Edição Original em LP Orfeu STAT 025
(PORTUGAL, Junho 1974)
...
aconteça o que acontecer
não temos nada a perder
dê no que vier a dar
assim não podemos ficar...
... e haja lá o que houver
estou p’ró que der e vier.
Contemporâneo de “À Queima Roupa” de Sérgio Godinho, este segundo album de Fausto é de igual modo um trabalho concebido antes de Abril de 1974 e editado já com a Revolução em curso. Gravado no país vizinho, em Madrid, “Pró Que Der e Vier” inclui temas de grandes poetas portugueses, como Eugénio de Andrade e Mário Henrique Leiria e tem acompanhamento vocal de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Vitorino, que tem aqui o seu primeiro registo sonoro em disco. Na parte instrumental, e para lá do próprio Fausto, registe-se a presença de Júlio Pereira e de vários músicos espanhóis, que conferem ao album um som de grande qualidade sonora, onde se encontram bem patentes as raízes africanas de Fausto, adquiridas durante a infância e a adolescência em terras angolanas.
Com efeito, Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, nasceu a 26 de Novembro de 1948 em pleno Oceano Atlântico, a bordo do navio Pátria que transportava os seus pais para a antiga colónia portuguesa. Por muitos considerado o mais importante compositor vivo da música popular portuguesa, Fausto teve um início de carreira recheado de indecisões. E ainda em Angola que forma a sua primeira banda, o grupo pop "Os Rebeldes". Já em Portugal, frequenta o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), e é em plena vida académica que grava o primeiro album, “Fausto” (1969), de onde é extraído para single (EP Philips) o tema “Chora amigo chora”. O disco ganha o prémio "Revelação" do programa Página Um da RR.
Em declarações proferidas à revista Flama em 1970, Fausto hesita ainda na continuidade do trabalho musical: «nunca acreditei muito na minha voz, nem ainda hoje acredito. Já pensei várias vezes na data em que vou largar "isto". (...) Dizem-me que devo continuar, mas não sei bem se será até no próximo mês de Junho que porei o ponto final. Depois, cantarei apenas para os amigos e para mim próprio.» A realidade dos factos e dos anos encarregou-se de desfazer as dúvidas do então jovem estudante. Eleito presidente da direcção da Associação dos Estudantes do ISCSPU, Fausto viu o seu nome não ser homologado no cargo pelo Ministério da Educação, em consequência de um certo comprometimento político da sua actividade musical. E, como castigo, é chamado a cumprir o serviço militar, embora possuísse todas as condições para ter um adiamento. Em resultado, Fausto recusa-se a comparecer no quartel e é considerado refractário. É obrigado, por esta razão, a suspender os estudos universitários, permanecendo no entanto clandestinamente no País.
Entretanto conhece Manuel Freire que o apresenta a Adriano Correia de Oliveira e este, por sua vez, a José Afonso. É deste modo que se inicia a sua aproximação ao movimento renovador da canção portuguesa que, para além dos nomes citados tem ainda em Luís Cília, Vieira da Silva, José Mário Branco ou Sérgio Godinho as maiores referências daquela época. Os espectáculos ao vivo sucedem-se um pouco por todo o lado, quer em Portugal quer no estrangeiro (Espanha, França, Inglaterra e Alemanha tornam-se destinos de inúmeras actuações). Após o eclodir da Revolução de Abril desenvolve com todos os outros uma intensa actividade política e cultural por todo o País, iniciando também uma nova faceta, a de produtor e arranjador musical através de colaborações constantes em trabalhos alheios. Em Maio de 1974 é um dos membros fundadores do GAC – Grupo de Acção Cultural (juntamente com José Mário Branco, Afonso Dias e Tino Flores), do qual se separa em Setembro desse mesmo ano, para prosseguir a sua carreira a solo. A partir de 1988 (ano em que recebe o prémio José Afonso), os seus trabalhos tornam-se mais espaçados (edita apenas 3 albuns até aos dias de hoje), e em 1994 é condecorado com a Ordem da Liberdade.DISCOGRAFIA (Albuns Originais):
- 1970 - Fausto
- 1974 - Pró Que Der e Vier
- 1975 - Um Beco Com Saída
- 1977 - Madrugada dos Trapeiros
- 1979 - Histórias de Viajeiros
- 1982 - Por Este Rio Acima
- 1985 - O Despertar dos Alquimistas
- 1987 - Para Além das Cordilheiras
- 1988 - A Preto e Branco
- 1994 - Crónicas da Terra Ardente
- 2003 - A Ópera Mágica do Cantor Maldito
- 2011 - Em Busca das Montanhas Azuis




2 comentários:
Obrigado mais uma vez pela educão musical Portuguesa!
Onzi
Um dos melhores albuns da época e que ainda hoje se ouve com prazer.
Obrigado, Rato!
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