sexta-feira, 2 de agosto de 2019

JOSÉ AFONSO - "Cantares do Andarilho"

Edição original no LP Orfeu 35.020
(PORTUGAL, Dezembro de 1968)


Por mais parodoxal que possa parecer, a carreira musical de José Afonso ficou devida em grande parte à polícia política do regime salazarista, a famigerada P.I.D.E. de má memória. Com efeito, ao regressar de Moçambique em Agosto de 1967 (onde estivera a viver 3 anos nas cidades da Beira e Lourenço Marques), José Afonso apenas pensava em continuar a ser professor e voltar ao convívio dos alunos. Aliás, o acto de cantar sempre foi encarado por ele como um frete, o que gostava mesmo de fazer era de ensinar. Mas o regime de Salazar não lhe permitiu isso. Durante o internamento clínico a que foi obrigado na sequência de uma grave crise de saúde, recebe a notícia de que tinha sido expulso do liceu de Setúbal (onde estava então colocado), bem como de todo o ensino oficial. Com a polícia política sempre à perna, José Afonso é deste modo confrontado com as necessidades da sobrevivência, vendo-se obrigado a dar explicações e a repensar a continuação da carreira musical (interrompida quando da ida para Moçambique), apesar do cancelamento constante de espectáculos e da proibição da difusão dos seus discos pela rádio. Rui Pato e António Portugal, companheiros de longa data, começam então a movimentar-se. Sucessivamente percorrem diversas editoras, algumas delas para as quais José Afonso já tinha gravado antes. Em vão: todas as portas se fecham, com medo de represálias da P.I.D.E.. Até que por fim vão ao Porto falar com o Arnaldo Trindade, dos Discos Orfeu, que, assumindo correr os riscos, propõe a José Afonso um contrato para a gravação de um album anual contra o pagamento de uma mensalidade fixa. Era o início de uma colaboração histórica, que durou 14 anos (1968-1981), durante os quais José Afonso gravou a parte mais rica da sua obra.



O ponto de partida foi precisamente este, o “Cantares do Andarilho”, gravado de um só fôlego num único dia. Na altura do seu lançamento, no Natal de 68, Urbano Tavares Rodrigues escreveu que «José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã e a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.» Nestes cantares, Zeca alia a sua criatividade à mais genuína inspiração popular, quer através da utilização de melodias tradicionais quer tomando-as apenas como um ponto de partida para a criação de novos temas, mantendo, no entanto, a sua estrutura formal. São os casos, por exemplo, de “Natal dos Simples”, da “Balada do Sino” ou dessa comovente “Canção de Embalar”, sem dúvida uma das mais belas canções de Zeca e, porque não dizê-lo?, do nosso cancioneiro popular. Uma referência final a “Vejam Bem”, um tema que se iria tornar uma espécie de hino da geração de 70.





7 comentários:

xan_lobo disse...

Rato, oooouh, Rato!
"todos esses albuns originais irão aqui ser recordados..."

vocé fai auténticas maravilhas co seu blog: mençao especial aos comentários, sempre tan gustosos...

Muito, muito obrigado!!!

(non conhecia este primeiro album de Zeca... estou felizmente afetado!)

di(aphanous disse...

Simply saying “Many many thanks to you, Rato”, cannot cover my feelings for this gift. The rip from my own LP is not half as good as what you've offered, of a beautiful album that I treasure.

Be forever blessed!

Bucks disse...

Olá

Muito obrigado pelos excelentes 'posts'

Infelizmente o link para o album "ZECA AFONSO: 20 ANOS DE SAUDADE " morreu.

Ficaria muito agradecido caso apareça alguém com um novo link.

Muito obrigado

julioxo disse...

Sr. Rato ¿podria resubir este album?
Muchas gracias
Saludos

FernandoPPereira disse...

Conheço o Rato Records há pouco tempo, digamos meses e fiquei estupefacto como ainda é possível tanta qualidade e organização. Neste disco por exemplo pensava eu que o que tinha era original até escutar este. Quem sabe, tal como este haverá muitos mais assim. Obrigado, muito Obrigado pelo seu generoso e extraordinário trabalho. Sem querer abusar da sua generosidade, por favor reedite os outros do Zeca, por favor. Um Abraço desde o México.
FernandoPPereira

Rato disse...

Obrigado pelas suas palavras, Fernando. Outros albuns do Zeca irão aparecendo por aqui. Fique atento.

FernandoPPereira disse...

Obrigado Amigo Rato. Um Abraço.

FernandoPPereira

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