Edição original no LP Guilda da Música 003
(PORTUGAL, Novembro de 1971)

Tal como se referiu no post dos "Sobreviventes", este album foi apresentado no dia 26 de Novembro de 1971, em Lisboa, no Cinema Roma, juntamente com o EP introdutório à obra do Sérgio Godinho. Sem a presença dos dois músicos, na altura exiliados em França, a sessão foi transmitida em directo pelo "Página Um" da Rádio Renascença, um programa da autoria do jornalista Adelino Gomes. Ambos os trabalhos musicais foram passados na íntegra, bem como entrevistas dos dois intérpretes feitas a partir de Paris. Recorde-se que, à semelhança dos "Sobreviventes", também este album foi gravado no Strawberry Studio do Chateau d'Hérouville, onde anteriormente tinha sido gravado o mítico "Cantigas do Maio" de José Afonso (com produção e direção musical do próprio Zé Mário Branco). Estes dois albuns de estreia do Sérgio e do Zé Mário foram efectivamente duas obras que contribuiram decisivamente para agitar a música portuguesa dessa altura, que parecia perdida (José Afonso à parte) num beco sem saída. Esse "abanão" traduziu-se numa nova dinâmica da canção, quer em termos musicais quer em termos de linguagem poética.
Neste "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (título premonitório do que estava para vir) vinha incluído um texto de apresentação de José Duarte que aqui se recorda: «Primeiro em afirmações definitivas num jornal cor de rosa, depois em cantigas do amigo D. Dinis, a seguir com canções em circuito concêntrico, por fim numa esplanada de Paris - assim conheci José Mário Branco. Estamos perante um mural sonoro de Portugal das últimas gerações, um mural onde as cores são a mordacidade, a caricatura: uma simbologia transparente com tipos populares: uma grande romaria viva e em movimento. Um mural onde os temas são a emigração e o regresso, as guerras e os senhores, a juventude perdida, a esperança sem fundo, o medo e os fantasmas, o tempo e as novidades; tal como em "Perfilados de Medo", a linha quebrada de sons electrónicos é uma interferência, uma ameaça na arquitectura vocal e obstinada do arranjo do medo. Assim, esta obra combate uma tradição onde a palavra é o som mais inteligível. Assim se encerra a fase confusa da nova música portuguesa. Assim se inaugura uma época nova onde também cantar bem e compôr melhor serão condições a exigir à canção útil; da afirmação da palavra à desafinação das cordas, à percussão das peles e teclas, à imaginação nos arranjos, à criação melódica, à vocalização justa: aqui o circo foi desmantelado com todas as ferramentas do som». "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" tornar-se-ia num expressivo sucesso público, vendendo rapidamente a sua primeira tiragem de 5000 exemplares.






5 comentários:
Esta capa sempre me intrigou. Depois de aberta (lembre-se que se tratava de uma capa dupla, "gatefold", na terminologia técnica inglesa) e vista as partes da frente e verso simultaneamente (exactamente como aqui é mostrada) dá a ideia de ser um olhar - a atirar pró demencial - de um rosto a preto e branco. Seriam os próprios olhos do Zé Mário Branco? Se alguém conhecer a história é favor dar aqui a respectiva explicação, s.f.f.
Eu penso que sejam os olhos do próprio Zé Mário...
Não o tenho aqui à mão (mas se vier à baila vou buscá-lo), mas acho que na reedição de 96 ele explica a capa.
Pelo menos o facto de as coisas serem a preto e branco. Não só literalmente.
Muito Obrigado. Grande disco.
Para mi, el mejor disco de José Mário Branco. La introducción dedicada a la estación de Austerliz ya vale por todo el disco. Una maravilla. Compré el Lp. cuando se publico. ¿Podrías volver a subirlo? Un millón de gracias.
Muchas, muchísimas gracias. Magnífico Blog y magnífico disco. Excelente.
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