sexta-feira, 11 de novembro de 2016

So Long, Mr. Cohen!


Morreu Leonard Cohen. Poeta e escritor, cantor e compositor, o canadiano de 82 anos, feitos em setembro passado, já nos tinha avisado no seu último álbum, onde canta logo a abrir: "Hineni, hineni / I'm ready, my Lord". Na altura do lançamento de "You Want It Darker", em outubro passado, carregou nas tintas dizendo-se tal e qual, "preparado para morrer". Dias depois, a 13 de outubro, no consulado canadiano de Los Angeles, brincava. "Acho que exagerei. Sempre tive tendência para dramatizar. Pretendo viver para sempre." O anúncio da sua morte foi feito pela sua editora, a Sony Music Canada, na página oficial no facebook do músico: «É com profunda dor que anunciamos que o lendário poeta, compositor e artista, Leonard Cohen, faleceu. Perdemos um dos mais aclamados e prolíficos visionários da música. Uma cerimónia terá lugar em Los Angeles em breve. A família pede privacidade durante este período de luto.» Não foi revelada a causa da sua morte (ocorrida no passado dia 7, mas só revelada ontem pela família).


Leonard Norman Cohen nasceu no Quebeque, na cidade de Westmount, arredores de Montréal, a 21 de setembro de 1934. A música entrou cedo na sua vida, na adolescência, com os Buckskin Boys, um grupo folk de que não reza a história: o contacto com a poesia de Federico Garcia Lorca, de quem muitos anos mais tarde musicaria "Take This Waltz" (1988), conduziu-o à escrita - de poemas e romances. Publica três livros, quando nos anos 1960 se instalou numa ilha grega, Hidra: "The Favourite Game" (1963), "Flowers for Hitler" (1964), que reunia poemas seus, e "Beautiful Losers" (1966). Mas regressará à América e à música. De visita a Nova Iorque, contacta de novo com a música folk e conhece a cantora Judy Collins. Publica então "Songs of Leonard Cohen" (1967), que abre com "Suzanne", canção maior de amor, como tantas na sua pena, de um álbum fulgurante - nas suas palavras e guitarras e coros - e onde também se ouve "So Long, Marianne"Em agosto passado, soube-se que a Marianne da canção tinha morrido e Leonard escreveu-lhe uma carta de despedida, em que mais uma vez falava da morte. «Sabes Marianne, chegou este tempo em que estamos realmente tão velhos e os nossos corpos estão caindo aos poucos que acho que vou seguir-te muito em breve. Sei que estou tão perto de ti que se esticares a tua mão, acho que consegues tocar na minha.»


A esta estreia seguiram-se dois outros álbuns fundamentais no cancioneiro americano: "Songs From a Room" (1969) e "Songs of Love and Hate" (1971). Nos últimos anos, Cohen multiplicou os seus álbuns de originais em longas digressões e álbuns ao vivo que reproduziam os seus concertos. Estes primeiros anos da década de 1970 foram pródigos para o canadiano, culminando na obra-prima que é "New Skin for the Old Ceremony" (1974), que tinha sido antecedido de "Live Songs" (1973). A seguir, os álbuns foram sendo mais espaçados: "Death of a Ladies Man" (1977), com uma produção turbulenta e opulenta por Phil Spector; "Recent Songs" (1979) e "Various Positions", já em 1984. É o álbum de "Hallelujah", a canção que John Cale e, mais ainda, Jeff Buckley, resgataram em toda a sua violenta beleza de sexo e amor, num poema que bebia na Bíblia (o rei David que se enamora de uma mulher). Com os anos 80, Cohen, já para lá dos 50 anos, arrisca composições onde os sintetizadores de "I"m Your Man" (1988) sublinham uma poesia bem-humorada e socialmente crítica, cada vez mais declamada na voz inconfundível que a idade foi enrouquecendo. "The Future" (1992) aprofunda esse caminho, antes de Leonard se remeter a um longo silêncio e dedicar-se ao budismo. O jejum quebra-se em 2001 com "Ten New Songs" e "Dear Heather" (2004). Nos últimos anos, a idade não atrapalha Cohen que se vê obrigado a regressar à estrada. Roubado pela sua agente de muitos anos, Kelley Lynch, em cinco milhões de dólares (4,5 milhões de euros), são os seus fãs de sempre que ganharam mais, com digressões gigantes - 247 concertos de 2008 a 2010, contabilizou a Rolling Stone. Cohen ainda mostrou as suas "Old Ideas" (2012) e os seus "Popular Problems" (2014), lançado um dia depois de completar 80 anos. Parecia eterno.


Antes do trabalho que lançou este ano, no tal encontro no consulado canadiano, Cohen ouviu um elogio feito por Bob Dylan, dias antes laureado com o Nobel da Literatura (que muitos diziam ser merecido por Cohen) Dylan afirmava num artigo que «quando falam de Leonard, evitam mencionar as suas melodias, quando estas, juntamente com as suas letras, são a sua verdadeira genialidade». Cohen replicou que Dylan foi "muito generoso", mas preferiu elogiar antes o galardoado. «Não vou dar uma opinião sobre o que ele disse, mas sim sobre ter recebido o Prémio Nobel, o que para mim foi como dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta [do mundo]»Em Agosto, quando se despedia de Marianne, Leonard escrevia que "lhe desejava uma muito boa jornada". «Adeus minha velha amiga. Amor infinito, encontramo-nos no caminho», completou. Judeu convertido ao budismo, Cohen nunca deixou de trazer muitas referências religiosas. "Hineni", que canta no seu álbum de despedida, é uma palavra hebraica que significa "aqui estou", dita por Abraão a Deus. No passado dia 7, Leonard cantou-a pela última vez.


DISCOGRAFIA (albuns de estúdio):

1967-12-27 > Songs of Leonard Cohen
1969-03-24 > Songs From a Room
1971-03-19 > Songs of Love and Hate
1974-08-11 > New Skin for the Old Ceremony
1977-11-13 > Death of a Ladies’ Man
1979-09-27 > Recent Songs
1984-12-11 > Various Positions
1988-02-02 > I’m Your Man
1992-11-24 > The Future
2001-10-09 > Ten New Songs
2004-10-26 > Dear Heather
2012-01-31 > Old Ideas
2014-09-22 > Popular Problems
2016-10-21 > You Want It Darker


Meu grande sacana,

Passámos um fim-de-semana juntos em que me fizeste esquecer que eras o meu herói. Quando acabou fiquei com dois heróis: com o Leonard Cohen das canções e com o Leonard Cohen em carne e osso. Embebedámo-nos com Bloody Marys e, a certa altura, tu reparaste que eu tinha a mania de desdizer o que tinha acabado de dizer. Eu disse-te que era um tique português. Primeiro afirma-se um disparate ou uma verdade. Depois continua-se “E, no entanto…” “And yet!”, gritaste, “the two greatest words in any language!” Depois desataste a dar exemplos. A uma mulher que te amava e queria casar contigo: “I love you…AND YET…I cannot marry you this year”. Ao barman: “Bem sei que já bebi a minha conta…AND YET…apetece-me outro Bloody Mary”. Prometemos escrever um ao outro. Quando eu falhei mandaste-me um telegrama com duas palavras e três pontos: “AND YET…”


Depois da notícia quase funerária no New Yorker fizeste questão de aparecer em Los Angeles a dizer que, quando disseste que estavas pronto para morrer, estavas a ser dramático. Fizeste-nos rir. Prometeste viver até aos 120 anos. Prometeste-nos mais dois álbuns de canções. Mentiroso! Sempre foste o mais sublime dos mentirosos. Nem era preciso mentires: eu julgava que ias viver para sempre, como sempre tinhas vivido. Agora morreste e obrigas-me a escrever estas palavras lavadas em lágrimas. AND YET… E, no entanto, tiveste uma vida feliz. Fizeste o que querias. Amaste e foste amado. Trabalhaste nas canções mais bonitas e elevadas do nosso tempo. Já há mais de 60 anos que andaste a falar com Deus, a preparar o teu caminho. Foste um pecador de primeira AND YET…e, no entanto, algo me diz que vais ser muito bem recebido no reino dos céus, se fôr para aí que combinaste ir.


Deixaste-nos. Avisaste muitas vezes que nos ias deixar. Deixar tornou-se a tua especialidade. Ninguém se despedia tão bem como tu. Ninguém dava à sola tão depressa como tu, tão bem vestido, com sapatos feitos para percorrer as grandes distâncias do amor e da vida. Partiste e, no entanto, continuas cá. Eu vi o tamanho do teu caderno gigante, cheio de versos e desenhos. Espero bem que haja centenas de canções que tu julgaste que ainda não estavam prontas, mas que estão. Agora que morreste escusamos essas canções de serem perfeitas, como aquelas que escreveste e cantaste enquanto eras vivo. Enquanto eras vivo - estas palavras ainda custam mais a escrever do que a simples palavra “morreste”. Sabes porquê? Aposto que ainda sabes mais, aí no lugar onde estás, na Tower of Song. Porque “morreste” ainda é uma coisa que tu fizeste. Morreste, sacana. É uma coisa de que podemos acusar-te; é um verbo que podemos atirar-te à cara. Em contrapartida “enquanto eras vivo” já pertence a um passado em que já fizeste tudo o que tinhas para fazer, incluíndo morrer.


Uma pessoa tem de morrer. E até a morrer foste um senhor. Pouco antes de morrer - sabemos agora - percorreste o mundo para cantar as tuas canções a quem quisesse ver-te a cantá-las. E melhor do que em qualquer outra altura da tua vida. Tu foste daqueles que melhoram à medida que se aproximam da morte. Aproximaste-te devagarinho, sem ser a medo, como se a morte fosse a última mulher. Cantaste-lhe a canção do bandido - nunca ninguém será capaz de cantá-la melhor do que tu - a ver se ela ia na tua cantiga. Deitaste-te com ela na esperança que ela te esquecesse. And yet e, no entanto (aqui sinto-te a sorrir) ela deu cabo de ti à mesma. Toda a vida dançaste com Deus e com a morte – às vezes eram mulheres, outras vezes professores – e algumas dessas vezes acabaram como canções, divinas de amor e de vida, escritas por quem conheceu a alegria e a tristeza de amar e viver e viver e amar.


Morreste, Leonard Cohen e, no entanto, continuas vivíssimo para quem já morreu. Hoje de manhã, quando ouvi "You Want It Darker", como faço todas as manhãs desde que saíu o álbum, pensei que ia chorar, por ser a primeira vez que o ouvi sabendo que estavas morto. Mas não chorei. As canções fizeram o que sempre fizeram: encheram-me de força, abriram-me ao medo e à beleza de estar vivo. Adeus, Leonard Cohen, dizemos nós como se não soubéssemos que já lá estás. (Miguel Esteves Cardoso in "Público")


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