sábado, 4 de abril de 2020

Às Vezes Chegam Cartas

Edição original em LP UPAV U-90001
(PORTUGAL, Fevereiro 1990)

«Quando eu for grande quero ser / uma pedra do asfalto / o que lá estou a fazer / só se nota quando falto.» A quadra é de Manuela de Freitas e pertence a um dos mais belos temas do LP "Correspondências", de José Mário Branco. E é, talvez, também a frase que melhor resume a atitude do músico, de quem não se ouvia um trabalho novo desde "A Noite", publicado há cinco anos. Este longo hiato tem, por certo, uma explicação, até porque "Correspondências", gravado desde meados de 1989, teve que esperar ano e meio até ser publicado porque nada menos do que quatro editoras recusaram fazê-lo. Ouvindo o disco, nove cartas em forma de canção, todas elas com um destinatário explícito, não se entendem as razões de semelhante desinteresse: José Mário Branco permanece, no essencial, fiel às características que o transformaram numa referência fundamental da música portuguesa contemporânea, mas não tem medo de se arriscar por novos caminhos, em busca de uma linguagem sempre nova, por vezes mesmo surpreendente. "Quando Eu For Grande" é a prova dessa coerência (o arranjo vocal traz-nos à memória alguns dos grandes momentos do GAC (Grupo de Acção Cultural) e mesmo do álbum "A Mãe"), da mesma forma que "Sentido Único" nos fornece os elementos capazes de interpretar a sua evolução musical - que, acrescente-se, se faz em muitos e diversificados sentidos. Dono de uma linguagem própria, filiada na "grande família" da música popular, e que recusa (felizmente) os pós-modernismos da moda em favor de um experimentalismo digno e arrojado, José Mário Branco decidiu, pela primeira vez, entregar a responsabilidade pêlos arranjos a outros músicos (José Peixoto, José Martins, Júlio Pereira e Nuno Rebelo), assinando apenas dois deles. O resultado é muito interessante, na medida em que o ouvinte não sai defraudado pela quase "ausência" de Zé Mário na área que, desde sempre, lhe mereceu os melhores elogios do público. E também porque permite olhar sobretudo para o Zé Mário compositor e intérprete, afinal as duas vertentes fundamentais de qualquer trabalho seu. Um regresso que se saúda, portanto. Na esperança de que não seja preciso aguardar mais cinco anos para se ouvir um novo disco seu. (in RateYourMusic)


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