quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MOUSTAKI: LES DEUX PREMIERS LPs


LE MÉTÈQUE
Original released on LP Polydor 184851
(FRANCE, 1969)


Vinha do tempo em que os animais falavam, se quisermos perceber a doçura que há nesta expressão e na ideia quando olhamos a música popular. Significa que era um dos pilares, um dos últimos guardiões de uma época em que as palavras em francês ainda tinham – passe a redundância – uma palavra a dizer na definição das regras da canção antes da hegemonia esmagadora do império anglo-americano. Mais: o homem era um dos exemplos da disponibilidade gaulesa para aceitar gente de fora entre os seus maiores. Basta lembrar que Henri Salvador veio da Guiana, Jacques Brel e Adamo eram belgas, Serge Reggiani e Yves Montand nasceram em Itália, Charles Aznavour pertence a uma família da Arménia, Dalida nasceu no Egipto. Tal e qual como o homem que aqui nos traz, filho de gregos judeus [de língua italiana], mais um dos talentos descobertos por Edith Piaf, admirador incondicional de Georges Brassens ao ponto de lhe ter pedido emprestado para sempre o nome próprio, a que juntou depois uma adaptação do apelido. Símbolo do Maio de 68, vagabundo incorrigível das canções: é de Georges Moustaki [de seu verdadeiro nome Giuseppe Mustacchi] que aqui se fala, ao mesmo tempo que nos lembramos de "Le Métèque" ou de "Ma Liberté", de "Milord" ou de "Il Faudra Mourir un Jour"E voltamos a concluir que este parceiro de barba e cabelos soltos, tantas vezes fotografado com a viola que o seguia para toda a parte, personificou o lado bom da globalização ao assumir sem preconceitos, e com todas as vantagens para quem o ouvia, a sua miscigenação cultural.


IL Y AVAIT UN JARDIN
Original released on LP Polydor 2393.019
(FRANCE, 1971)


Gravou em, pelo menos, meia-dúzia de idiomas – francês, italiano, castelhano, português, grego e árabe – e teve oportunidade de completar os cinquenta anos de carreira, até que uma insuficiência respiratória ditou o irreversível e amargo adeus aos palcos e aos estúdios. Antes de oferecer "Milord", um clássico, a Edith Piaf [1958], já tinha mergulhado nas causas e nas boémias parisienses, tendo chegado à cidade em 1951. Tinha dezassete anos. Acabaria por ser cantado por muitos dos grandes: de Salvador a Herbert Pagani, sem esquecer Barbara, Montand, Reggiani, Françoise Hardy ou a eterna Juliette Gréco, a mesma que sobre a sua morte deixou justas sentenças: «Georges possuía uma doçura infinita e imenso talento. Era, como todos os poetas, alguém diferente, porque acaba sempre por ser essa diferença que conduz ao talento». Colaborou com alguns dos seus músicos de eleição, de Astor Piazzolla a António Carlos Jobim. Deixa cerca de trezentas canções como bandeiras de um património em que a simplicidade sempre andou de braço dado com a convicção, tendo igualmente assinado adaptações memoráveis como, por exemplo, a do "Fado Tropical", de Chico Buarque, a que chamou simplesmente "Portugal". Usou-a para festejar a Revolução Portuguesa. Despediu-se de nós na última digressão em 2008, quando lançou o espantoso disco "Vagabond". Com ele, morto aos 79 anos, desaparece provavelmente o último de um grupo, mais do que de uma geração, de geniais autores, daqueles que usamos como faróis de nevoeiro nos dias cinzentos como os de agora. Dele disse Leo Ferré: «Georges sussurra onde eu grito, mas é a mesma coisaFerré sabia o que dizia: depois de "Avec le Temps" não há canção maior sobre a erosão e o desgaste do amor do que 'La femme qui est dans mon lit / N'a plus vingt ans depuis longtemps' [canção "Sarah"]. É de Georges Moustaki, um daqueles que parte mas fica para sempre. (João Gobern, 2013).

2 comentários:

Mike disse...

Thanks for 2 great albums by an artist pretty much unknown in the USA. I'm glad to be able to upgrade my old low quality vinyl rips.

I believe that I first hear Georges Moustaki via Radio Veronica when I lived in London in the late 60s and early 70s. About that time, some French girls showed his albums to me in a record store, and I purchased an LP or two...

Georges was frequently on our turntable in that era, along with Francoise Hardy, Demis Roussos, Mireille Mathieu and Leonard Cohen...

Thanks again for the memories and the music!

Mike

Willians disse...

Obrigado, Rato, estava atrás de discos do Georges Moustaki. Realmente é aqui um dos melhores points da boa música. Valeu.

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