terça-feira, 27 de maio de 2008

Dos Benefícios do VINIL no Reino do CD

Há mais de vinte anos que o compact-disc, vulgo CD (inventado em 1979 e comercializado a partir de 1982), fez a sua entrada nos meios dos registos sonoros. Tinha por missão alcançar uma melhoria significativa no som, livrando-nos de todos os cracks e plops com que o VINIL usualmente nos brindava. Não falando nos primeiros anos de vida, em que o som debitado era realmente muito mauzinho, hoje pode-se de um modo geral reconhecer que tal missão foi alcançada. Melómanos à parte, cuja exigência de qualidade só muito raramente é satisfeita e sempre por intermédio de equipamentos super luxuosos cujo acesso está vedado à grande maioria dos amantes de música.
Mas apesar do salto qualitativo em termos de áudio, será que o CD conseguiu substituir o VINIL? Penso que não, porque tirando o som (e mesmo esse é discutível, visto que a faixa dinâmica e resposta do CD não supera em todos os quesitos as do VINIL – nomeadamente nas frequências extremas em que a “naturalidade” e a espacialidade se perdem) o CD nunca conseguiu ocupar o lugar do VINIL, sobretudo como objecto iconográfico de várias gerações de consumidores.
Se pensarmos que a área útil da capa de um CD é cerca de nove vezes inferior à de um long-playing de VINIL, facilmente se compreende a razão da impossibilidade de uma hipotética substituição. Na altura do lançamento do compact-disc privilegiou-se mais uma vez o lucro fácil (hoje já não é segredo para ninguém que o custo de fabrico de um CD representa menos de 10% do preço a que ele é tabelado comercialmente), não se tendo sequer pensado que as novas dimensões, de tão reduzidas, iriam inevitavelmente acabar com um dos grandes trunfos das edições em VINIL.
Refiro-me obviamente às capas e a todo o artwork a elas associado. Hoje em dia publicam-se livros ou fazem-se exposições sobre essas mesmas capas, divulgam-se os nomes dos artistas que deixaram a sua marca em muitos trabalhos discográficos. Mas na era pré-CD tudo isso estava implícito no objecto disco, ou seja, comprava-se pelo mesmo preço a música e a arte.
E quão diferente era a sensação de se ir a uma loja de discos, manusear dezenas e dezenas de exemplares até o nosso gosto pessoal eleger os felizes contemplados com um bilhete de ingresso às prateleiras da nossa casa. Seguia-se depois todo um cerimonial que conduzia à audição: a retirada do disco do seu invólucro, a colocação no prato do gira-discos, o acerto do nº de rotações, a passagem da escova “Emitex” pela superfície já em movimento, a suave descida da agulha na primeira espira da primeira faixa do primeiro lado.
E depois sentávamo-nos, com o album entre mãos. E se fosse daqueles de abrir (o nome técnico é “gatefold”), melhor ainda. E caso as letras viessem lá impressas então o contentamento era ainda maior, pois dáva-nos a possibilidade de seguir as músicas palavra por palavra. Foi assim que eu me habituei a ouvir e a amar a música nos meus verdes anos. O advento do CD, nos meados dos anos 80, acabou de vez com todos aqueles pequenos prazeres, as novas capas foram banalizando-se cada vez mais até incluirem apenas um grande plano do intérprete do disco, a maior parte das vezes de qualidade fotográfica inferior.
Têm-se feito algumas tentativas nos últimos anos visando conferir ao CD uma dignidade própria: são as edições cartonadas especiais, réplicas de albuns ou ainda caixas de antologias onde se inclui diverso material adicional, como pequenos livros ou luxuosos folhetos. E no entanto a solução sempre foi fácil, pelo menos pessoalmente já a pratico há alguns anos a esta parte: dei-lhe o nome de “album híbrido”, que no fundo não é mais do que a junção dos dois suportes musicais: o principal, a versão original do disco em VINIL e o secundário, o CD incluído na capa interior (desse modo pode continuar a usufruir-se de todas as vantagens do album em edição original e ouve-se a música em CD para assim preservar o VINIL).
Hoje em dia já tenho umas dezenas largas de albuns arquivados neste sistema “híbrido”, sobretudo aqueles a que me sinto mais ligado. É um pouco irónico, eu que de casamenteiro tenho muito pouco ou quase nada, andar sempre à procura de parceiros para os meus discos “solteiros”. Mas recomendo a todos os coleccionadores a adesão a este ritual – verão que não se arrependem.

10 comentários:

Anonymous disse...

valeu rato
me deu arrependimento de no inicio dos noventa ter me desfeito de 4000lps.
abraços psalesa brasil

nowhereman disse...

Realmente, a banalização do CD chegou a tal ponto que agora é distribuído gratuitamente em tudo o que é revista. Mas como o Rato sugere, podiam era usá-lo como complemento das edições discográficas, as quais deveriam voltar a ser comercializadas em vinil. Ficaríamos todos a ganhar com isso.
ABAIXO O MP3! LONG LIVE THE VINYL!

Anonymous disse...

Estas magníficas fotografias de lojas de discos (a maioria são londrinas, não são?) dão-me cá uma saudade...

Anonymous disse...

pois eu não concordo com a pretensa superioridado de um formato sobre o outro.
o que se passa é que hoje os cds são gravados com muitas compressões dinâmicas o que desvirtua o som, mas aí a culpa é da indústria. se alguém quiser editar um cd com qualidade igual ao vinil consegue sem sombra de dúvidas. desde que o técnico seja competente o resultado não será inferior e desde que o deixem brilhar, não lhe imponham limitações.
o exemplo que eu dou é o seguinte:
peguem num lp tocado num bom gira discos, com uma boa célula e uma boa unidade phono e gravem esse vinil para cd usando um Dat ou um bom gravador de mesa. Depois peguem nesse cd e coloquem num bom leitor de cds e comparem com a gravação original em lp e vão ficar a saber que o resultado é praticamente igual, não se nota a diferença entre um formato e outro.
eu próprio uso esse sistema, passei tudo de vinil para cd usando um gravador normalissimo da pioneer de mesa e o resultado bateu claramente as minhas expectativas.
e rio-me quando por vezes cedo cds a amigos que procuram este ou aquele lp e eles nos seus ambientes domésticos ficam admirados com o som, pudera, a fonte é outra.
mas reconheço que a maioria das pessoas não tem acesso a bons leitores de cds e a bons gira discos, daí uma certa dificuldade em acreditarem que é possivel.
divirtam- se e sobretudo ouçam música, seja lá qual for a fonte.

jose mario joebarbosa@apo.pt

Rato disse...

Concordo contigo, José Mário, aliás acho que dei precisamente a entender isso naquilo que escrevi no post. Mas na verdade o que aprecio mais é o "objecto vinil" em si, independentemente da qualidade sonora. Não sou um melómano, sou sim um coleccionador mediano - não embarco em loucuras de preços mas pelo-me por aquelas edições originais, em cartão pesado, que os americanos, sobretudo, eram exímios em fabricar. No mundo dos discos não há nada que me saiba tão bem como ter uma dessas edições entre mãos. E últimamente tenho sido agradavelmente surpreendido no ebay, onde tenho encontrado coisas fantásticas por preços não menos fantásticos também.

Anonymous disse...

O grande boom da difusão da música pelo CD teve a consequência de o vinil ser ainda mais apreciado, se bem que por uma minoria. Mas por um lado ainda bem que os seus defensores formam um "clube" à parte, pois de outro modo hoje em dia não seria o objecto de culto em que se tornou. Isto é como tudo na vida - a grande aderência das massas a uma determinada moda tende quase sempre a banalizar essa mesma moda, retirando-lhe o eventual valor que possa ter. Foi o que aconteceu com o CD, hoje um objecto de consumo vulgar.
Mas apesar dessa sua vulgaridade, ainda continua a possuir uma identidade física embora evidentemente não possa ser comparado à magnificência do vinil.
Mas nos dias de hoje, e infelizmente parece que nos dias do amanhã, a música deixará provavelmente de ter um suporte físico, continuando a ser algo virtual, que se ouve mas que não se pode tocar. Triste geração esta que um dia mais tarde não terá imagens para recordar os anos da juventude.
Ricardo Martins

josé disse...

josé mário:

Tenho dúvidas que um cd, possa recuperar toda a dinâmica de um LP. Por um motivo simples: o sampling que é característica do som cd, não preenche toda a continuidade sonora, do som analógico e que tem uma particularidade que é a de suavizar o som. Tal efeito, só se percebe ao fim de alguns minutos de audição, mas parece-me real.

Por outro lado, o cd, em gravações originais, apresenta um som mais puxado e com mais impacto sonoro.

No entanto, fico com a pulga atrás da orelha, no que se refere à possibilidade de gravação em dat.

Será que soa melhor do que o cd?

Anonymous disse...

caro rato

como eu compreendo quem colecciona o vinil por causa das capas, da apresentação, das notas biográficas que acompanham muitas edições.
mas depois chegamos a uma certa altura e temos de fazer opções de vida e quem como eu não tem filhos, apenas gosta da música pela música, está desempregado + a patroa, terá de cair na realidade. há vida para além da música, não se esqueçam, e essa vida está cada vez mais cara, basta ver o preço da comida e dos combustíveis para nos questionarmos o caminho a seguir. eu escolhi este, outros mais cómodos escolherão outro, tudo bem.

respondendo à outra mensagem, o DAT grava muito bem um Lp, sem dúvidas, mas o seu custo é proibitivo para o cidadão normal.

eu costumo dizer: quem não tem cão, caça com gato. a opção de passar o vinil para cd superou de largo as minhas expectativas, pode não ser 100% perfeito, mas eu em minha casa tenho alguma dificuldade em os distinguir.

Rato disse...

Aqui o Rato também vive apenas com a Rata e ratinhos nunca houve. Felizmente não faltam as ocupações "oficiais", até porque a reforma já não está assim muito longe. Por isso lá vai havendo disponibilidades (monetárias e temporais) para certos hobbies. Se bem que, aqui pró Rato, a Música (e o Cinema) foram sempre considerados muito mais do que simples hobbies e desde tenra idade. Mesmo em tempos críticos (ou mais críticos, porque desde que me lembre nunca houve tempos de abundância) sempre fizeram parte das minhas opções essenciais de vida. Ao fim e ao cabo é como dizes, José Mário, é tudo uma questão de escolha (quando podemos escolher, evidentemente).
Um abraço

Angelo Rigon disse...

Bonita postagem.

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