Pedro Bandeira Freire, que morreu ontem no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, aos 68 anos, na sequência de um acidente vascular cerebral sofrido há alguns dias, e que em 1975 fundou o Cinema Quarteto ("4 salas / 4 filmes"), o primeiro multiplex português (e de Lisboa), era a última pessoa a querer que o evocassem com ar sério, voz embargada e lágrimas a escorrer pela cara abaixo. Por isso, começo por o recordar com uma história das dele.
Quando, pouco depois do 25 de Abril, se estreou em Portugal "A Religiosa", de Jacques Rivette, foi o Quarteto que recebeu o filme "maldito" (esteve um tempão em cartaz). Calhou o próprio Rivette vir a Portugal e Bandeira Freire acolheu-o cortesmente no cinema. Mas o cineasta francês lá viu (ou julgou ver) qualquer coisa mal na projecção, e começou a moer o juízo a Bandeira Freire, que não conseguia divisar nada de errado na forma como o filme estava a ser mostrado. Até que, perdendo a paciência, virou-se para Rivette, apontou-lhe a porta do cinema gritando «Dehors! Dehors!» («Rua! Rua!»), e conduziu-o para fora do edifício, meio empurrado, meio arrastado. Quando alguém lhe disse, «Ó Pedro, mas tu puseste o Rivette na rua? Estás maluco?», Bandeira Freire respondeu: «Pois pus! Ele é o Rivette, mas o cinema é meu!».
Numa das orelhas do seu livro de memórias Entrefitas e Entretelas, o também poeta, autor de teatro, rádio, televisão e de livros de máximas, argumentista, realizador (de duas curtas metragens), actor, letrista de canções, fundador da Livraria Opinião, jurado de festivais de cinema, grande amante de cinema e bon vivant consumado, deixou a biografia feita de forma tão completa e concisa, que é impossível não nos auxiliarmos das suas próprias palavras.
Nascido em 1939, antes da II Guerra Mundial, Pedro Bandeira Freire era, por isso, "material robusto e do melhor". Após quase ter terminado "com esforço e tenacidade" o Colégio Miitar (era o "57"), licenciou-se em "Gestão de Sentimentos", com "Mestrado de Relações Públicas" e doutoramento "em Filosofia de Vida". Não tendo habilitações para fazer alguma coisa de útil (o mesmo é dizer que não sabia nada de nada), dedicou-se a fazer um pouco de tudo. Uma das suas grandes qualidades - a preguiça!. Trabalhou em distribuidoras de filmes e na TAP, escreveu em jornais e revistas, fundou uma livraria e um cinema, o Quarteto, (onde divulgou anos a fio o melhor do cinema mundial e foi, durante muito tempo, campeão absoluto da cinefilia e da cultura cinematográfica), publicou livros, peças de teatro ("12 peças e meia, mais 4 do que o filme do Fellini", a Sociedade Portuguesa de Autores vai lançar uma inédita na sua colecção de teatro), e foi "amestrado, caricaturado amado e odiado, representado, jurado, letrista, premiado, censurado, enganado e fez os possíveis, embora sem obter resultados, para ser feliz". E gozou muito, sempre, imensamente, a vida, tanto como os filmes.
Há cerca de um mês, em plena "crise de consumismo e de cinefilia", Pedro Bandeira Freire entregou as chaves do Quarteto, após as quatro salas da Rua Flores do Lima terem sido fechadas pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais, por apresentarem falhas ao nível da segurança. (Espera-se que o Quarteto não tenha o triste destino de tantas outras salas de cinema de Lisboa, e que quem de direito faça o que é preciso, e se exige, para o manter aberto, a passar filmes e com público).
(Eurico de Barros in Diário de Notícias, 17 de Abril de 2008)



6 comentários:
Pedro Bandeira Freire foi também autor de várias letras de canções, especialmente em parceria com Paco Bandeira. Um homem plural, como o atesta a sua autobiografia que aqui mostras, e que muita falta vai fazer a Lisboa e a Portugal...
P.S. Impossível esquecê-lo no filme "Crónica dos Bons Malandros", como teórico do grupo de ladrões...
Há vidas, e sítios, e pessoas, e marcas, imagens, e lugares, experiências, e recordações, e histórias, sinais, nos afectos, dos vivos, pelo que também não morrem facilmente, quanto muito se transformam ou reinventam na sua génese. Estranhamente dou comigo, e ocorre-me, a redescoberta do meu bem amado poeta genial, …
“Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como
tabuletas, …”
e logo e só, e assim, e tão de repente, e a propósito desta homenagem tão simples e justa, ... discordo, definitivamente e pela primeira vez, com o que escreveu o poeta a seguir, (por tão contraditório e pessimista ...)
“Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.”
Não, e não… julgo dever ser assim,
Sempre isto ou sempre outra coisa, e sempre tão real, e útil e possível,
Sempre uma coisa defronte da outra e sem mistério, por encantamento,
E sempre essa capacidade inesgotável de maravilhamento e consolação,
Na natureza humana….
E para hoje recomendo e classifico de “Mto Bom”:
(Um Livro: Este País não é para Velhos / Cormac Mccarthy / Relógio D'Água)
(Um DVD: Pack “Cosmos” / Carl Sagan / Adrian Malone /1980)
(Um CD: Carmina Burana / Carl Orff / James Levine / Deutche Grammophon)
Nota: A conjunção copulativa (e) utilizada acima é já uma homenagem à escrita do
também citado Cormac Mccarthy
Um abraço do….
Ganza
Rato,
I forgot to ask you when your next easy delights comp number 4 will be released?
VR
Estive presente na inauguração do Quarteto, uns dias antes do 25 de Novembro de 1975, quando a inocência também ainda estava presente em mim. Julgo que o filme eleito dos 4 das 4 salas foi "E Deram-lhe Uma Espingarda" do ex-proscrito de Hollywood, o realizador-argumentista Dalton Trumbo. Esse foi o primeiro de muitas dezenas que ali vi ao longo dos anos. Nunca privei com o Bandeira Freire mas lembro-me de o ver muitas vezes nos intervalos a deambular pelo foyer. Só muito recentemente é que fiquei com uma perspectiva do homem ao ler aquelas curiosissimas histórias que ele nos deu a conhecer nestas "entrefitas" biográficas e que me fizeram invejar todos quantos com ele tiveram a oportunidade de conviver: é que pessoas assim vão habitando cada vez mais raramente este mundo egoísta e mesquinho, pelo que os felizardos que os têm nos seus círculos de amigos não os devem deixar saír. Como certamente aconteceu com o Bandeira Freire, preso para sempre nas memórias de todos quantos com ele privaram.
Não sei quem foi Flores de Lima, a rua sem saída onde o cinema Quarteto se encontra, vai fazer 33 anos. Tempo mais do que suficiente para a edilidade lisboeta equacionar a mudança daquele nome para Pedro Bandeira Freire. Seria dar o "dono ao seu dono", e portanto nada de mais justo.
Para quem não saiba o Diogo, filho do Bandeira Freire (que aparece na fotografia junto à placa de sinalização) era a criança de caracóis louros que aparecia num dos mais célebres cartazes do 25 de Abril, a colocar um cravo no cano de uma G3 (fotografia de Sérgio Guimarães, salvo erro)
Há umas semanas atrás o cinema Quarteto foi obrigado a fechar as suas portas; pouco tempo depois, no dia 28 de Abril, faleceu o seu fundador Pedro Bandeira Freire. Encerrou-se assim um dos mais importantes capítulos do cinema em Portugal.
No dia 29 de Maio faz 30 anos que fui pela primeira vez ver um filme ao Quarteto e, assim sendo, decidi fazer uma pequena homenagem (inclui galeria de cartazes) a essas salas de cinema, as mais cinéfilas de Lisboa. Podem partilhar as minhas memórias do Quarteto em: http://www.jorgeplace.com/CineLisboa/Quarteto/Quarteto.htm
Enviar um comentário