sexta-feira, 25 de abril de 2008

MANIFESTAÇÃO DE APOIO

A multidão invadira a praça, rodeando a estátua que lá em cima apontava, imperativa, a grande glória da pátria. Espezinhando canteiros, inundando ruas adjacentes, vociferante. A manifestação.
Os gritos indicados. Guinchos.
Várias crianças à procura da mãe ou do pai.
Era o apoio. Incondicional.
Ininterrupto, ao primeiro-ministro.
Ali, na praça enorme e paciente.
O primeiro-ministro olhou por uma das janelas, no terceiro andar antiquíssimo do Paço Ministerial. Sorriu levemente. Apalpou a cara, passou uma das mãos pela lapela do casaco, numa carícia inconsciente. Acenou com a cabeça, discreto, um pouco irónico, ao ministério perfilado no fundo da Sala dos Actos.
Dirigiu-se à varanda alta, sobre a praça apoplética.
Abriu a janela num gesto amplo e paternal
e deu um passo em frente.
Ouviu-se um som murcho e abafado, uma espécie de paff das bandas desenhadas, lá em baixo, no empedrado decorativo que circundava o Paço.
Alguém tirara a varanda. Toda.
(Mário-Henrique Leiria)

2 comentários:

Anonymous disse...

Bom dia Rato.....

assim é que é!!!!!

ontem à noite já estava a ficar chateado.....

Ganza

gin-tonic disse...

Excelente e original maneira de assinalar o 25 de Abril, amigo Rato.Nada melhor que o humor agressivo de M.H.L. mas um humor de querer que os outros cheguem até nós e gostem de nós, como disse um outro Mário, o Viegas.
A velha discussão: "Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei! mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que me viessem dizer era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo."

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