prensagem era muito má e vendi-o.
Nunca tive vontade de o voltar a comprar.
Talvez seja agora a altura ideal, José Luís. É que melhor do que o som agora conseguido pelo Giles Martin será muito difícil de ultrapassar. Ofereça uma prenda muito especial a si próprio e estou em querer que não se arrependerá. E o Natal está quase ai!
Thank you for this educational post! I bought my first copy in the UK right after release, and have probably purchased another 10-12 copies in vinyl, cassette and CD over the years, as released in many countries...
Tanks again,
Cheers,
Mike
The 50th Anniversary White Album can't get any more complete than this. Thank you. Well I remember when Eric Clapton brought 13 or so tracks from England for preview on a NYC AM station. Every friend I had gathered to listen. Beatles releases were momentous events. Hell, Janis Joplin stopped a show to wheel out a TV so her audience could see the Beatles perform "Hey Jude" on the Smothers Brothers show. I think "Revolution" was aired a week later. By then, we knew there were major differences between mono and stereo mixes and that the mastering for all Beatles albums was far superior in England. So we waited a little longer to get the British copies of these albums. But the radio stations were playing the album non-stop so the wait was tolerable. Although Giles Martin's 60th anniversary remix of Sgt. Pepper turns it from a headphone to a living room mix, the mono still reigns supreme. Indeed, I was listening to a well-worn mono version of Donovan's "Wear Your Love Like Heaven" LP and if find it vastly superior to the CD stereo mixes. Engineers just knew what to do in mono better than they did in stereo. It was only on the White album that the stereo surpassed the mono--but even then, not entirely. In any case, thanks for this gift. It brings back excitement that music rarely offers anymore.
Olá, vim agradecer-lhe a nova postagem conforme você anunciou ano passado. Muito obrigada pelo belo trabalho. Abraços.
Angela (Brasil)
Beatlemania Lives!
Amigo Rato
Um grande fruto ao publicar no seu blog o
"WHITE ALBUM" com grandes reportagens como eles merecem.
Parabens e muito obrigado
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