quarta-feira, 26 de agosto de 2020

"A princípio é simples, anda-se sózinho..."


Edição original no LP Orfeu STAT 062
(PORTUGAL, Maio de 1978)



A Sassetti, que integrava a etiqueta Guilda da Música onde tinha lançado os seus quatro primeiros albuns, estava longe de, em 1977, responder aos desejos de Sérgio Godinho, então com uma carreira que crescia em solidez e popularidade. Entre a concorrência, na altura, a Arnaldo Trindade era, a par da Valentim de Carvalho, quem tinha o maior acervo de artistas portugueses, o maior catálogo. Para lá gravavam, então, nomes como os de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto ou Vitorino, aos quais a partir daquele ano se juntou o nome de Sérgio Godinho. Primeiro trabalho, portanto, a ser editado pela Orfeu da Arnaldo Trindade, em Maio de 1978, “Pano Cru”, o quinto album de originais do Sérgio é ainda hoje, quase 40 anos depois (!), o meu favorito entre todos. Com um som de Moreno Pinto em que os graves, predominantes, conferiam logo desde a primeira faixa («...muito boa noite, senhoras e senhores...») um impacto sonoro de grande profundidade, “Pano Cru” concretiza os sinais de mudança indiciados no trabalho anterior. É um album-charneira na discografia de Sérgio Godinho que contém dez temas de grande qualidade. Como se costumava dizer, no tempo do vinil, um album em que só era necessário levantar a agulha para mudar de lado.


Um desses temas, “O primeiro dia”, tornou-se numa espécie de cartão de visita, e ainda hoje é apontado como um dos mais evidentes temas de referência da sua obra (talvez apenas suplantado, uns anos mais tarde, pelo também emblemático “Com um brilhozinho nos olhos”). Em Janeiro de 2000, numa lista de Canções Portuguesas do Século, segundo os leitores do DN, a canção surgiu em terceiro lugar, logo depois de “Povo que lavas no rio” por Amália Rodrigues e “Grândola vila morena” de José Afonso. «"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida" é uma frase que me é naturalmente atribuída, mas o que é irónico é que nem sequer é minha», lembra Sérgio Godinho - «existia desde há muito e eu, aliás, faço questão de assumir isso na canção: “...e vem-nos à memória uma frase batida...”. É uma canção que fala da regeneração dos afectos e das forças numa situação de ruptura. Poderá ser o final de um amor, ou ter interpretações mais latas, o final de um qualquer ciclo.» Anos mais tarde, em 1995, Sérgio Godinho interpretou ao vivo uma versão italiana traduzida por ocasião da atribuição do prestigiado Prémio Tenco, entregue por um evento anual de grande projecção em Itália, a Rassegna Della Canzone d’Autore. Uma preciosa raridade em disco, “Roba di Amilcare”, esta versão encontra-se apenas editada no país de origem do certame. «“O galo é o dono dos ovos” é uma canção que tem muita carpintaria. Procurei ser conciso a nível das metáforas, algo que aprendi com tipos como o Brassens, mais tarde o Chico Buarque. Gosto que uma canção seja bem carpinteirada, o que não impede que não tenha depois surpresa, irreverência, desvarios, e de repente uns pregos de fora.»


“Pano Cru” tem, como habitualmente, a presença de grandes músicos: Pedro Osório (piano, acordeão), Carlos Zíngaro (violino, cavaquinho), Paulo Godinho (baixo) e Guilherme Scarpa (bateria), para além do próprio Sérgio (viola) e de algumas outras colaborações esporádicas, como Carlinhos Tumbadoura (ferrinhos) ou Armindo Neves (viola-solo em “Feiticeira”). Nos coros destaque-se o suporte de Fausto, Shila e Eugénia Melo e Castro. A capa do disco surpreendeu então muita gente. «Era uma fotografia retocada à mão pelo gráfico Zé Brandão, e a foto de dentro uma brincadeira durante a sessão de estúdio, que serviu também para quebrar qualquer imagem mais séria. Era preciso, nessa altura...» Em Espanha o album conheceu edição, todavia com capa diferente e título traduzido para espanhol: “Retor”. «Foi uma iniciativa simpática, mas que não teve repercussão nenhuma. Para mim, e para três ou quatro espanhóis, é apenas um objecto de colecção.» Aliás raríssimo, difícil de encontrar nas feiras do disco que correm a Península Ibérica.


«A princípio é simples, anda-se sózinho,
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E é então que amigos nos oferecem leito,
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja,
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa,
brinda-se aos amores com o vinho da casa
vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!»

4 comentários:

Anonymous disse...

Excelente. Uno de los mejores trabajos de Godinho.

Gracias Rato

Fernando

Anonymous disse...

festival gloria ao rock 2008
4/5 de julho
gloria do ribatejo

Anonymous disse...

www.festivalgr.blogspot.com

aparece e divulga

Rochacrimson disse...

Um dos melhores albums portugueses de sempre!!!!!!!

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