sexta-feira, 7 de outubro de 2016

CARLOS MENDES: "Amor Combate"

Edição original em LP Toma Lá Disco TLP 003
(PORTUGAL, Setembro 1976)







Meu amor que eu não sei
amor que eu canto
amor que eu digo.

Teus braços 
são a flor do aloendro.

Meu amor 
por quem parto 
por quem fico
por quem vivo.

Teus olhos 
são da cor do sofrimento.

Amor-país
quero cantar-te
como quem diz:
o nosso amor 
é sangue
é seiva
é sol 
é Primavera.

Amor intenso.
Amor imenso.
Amor instante.

O nosso amor 
é uma arma 
é uma espera.

O nosso amor 
é um cavalo alucinante
o nosso amor 
é pássaro voando 
mas à toa
rasgando o céu 
azul-coragem de Lisboa.

Amor partindo.
Amor sorrindo.
Amor doendo.

O nosso amor 
é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar 
estas palavras amarradas
para escrever com sangue 
o nome que inventei.

Romper 
ganhar a voz 
duma assentada
dizer de ti 
as coisas que eu não sei.

Amor.
Amor.
Amor.

Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. 
Amor-cidade.
Amor-combate.
Amor-abril.

Este amor de liberdade

Assim se lê o poema que baptiza este disco, um dos mais límpidos trabalhos de Carlos Mendes. O dicionário fornece os seguintes significados para essa palavra: claro, transparente, puro, sem mancha, qualquer deles adaptando-se na perfeição ao pulsar geral do album. Ao poema-título Joaquim Pessoa adicionou mais dez e Carlos Mendes teve o bom gosto de os musicar a todos. Nascia assim, entre os meses de Fevereiro e Agosto de 1976, o 1º album publicado pela “Toma Lá Disco”, a primeira editora discográfica independente que existiu em Portugal, fundada nesse mesmo ano por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, entre outros autores. Não admira portanto que estes últimos tenham colaborado também na gravação deste disco, quer adicionando as suas vozes aos coros quer participando como músicos de estúdio. Aliás, é impressionante a quantidade (e qualidade) dos músicos presentes (ver ficha técnica) o que não impediu o som final de apresentar as tais características simples e cristalinas a que se fez referência.


“Amor Combate” seria premiado pela crítica como o Melhor Disco do Ano. Não obstante essa distinção, em mais de 30 anos decorridos, não houve sequer uma alminha responsável por uma qualquer editora que o tentasse re-editar em CD. É assim o país em que vivemos. Aproveitem pois mais esta iniciativa de Rato Records que aqui vos disponibiliza uma pérola rara da música portuguesa e com uma qualidade sonora capaz de fazer corar de vergonha muitas gravações recentes que por aí abundam; por certo de êxito fácil e garantido mas provavelmente sem a importância nuclear deste registo. Deixo-vos agora com a minha canção preferida:

CANÇÃO AMARGA

Descubro em ti 
a dor que eu próprio invento
a fúria que me bate
a força que me chama
amor agreste 
a rosa sobre a lama
chuva de Abril
anel de sofrimento.

Descubro em mim 
o porto aonde moras
e a tua ausência 
na cama onde me deito
Invento a flor mais triste 
quando choras
e a noite principia 
no meu leito

Tu és o linho 
o beijo 
a despedida
és o instante 
a hora 
a vida inteira
és o meu lume 
o fogo da lareira
a fúria da razão 
mesmo vencida.

Eu sou o vinho 
a raiva 
ou a loucura
já nem sou nada 
sou tudo o que quiseres
mas onde estás? 
onde é que eu te procuro?
pássaro triste 
irei onde estiveres.

Ai meu amor 
meu canto de amargura
morres em mim 
tão perto de viveres!

11 comentários:

nowhereman disse...

Tal como o nosso amigo Rato diz este album é uma "pérola rara da música portuguesa". Lembrava-me da maioria das canções, lembrava-me da belissima capa também. O que não me lembrava era de ouvir o album inteiro, assim do princípio ao fim. Acho que nunca o cheguei a comprar quando ele saíu ou se o fiz ele perdeu-se de mim há já muitos anos. Por isso mesmo MUITO OBRIGADO RATO, por esta prenda tão bonita.
Incompreensivelmente até a Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa é omissa sobre esta obra-prima: na entrada consagrada a Carlos Mendes o ano de 1976 apenas traz uma referência a um disco infantil, "Operários do Natal", também editado pela "Toma Lá Disco". Como é que se pode passar ao lado de um album tão fundamental como este? Pelos vistos sempre se passou e sempre se continua a passar.

Anonymous disse...

Isto é realmente muito muito bom. Obrigado Rato!

João Pimentel

Rato disse...

Acho que vou levar o disquinho debaixo do braço quando for ver Os Sheiks prá semana que vem e fazer uma surpresa ao Carlos Mendes com uma cópia em CD. É bem possível que ele próprio não tenha o original, mas esse é claro que não lho ofereço, peço-lhe é uma assinatura na capa interior.

Anonymous disse...

Julgo que a razão principal da não re-edição do album se prende com a extinção da editora "Toma Lá Disco" (já não existe, pois não?). Mas os direitos devem pertencer a alguém, não?

Rato disse...

Missão cumprida! Apesar de ter ainda o vinil original o Carlos Mendes ficou agradavelmente surpreendido pela cópia em CD que lhe ofereci ontem à noite no São Luiz, depois do espectáculo dos Sheiks (grande momento, o da imitação do Elvis)

delta disse...

Foi bom ter passado por aqui.

Obrigado

http://deltagata4.blogs.sapo.pt/

ruibasto disse...

Se cada par de namorados (ou amantes...ou...) tem uma música, esta é a nossa...
Lembra-me o beijo...não UM beijo, mas O Beijo. (já fez 25 anos...)

Obrigado

pinto.aa disse...

Eu possuí o LP "Amor Combate". For herança de um irmão mais velho. No entanto nas voltas da vida, acabou por desaparecer...Agora, fuçando na net, à procura de algum link milagroso vim pousar aqui no seu blog. Mas pobre de mim, o link esfumou-se.
Se por acaso num vislumbre de tempo, pudesse enviar-mo ou quem sabe, recolocar aqui de novo...
Um grande bem haja

Al.

Billy Rider disse...

Um autêntico serviço público, este maravilhoso blogue, onde a quantidade é sempre preterida face à qualidade (contrariamente à grande maioria dos blogues que por aí abundam e que normalmente "vendem gato por lebre"). Muito obrigado pelo cuidado posto em todos os posts - que nos garantem, sempre, uma grande qualidade gráfica e sonora.
Bem hajam!

Anónimo disse...

Mais uma vez, os meus agradecimentos pela reposição deste álbum, cumprimentos e continuação de excelente trabalho.

Anónimo disse...

Viva Rato!

Excelente a ideia de digitalizar estas pérolas da nossa memória colectiva.

Não sei se posso e como posso aceder aos ficheiros digitalizados.
Será possível o envio de uma dica?

Serafim Prates

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