Albert Hofmann, o pai acidental da droga psicadélica mais potente do mundo, morreu anteontem, dia 29 de Abril, de ataque cardíaco na sua casa perto de Basileia, na Suíça, aos 102 anos de idade. Terá morrido “feliz e satisfeito” por ter visto “a renovação da investigação científica da psicoterapia à base de LSD”.
A imagem projectada por este homem, nascido em Baden em 1906, doutorado em 1929 pela Universidade de Zurique, que vivia numa pacata vila do Jura e trabalhou sempre (até 1971) para a empresa farmacêutica Sandoz, hoje Novartis, não corresponde a alguém que tomou ácido centenas de vezes ao longo da vida, a droga predilecta do movimento hippie nos anos 60. Imagina-se um severo cientista de comportamento tão impecável como a sua imaculada bata de laboratório, mas Hofmann defendeu sempre o LSD enquanto “medicamento da alma” – não só contra doenças do foro psiquiátrico como a esquizofrenia, mas também para combater a superficialidade humana dos tempos modernos.
Tudo começou na sexta-feira 16 de Abril de 1943. Hofmann estava a repetir, no seu laboratório da Sandoz, em Basileia, experiências com a “dietilamida de ácido lisérgico-25”, o vigésimo quinto composto que fabricara a partir da chamada ferrugem do centeio. Nesse dia, Hofmann começou subitamente a ter vertigens (sob o efeito de uma ínfima dose de LSD-25 que pingou na sua mão e que terá inalado ou absorvido através da pele). Como não se conseguia concentrar, decidiu ir para casa, onde passou o resto do dia mergulhado em coloridas alucinações.
Na segunda-feira seguinte, regressou ao laboratório já recuperado e convencido que o estranho estado mental do fim-de-semana se devia ao LSD-25. Para o confirmar tomou, desta vez deliberadamente, um quarto de grama – uma dose pelo menos cinco vezes maior do que é necessário para ter alucinações. Temendo ficar doente, pegou na bicicleta e foi para casa – mas a trip apanhou-o a meio caminho. Para os adeptos do LSD, aquele dia será para sempre recordado como o “dia da bicicleta”.
Hofmann publicou mais tarde um relato da sua experiência contando que, na altura, pensou que tinha enlouquecido. Desta vez, a trip foi má e Hofmann teve alucinações aterrorizadoras. No dia seguinte, os efeitos tinham desaparecido e Hofmann sentia-se “perfeitamente bem”.
Os efeitos do LSD são espectaculares; é literalmente a droga dos efeitos especiais. Em particular, surgem alterações na percepção do tempo e do espaço e as sensações visuais tornam-se extremamente vívidas. A música pode evocar sensações visuais e a luz produzir impressões sonoras. A viagem começa 30 a 60 minutos depois da ingestão e dura cerca de 10 horas. No entanto, podem também acontecer flashbacks alucinatórios durante anos sem que a pessoa tenha novamente consumido ácido.
Para além disso, tal como a segunda trip de Hofmann no dia da "bicicleta" já o deixava prever, as experiências são muito variáveis e pessoais e podem ir – conforme a personalidade, as expectativas, e o ambiente em que o LSD é consumido – do maravilhoso ao pesadelo. Há quem sinta um tal pânico e manifeste sintomas tão marcadamente psicóticos que precisa de ser hospitalizado.
Entretanto, o LSD começou a ser utilizado para fins puramente recreativos. Entre as pessoas que o experimentaram e que divulgaram as suas experiências encontram-se celebridades como o escritor Aldous Huxley e o actor Cary Grant.
A festa acabou em 1966, quando a imprensa começou a revelar os casos de jovens que se atiravam pela janela, que se tornavam psicóticos, ou que olhavam para o Sol até ficarem cegos (estima-se que, nesse ano, houvesse quatro milhões de utilizadores norte-americanos). Quando o LSD se tornou ilegal, Leary e outros gurus da geração psicadélica foram presos nos EUA, no meio de um violento debate social. O consumo de LSD continua hoje, embora com menor impacto.
(Ana Gerschenfeld in “Público”, 1 de Maio de 2008)
O MUNDO FOI PSICADÉLICO
"Lucy In The Sky With Diamonds". John Lennon insistiu que fora inspirada por um desenho do filho Julian, mas uma sigla nada disfarçada no título e as vívidas imagens grafadas em verso (the girl with caleidoscope eyes; rocking horse people eat marshamellow pies) tornaram-na sinónimo de LSD. Para uma geração que procurava o colapso de um mundo "velho", corporizado pela geração que os antecedia, o ácido criado por Albert Hoffman representou o "novo" à espera de revelação.
Tinha a caução literária de Aldous Huxley, que defendera em “As Portas da Percepção e Entre o Céu e a Terra” o uso de drogas alucinogéneas como porta de entrada para "o milagre da Criação". Tinha o apoio do psicólogo Timothy Leary que, durante a década de 1960, pela defesa empenhada do estudo e utilização de LSD, se tornaria proscrito pela comunidade científica enquanto era erguido a ícone da contracultura hippie.
Em 1965, Kim Fowley editara "The Trip", considerada a primeira canção a referir directamente o uso da droga. A incitação inicial, misto de perversidade e inocência (Summertime is here kiddies / And it's time to take the trip), disparava o tiro de partida para a era psicadélica, uma das marcantes e influentes na história da música popular urbana.
Por essa altura, os Grateful Dead viajavam pelos Estados Unidos com o colectivo Merry Pranksters (liderado por Ken Kesey, futuro autor de "Voando sobre um Ninho de Cucos"), criando a banda sonora dos Acid Tests, happenings onde a música ácida e convulsiva da banda, a par das luzes faiscantes e das projecções simulando lava de cores berrantes, potenciava os efeitos do LSD distribuído gratuitamente aos participantes. Pouco demoraria até que tais manifestações, subterrâneas, contaminassem grande parte da criatividade da época.
Na costa oeste americana, bandas como os Jefferson Airplane ou os Country Joe & The Fish faziam da sua música um espelho da experiência psicadélica - os primeiros transformaram Alice no País das Maravilhas na trip "White Rabbit", os segundos imaginaram o Presidente Lyndon Johnson a comer flores e beijar crianças sob o efeito da droga.
O poderoso colorido surrealista suscitado pelo LSD transformou para sempre a música pop, que se libertou lírica e sonicamente num vibrante caleidoscópio de experiências - do rock"n"roll, que é também jazz cósmico, que é também ficção científica, de “Interstellar Overdrive”, dos Pink Floyd, ao “I Can See For Miles” dos The Who ou ao “Are You Experienced?” de Jimi Hendrix. Onde quer que a influência da cultura pop se fizesse sentir, registaram-se ecos da transformação. Na Alemanha, bandas como os Can ou os Neu! adaptaram-na à frieza mecânica germânica, enquanto no Brasil os Mutantes lhe davam exuberância tropical e, no Portugal a preto e branco do Estado Novo, José Cid cantava com os Quarteto 1111, no single "Monstros Sagrados", algo como a minha geração tomou pastilhas multicores e partiu na longa viagem.
No momento em que Paul McCartney revelou, em entrevista à televisão britânica, o consumo de LSD, tornou-se oficial aquilo que, de qualquer modo, estava já visível aos olhos de todos. Quer os seus actores consumissem ou não LSD - interessava tanto a experiência real quanto a reprodução desse imaginário - a música era psicadélica, a moda era psicadélica, a publicidade era psicadélica e o cinema, com o fenómeno teen Monkees a estrear o delirante "Head", com "Easy Rider" e a sua famosa cena de trip no cemitério, também o era.
A ressaca que se seguiu - por excesso de ácidos, pelo desmoronar da utopia escapista de 1960 - marcou o fim do psicadelismo como fenómeno transversal. As suas manifestações, contudo, mantiveram-se presença constante até à actualidade. Estão nas espirais místico-dopadas dos Spiritualized, estão na cultura rave, herdeira dos Acid Tests dos Merry Pranksters, estão na multiplicidade de músicos, do guru psicadélico Julian Cope ao artesão digital Caribou, que continuam a extrair e inventar novas matérias criativas dos sons e da estética desses anos 1960 pintalgados com várias gotas de LSD. (Mário Lopes)















1 comentário:
fantastic rato, a psychadelic swirl..nice article :)
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